Como o Ceará pode se beneficiar do primeiro leilão de armazenamento de energia em baterias?
Certame deve selecionar projetos para armazenamento de energia, com prioridade a estados do Nordeste.
O Ministério de Minas e Energia irá realizar, em dezembro, o primeiro leilão de baterias do Brasil, que deve selecionar projetos de armazenamento de energia. Os empreendimentos devem reduzir a pressão ao sistema elétrico, beneficiando o Ceará e outros estados que sofrem com os cortes de geração.
A portaria com detalhes do certame foi divulgada pela pasta na última semana.
O Sistema de Armazenamento de Energia por Baterias, conhecido como Bess, propõe armazenar a energia excedente produzida ao longo do dia que não poderia ser utilizada à noite, como a energia solar.
Sem um mecanismo de armazenamento, as usinas renováveis precisam interromper a geração em horários que têm excedente de geração, para não sobrecarregar o sistema de transmissão brasileiro. Isso causa prejuízo às empresas e desperdício de energia limpa.
O leilão deve contratar projetos de baterias com potência mínima de 30 MW, disponibilidade para recarga completa em seis horas e eficiência mínima de 85%. O número de sistemas a ser selecionado e a capacidade não foram divulgados.
O certame será estruturado em dois leilões distintos, marcados para 2 e 4 de dezembro. O primeiro dará prioridade a sistemas com equipamentos nacionais, como incentivo à indústria local. Já o segundo será aberto a todos os projetos de sistemas de armazenamento em baterias.
Os contratos terão 15 anos de duração, com início da operação em 1º de agosto de 2028. As empresas interessadas devem cadastrar os projetos junto à Empresa de Pesquisa Energética (EPE) será realizado entre 15 de junho de 2026 e 31 de julho de 2026.
CEARÁ ESTÁ ENTRE ESTADOS COM PRIORIDADE
Para que os cortes de geração renovável sejam mitigados no Ceará, é importante que uma série de projetos no Estado seja selecionada, aponta a Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec).
"O Ceará pode ser beneficiado se tiver resultados positivos nas premissas do leilão, que prevê a priorização da contratação em áreas com maior necessidade sistêmica, e o Ceará se enquadra nesta situação", aponta Ricardo Cavalcante, presidente da federação.
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Terão prioridade no leilão os projetos localizados nos estados de Ceará, Alagoas, Bahia, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Rio Grande do Norte, com base em metodologia da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
O mecanismo busca valorizar projetos que contribuam de forma eficiente para a expansão do sistema elétrico, considerando a redução das restrições de transmissão e a melhor integração dos recursos, segundo o ministério.
Os cortes de geração levaram ao prejuízo de R$ 749 milhões nos setores de energia eólica e solar do Ceará entre outubro de 2021 e abril de 2026, conforme levantamento da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica).
O setor aposta no sistema de baterias como uma forma de frear os cortes determinados pelo Operador Nacional do Sistema (ONS). O presidente da Fiec pondera, entretanto, que o Brasil ainda está atrasado no desenvolvimento do setor.
"Atualmente, já existem mais de 260 GW de baterias instaladas no mundo, equivalente a toda a capacidade instalada para geração de energia elétrica no Brasil, que está apenas iniciando o processo", aponta.
CAPACIDADE CONTRATADA DO LEILÃO É PREOCUPAÇÃO
Apesar de o leilão representar um passo importante para o início do segmento no Brasil, há preocupação de que o volume contratado não seja suficiente, aponta Luiz Carlos Queiroz, presidente do Sindicato das Indústrias de Energia e de Serviços do Setor Elétrico do Estado do Ceará (Sindienergia-CE).
O porta-voz lembra que o leilão de reserva de capacidade realizado no início do ano contratou 19,5 GW em usinas termelétricas, o que pode reduzir o montante destinado às baterias.
O Ceará teve oito usinas selecionadas no leilão que selecionou usinas para abastecer o sistema em situações de baixa geração. O estado terá o maior investimento no setor.
"Ao invés de aproveitar o potencial das baterias para otimizar o uso da energia limpa, o leilão de reserva puniu o Ceará, ancorando o estado e o sistema elétrico nacional com a contratação de térmicas poluentes por mais de uma década", avalia.
Para o presidente do Sindienergia, a solução seria cancelar o leilão de termelétricas vencedoras do certame e aumentar a contratação de baterias, a exemplo do que foi feito na Argentina.
"A introdução do armazenamento em baterias modernizará por completo a arquitetura da rede elétrica nacional. Por ser uma tecnologia distribuída e modular, ela reduz congestionamentos, posterga a necessidade de bilhões em reforços de transmissão e garante independência geopolítica (não depende da importação de combustíveis)", projeta.
Homologação de leilão é suspenso pela Justiça
Neste contexto, uma decisão liminar da Justiça Federal do Ceará suspendeu a homologação dos resultados do Leilão de Reserva de Capacidade de 2026, prevista para terça-feira (9).
A assinatura dos contratos está temporariamente suspensa. A decisão liminar foi proferida pelo juiz federal Luis Praxedes Vieira da Silva, da 1ª Vara Federal do Ceará.