Economia azul cresce no Ceará, mas setor ainda é artesanal e pouco diversificado

Remuneração média, escolaridade do trabalhador e principais atividades realizadas indicam que cenário cearense ainda está aquém do nacional.

Escrito por Letícia do Vale leticia.dovale@svm.com.br
10 de Junho de 2026 - 06:00
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Legenda: No Ceará, os principais empregos formais relacionados ao mar são de menor remuneração.
Foto: Thiago Gadelha.

A economia azul no Ceará tem uma base produtiva mais tradicional e de menor intensidade tecnológica quando comparada ao restante do Brasil. É o que apontam dados apresentados pela especialista em Inteligência Competitiva no Observatório da Indústria Ceará, Rayssa Costa.

Um dos principais dados que comprovam esse cenário é a remuneração média do trabalhador formal da economia azul. Segundo dados apresentados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), enquanto o valor médio nacional é de R$ 8.743,74, no Ceará a remuneração é de R$ 3.358,67. 

“Isso está muito relacionado tanto ao nível de qualificação dos trabalhadores, como também aos tipos de ocupações que são mais comuns. O Brasil possui uma maior proporção de trabalhadores com ensino superior completo ou pós, enquanto o Ceará possui uma maior participação de trabalhadores com até ensino fundamental completo ou até o ensino médio completo”, afirma Rayssa, durante Ocean Summit 2026, promovido pela Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec). 

Apesar do cenário, a economia azul movimenta bilhões anualmente no Estado e aponta para crescimento na produção e receita gerada pelo setor. Conforme informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), o valor da produção de pescado no Ceará cresceu 353,4% entre 2014 e 2023, chegando a R$ 1 bilhão em 2023. 

Escolaridade média do trabalhador formal na Economia Azul

Brasil

  • Até o ensino fundamental completo: 15,8%
  • Até o ensino médio completo: 57,9%
  • Superior completo ou pós: 26,3%

Ceará

  • Até o ensino fundamental completo: 25%
  • Até o ensino médio completo: 62,9%
  • Superior completo ou pós: 12,1%

Fonte: MTE

Além disso, ela destaca que a maior parte das atividades nacionais do ramo são voltadas para o setor industrial, enquanto no Ceará, os principais empregos formais relacionados ao mar são de menor remuneração, como criação de camarões e demais ofícios ligados à pesca artesanal. 

Participação das atividades relacionadas ao mar no emprego formal (2025)

Brasil

  • Atividades do operador portuário: 17%
  • Atividades de apoio à extração de petróleo e gás natural: 12,9%
  • Construção de embarcações de grande porte: 9,1%
  • Extração de petróleo e gás natural: 8,3%
  • Navegação de apoio marítimo: 7,5%

Ceará

  • Criação de camarões em água salgada e salobra: 31,5%
  • Atividades do operador portuário: 25,9%
  • Fabricação de conservas de peixes, crustáceos e moluscos: 12%
  • Preservação de peixes, crustáceos e moluscos: 7,4%
  • Pesca de crustáceos e moluscos em água salgada: 3,4%

Fonte: MTE/IBGE

“Lembrando que esses dados são de emprego formal, e que no Ceará a pesca artesanal é muito predominante e é muito presente na informalidade. Então a quantidade de trabalhadores no mercado de trabalho nessa atividade deve ser muito maior do que a que é capturada por esses dados”, ressalta Rayssa. 

Entre 2022 e 2025, apesar do Ceará ter aumentado em 14,2% os empregos formais das atividades ligadas ao mar, saindo de 7.655 para 8.736, o percentual foi inferior ao nacional (34%), que saiu de 245.858 para 302.631.

Outro dado apresentado pela especialista abarca os transportes aquáticos mais utilizados. Segundo a Marinha do Brasil, em 2025, no Ceará, a predominância era de canoas, jangadas e pesqueiros, enquanto no Brasil são mais usados botes, lanchas e motos-aquáticas.  

“No Brasil, a gente percebe uma frota mais diversificada, com uma maior participação de embarcações voltadas ao lazer e transportes mais modernos, enquanto no Ceará a gente percebe uma predominância de embarcações mais tradicionais. Isso está muito associado à pesca artesanal e atividades de menor escala, que ainda são bastante relevantes aqui no estado”
Rayssa Costa
Especialista em Inteligência Competitiva no Observatório da Indústria Ceará
  

Economiza azul cresce no Ceará

Apesar do cenário ainda predominantemente artesanal, a economia azul cearense mostra sinais de crescimento significativos. É o que apontam os dados apresentados pela especialista em Inteligência Competitiva do Observatório da Indústria Ceará, Ohanna Fraga, também presente durante o evento. 

A aquicultura cearense (camarões, ostras, vieiras e mexilhões) também teve crescimento entre 2013 e 2024: a variação foi de 118,5%, chegando a R$ 1,8 bilhão em 2024. No Brasil, o crescimento foi de 89,7%, com arrecadação de R$ 3,5 bilhões em 2024. 

O Ceará se destaca, ainda, como o principal produtor de camarão no Brasil. Em 2024, foram 83,8 mil toneladas, representando 57,1% da produção nacional. 

Também foram apresentados dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), que mostram crescimento de 7,6%, entre 2022 e 2025, no valor das exportações vinculadas às atividades ligadas ao mar.

No ano passado, o total chegou a US$ 102,4 milhões, deixando o Ceará na 5ª posição no ranking nacional. Entre os produtos mais exportados do setor estão peixes e crustáceos, moluscos e outros invertebrados aquáticos. 

Em relação à movimentação portuária, índices da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) apontam que, entre 2016 e 2025, a movimentação portuária no Estado apresentou alta de 14,6%, passando de 15,9 milhões de toneladas para 18,2 milhões.

No mesmo período de tempo, o crescimento nacional do indicador foi de 3,4%, indo de 1 bilhão de toneladas para 1,04 bilhão. Nesse sentido, o Ceará ocupa a 12ª posição no País e a 4ª na região Nordeste. 

Já no âmbito de energia eólica offshore, o Ceará ocupa o 2º lugar no Brasil em quantidade de projetos em análise, com 16 iniciativas.

Somado a isso, a área total em licenciamento no Estado é de 10.359 km, representando 24,8% do total do País. Outro destaque é a potência total em licenciamento (MW) no Ceará: 36.187 (27% do total do Brasil, atrás somente do Rio Grande do Sul). Os dados são do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). 

“No Ceará [a economia azul] é um dos principais motores do desenvolvimento regional e [o Estado] tem uma economia muito formada pela economia azul. Nós temos muitas atividades que são ligadas ao mar e essas atividades sustentam muitas comunidades tradicionais no nosso estado, impulsionam também atividades de turismo, serviços e etc. A gente tem uma posição estratégica também para energias renováveis offshore, como por exemplo a energia eólica, e temos uma riqueza de biodiversidade”, ressaltou Ohanna. 






 

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