A variação de preços da gasolina em Fortaleza tem gerado um impacto significativo no orçamento dos consumidores. Segundo levantamento da Agência Nacional do Petróleo (ANP), realizado em 160 postos da capital, de 1º a 29 de maio, a diferença entre o bairro mais caro e o mais barato chega a R$ 0,39 por litro, permitindo uma economia de até R$ 19,50 por cada tanque de 50 litros.
No topo da lista dos bairros com a gasolina mais cara de Fortaleza está o Centro, onde o litro chega a ser comercializado por R$ 7,04. O bairro lidera um ranking de altos custos que inclui também o Parque São José (R$ 6,99), o Castelão (R$ 6,93), o Dionísio Torres (R$ 6,91) e o Papicu (R$ 6,87).
Em contrapartida, a Barra do Ceará apresenta o valor mais acessível identificado na pesquisa, com o litro da gasolina a R$ 6,65. Essa diferença de preços tem impacto direto no orçamento doméstico.
Segundo o economista e membro do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), Eldair Melo, "a diferença no preço da gasolina entre bairros de Fortaleza tem impacto direto no orçamento das famílias, principalmente para quem depende do carro ou da moto para trabalhar, estudar, levar os filhos à escola ou realizar outras atividades do dia a dia".
Os bairros mais caros:
- Centro: R$ 7,04
- Parque São José: R$ 6,99
- Castelão: R$ 6,93
- Dionísio Torres: R$ 6,91
- Papicu: R$ 6,87
- Aldeota: R$ 6,85
- Jangurussu: R$ 6,85
- Meireles: R$ 6,83
- Edson Queiroz: R$ 6,83
- Aerolândia: R$ 6,82
Os bairros mais baratos
- Barra do Ceará: R$ 6,65
- Benfica: R$ 6,73
- Aracape: R$ 6,73
- Parque Santa Rosa: R$ 6,73
- Henrique Jorge: R$ 6,73
- Planalto Ayrton Senna: R$ 6,73
- Parangaba: R$ 6,74
- Parquelândia: R$ 6,75
- Monte Castelo: R$ 6,75
- Guararapes: R$ 6,76
O peso da repetição no bolso
Embora o valor economizado por tanque possa parecer pouco representativo, o especialista ressalta o efeito acumulado.
"Isoladamente, esse valor pode parecer pequeno, mas seu efeito aparece pela repetição ao longo do tempo", explica o economista, lembrando que quem tem veículo abastece com frequência.
A pedido do Diário do Nordeste, Eldair calculou cenários de consumo. As simulações de abastecimento semanal (1x/semana) mostram o seguinte resultado de economia bruta:
- Economia Mensal: R$ 78.
- Economia Anual: R$ 936.
Para profissionais do volante o ganho é ainda mais relevante. "Para motoristas de aplicativo, entregadores, representantes comerciais e pequenos empresários que utilizam intensamente o veículo, essa diferença pode ser bastante relevante, pois o combustível representa um custo operacional direto", pontua Melo.
"Economia Real" versus "Economia Aparente"
Um dos principais alertas do especialista é sobre o custo de oportunidade. Segundo ele, é necessário diferenciar o ganho na bomba do gasto para chegar até ela.
O consumidor deve calcular o ganho líquido e não apenas observar o preço na bomba. A conta é simples: calcula-se a economia por litro, multiplica-se pela quantidade abastecida e desconta-se o custo do deslocamento adicional".
Se um motorista percorre 8 km extras para aproveitar o preço da Barra do Ceará (R$ 6,65) em vez do Centro (R$ 7,04), ele gasta cerca de R$ 5,32 no trajeto - considerando consumo de 10 km/L. Nesse caso, a economia líquida semanal cai para R$ 14,18.
Assim, no final, as economias mensal e anual passam a ser de R$ 56,72 e R$ 680,64, respectivamente.
Para avaliar se vale a pena, Melo estabelece uma regra prática:
"Quanto maior o volume abastecido e menor o deslocamento necessário, maior a chance de compensar. Se o posto mais barato estiver no caminho do trabalho ou da escola, a economia tende a ser real. Mas, se a pessoa precisar sair exclusivamente para abastecer, deve avaliar o custo-benefício".
Quando a vantagem desaparece
O economista ressalta ainda que o planejamento deve considerar o volume de combustível. "Para quem abastece apenas 10 litros, a lógica muda completamente. A economia bruta seria de apenas R$ 3,90. Nesse caso, qualquer deslocamento adicional mais longo pode eliminar totalmente o benefício", adverte.
De acordo com as simulações, em um tanque de 50 litros, o motorista poderia rodar no máximo 29,32 km extras antes que a vantagem financeira da Barra do Ceará fosse anulada pelo consumo do próprio deslocamento.
Por isso, ele defende que "a pergunta correta não é apenas ‘onde a gasolina está mais barata?’, mas também: ‘quanto vou abastecer?’, ‘quanto vou desviar da minha rota?’ e ‘qual é o consumo do meu veículo?’".
Para o conselheiro do Corecon-CE, o combustível deve ser tratado com rigor contábil pelas famílias. "Ele não pode ser administrado apenas no improviso. A família precisa saber quanto gasta por mês e qual o preço médio pago. Sem essas informações, o consumidor observa apenas o valor por litro e não consegue enxergar o custo real do transporte ao longo do mês", conclui.
Seis passos para organizar o gasto, segundo o especialista:
- Registrar todos os abastecimentos do mês, com data, litros, valor pago e bairro.
- Calcular o consumo médio do veículo em km por litro.
- Definir um orçamento mensal para combustível, separando uso essencial de uso eventual.
- Comparar preços por região, mas sempre considerando o custo do deslocamento.
- Planejar abastecimentos dentro da rota normal, evitando sair de casa apenas para buscar preço menor.
- Revisar hábitos de uso do carro, como trajetos repetidos, excesso de deslocamentos curtos, calibragem dos pneus, manutenção e possibilidade de compartilhar viagens.