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Transnordestina completa 20 anos hoje com custo 3 vezes maior; veja curiosidades da ferrovia

Luciano Rodrigues luciano.rodrigues@svm.com.br
06/06/2026 - 07:00

A Ferrovia Transnordestina completa 20 anos em obras, neste sábado (6), no interior do Nordeste brasileiro, causando mudanças importantes nos municípios por onde irá percorrer.

Nesse período, a construção da linha férrea avançou, parou, teve a extensão reduzida e passou a custar mais do que o triplo do valor original.

Ao longo dos 20 anos, o Diário do Nordeste acompanhou a construção da ferrovia, pensada para ser um dos principais vetores do desenvolvimento logístico e econômico da região. Relembre alguns dos principais fatos.

Transnordestina substitui centenas de automóveis com uma única locomotiva.
Legenda: Transnordestina substitui centenas de automóveis com uma única locomotiva.
Foto: Thiago Gadelha.

Sete estados e R$ 4,5 bilhões marcam o início das obras

Em 6 de junho de 2006, em Missão Velha, o presidente Lula (PT), que estava no final do primeiro mandato, deu início às obras da Ferrovia Transnordestina.

É preciso entender, entretanto, o contexto. A então CFN era administradora de 4.238 quilômetros de malha ferroviária englobando todos os estados do Nordeste, com exceção da Bahia e do Sergipe. A expectativa era remodelar boa parte da antiga malha e integrar com a nova linha.

O ramal a ser construído ligaria Eliseu Martins (PI) ao Porto do Suape (PI), com um entroncamento em Salgueiro rumo ao Porto do Pecém. No total, seriam investidos R$ 4,5 bilhões em um trecho de 1.860 km. Também havia previsão de transporte de passageiros.

O investimento total para a obra está orçado agora em R$ 15 bilhões, 233% maior do que o valor original. 

Fusões e mudanças reduzem o trajeto 

Com o tempo, a CFN foi incorporada pela Companhia Siderúrgica do Nordeste (CSN), e o braço ferroviário da companhia passa a ser subdividido em Ferrovia Transnordestina Logística (FTL) e Transnordestina Logística S.A. (TLSA).

O investimento total para a obra é 233% maior do que o valor original.
Legenda: O investimento total para a obra é 233% maior do que o valor original.
Foto: Fabiane de Paula.

Em 2013, a TLSA ficou responsável pela construção da nova ferrovia, agora interligando apenas Piauí, Pernambuco e Ceará, com 1.206 km, 35,1% menor do que o trajeto original.

O porto de Suape ficou fora do percurso, e a TLSA concentra a construção entre o interior do Piauí e o Porto do Pecém, em um "L" invertido. 

Ferrovia nova segue traçado de uma linha abandonada

O Nordeste já teve uma extensa malha ferroviária, operada pela Rede Ferroviária Federal (RFFSA). Em 1998, essa malha foi comprada pela Companhia Ferroviária do Nordeste (CFN), que passou a operar o transporte de cargas na região.

O problema é que, com o tempo, a CFN deixou de manter a conservação dos trilhos e de garantir a passagem dos trens. Sem uso, trechos foram sendo ocupados e deteriorados, até se tornarem irrecuperáveis.

Quando o projeto da nova Transnordestina foi desenhado, o traçado escolhido acabou sendo praticamente o mesmo da antiga ferrovia, especialmente no Ceará e em Pernambuco.

Ou seja, em vez de aproveitar a estrutura existente, foi preciso construir do zero ao lado de uma linha que simplesmente foi abandonada.

"O percurso é praticamente o mesmo da antiga linha Tronco Sul. Com a concessão, como a FTL não manteve a passagem de trens e não fez a conservação da linha, começaram a ter inúmeras ocupações de trechos dos trilhos e deterioração desses locais, inviabilizando a recuperação da via férrea", destaca Ângela Falcão, professora doutora em Geografia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece).

Cidades que já foram pontos de parada da antiga ferrovia, como Quixeramobim e Missão Velha, voltarão a receber trilhos com a nova Transnordestina.

Mais lenta, mas mais vantajosa economicamente 

Quando é analisando apenas o fator tempo de deslocamento, a Transnordestina perde a vantagem frente ao transporte rodoviário.

Nos estudos realizados pela TLSA, quando a ferrovia estiver em pleno funcionamento, o tempo total de percurso, desconsiderando carga e descarga de mercadorias, será de 32 horas, mais do que o dobro da duração estimada do trajeto por via terrestre, de 13 horas.

O tempo, no entanto, não considera outras variáveis, como abastecimento dos caminhões, quantidade de motoristas nos veículos e condições das estradas, fora a capacidade de substituir centenas de automóveis com uma única locomotiva, sem contar no fator sustentabilidade.

A concessionária prevê que a eficiência energética do trem será 63% menor do que a do caminhão. As locomotivas consumirão aproximadamente 2,6 litros por tonelada, enquanto o veículo gasta 7 litros de combustível por tonelada de carga.

Cada viagem da Transnordestina equivale a tirar cerca de 380 caminhões das rodovias

Em um dos testes feitos, a TLSA previu que uma locomotiva completa da ferrovia seria capaz de transportar as mesmas cargas que 378 caminhões, e tudo isso com apenas um maquinista.

"Cada vagão transporta o equivalente a três carretas. Considerando o trem-tipo (locomotiva) da Transnordestina, com 126 vagões, que substituirá 378 carretas. Uma única composição inclui apenas um maquinista, com revezamento ao longo do percurso, enquanto cada caminhão tem um motorista", afirmou a empresa. 

Cronograma atualizado de obras da Ferrovia Transnordestina, de janeiro de 2026, mantém-se com todos os lotes em obras.
Legenda: Cronograma atualizado de obras da Ferrovia Transnordestina, de janeiro de 2026, mantém-se com todos os lotes em obras.
Foto: Fabiane de Paula.

Além disso, a ferrovia possibilita desenvolver infraestruturas únicas no Nordeste, como dez terminais logísticos e de cargas e um porto seco, o segundo do Nordeste e o primeiro em uma cidade do interior do Ceará, em Quixeramobim.

"É inegável o desenvolvimento regional principalmente no entorno das cidades-polo, que têm concentrado não só as atividades em si da construção da ferrovia, como também na micro e macroeconomia, com trabalhadores daquele município dinamizando a região", expõe Ângela Falcão.

China envia trilhos restantes para a construção da ferrovia

Quase 34 mil toneladas de trilhos chegaram em fevereiro deste ano pelo Porto do Pecém vindos da China. Eles serão destinados à conclusão das obras dos lotes em andamento da ferrovia. 

Foram 23 mil barras de 24 metros de comprimento, suficientes para a construção de 283 km da ferrovia em linha principal, mais da metade da linha férrea no Ceará, segundo a TLSA.

No momento, dois trechos estão com perspectiva de serem entregues ainda em junho. São eles os lotes 4 (Acopiara — Piquet Carneiro) e 5 (Piquet Carneiro — Quixeramobim) sejam entregues ainda em junho.

Primeiras viagens são realizadas entre Piauí e Ceará

Em 19 de dezembro do ano passado, metade do trajeto previsto para a ferrovia já estava apto para o transporte de mercadorias.

Na data, um carregamento de milho saiu do interior do Piauí para o Ceará. A carga saiu de caminhão de Iguatu para Beberibe.

A ferrovia começou a operação em trecho reduzido, de cerca de 600 km de extensão. O trajeto vai levar mercadorias entre o interior piauiense, mais especificamente em Bela Vista do Piauí, passando pelo oeste de Pernambuco até chegar a Iguatu. 

A TLSA chama o funcionamento parcial da linha férrea de fase de comissionamento, isto é, fase de testes.

O compromisso atual da concessionária é entregar a Transnordestina funcionando plenamente até o final de 2027, mais de 21 anos após o início das obras.

Créditos

Luciano Rodrigues, Repórter | Fotografia , Thiago Gadelha e Fabiane de Paula | Bruna Damasceno e Hugo R Nascimento, Supervisores de Jornalismo | Victor Ximenes, Coordenador de Jornalismo | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | G André Melo, Gerente de Audiovisual | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo e Esporte

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