Cortes de energia causam prejuízo de R$ 749 milhões ao setor eólico e solar no Ceará
A presidente da Abeeólica, Elbia Gannoum, esteve em Fortaleza para evento do setor.
Os setores de energia eólica e solar cearense tiveram um prejuízo acumulado de R$ 749 milhões entre outubro de 2021 e abril deste ano. A causa está relacionada ao fenômeno do curtailment, cortes de energia que ocorrem quando o sistema é incapaz de escoar toda a energia gerada por fontes renováveis devido à falta de infraestrutura ou à baixa demanda.
Só entre janeiro e abril de 2026, 660 mil Megawatts-hora (MWh) foram cortados devido ao curtailment em usinas eólicas e solares fotovoltaicas, o que representa um aumento de 22% em relação ao mesmo período de 2025 (540 mil MWh), segundo a Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica).
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Já em comparação ao intervalo entre janeiro e abril de 2024 (52 mil MWh), o aumento é ainda mais expressivo: 1.173%.
Paralelamente, um relatório realizado pela empresa ePowerBay estima que o Ceará já perdeu quase 3,3 milhões de MWh entre outubro de 2021 e setembro de 2025.
O cenário é visto como a pior crise da indústria de energia eólica no Brasil, de acordo com a presidente da Abeeólica, Elbia Gannoum, em entrevista exclusiva ao Diário do Nordeste. No entanto, para ela, o setor já caminha para a retomada do crescimento.
A executiva esteve em Fortaleza para o evento Diálogo, realizado no Hotel Vila Galé, na Praia do Futuro, nessa terça-feira (5).
Demissões e saída de fábricas marcaram pior fase do setor eólico
De acordo com Elbia, os primeiros sinais da crise no mercado de energias renováveis surgiram a partir de 2022. Na época, explica, a queda econômica brasileira resultou na diminuição da demanda energética, cenário por ela denominado de “macro crise”.
“Em 2022, percebemos uma crise de contratos, que, em 2024, culminou numa redução da instalação de projetos eólicos no Brasil e, inclusive, na demissão de funcionários e fábricas saindo do Brasil. Ali, vimos o auge da crise”
Um exemplo disso foi o que ocorreu com a empresa cearense Aeris, única fabricante brasileira de pás eólicas em operação. Em maio de 2024, a empresa demitiu cerca de 1.500 funcionários. Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos do Ceará (Sindmetal-CE), mais de 5 mil trabalhadores já foram desligados da Aeris ao longo da crise no setor.
Outro fator que impacta negativamente o cenário são os cortes de geração, chamados de curtailment. Segundo Elbia, o fenômeno passou a ser sentido mais fortemente a partir de 2023, e caracteriza a “micro crise” do setor.
O problema acontece porque, no Brasil, a geração de energia renovável cresce mais rápido do que o consumo, gerando um excedente de produção que sobrecarrega e desafia a capacidade de escoamento e gerenciamento do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
Para manter o equilíbrio da rede, então, o ONS reduz a produção de grandes geradores de energia, o que afeta, diretamente, o lucro das usinas.
“Os cortes de geração são da natureza do sistema, eles sempre vão acontecer. A grande questão é o percentual. Hoje essa proporção está em torno de 40%, e é inaceitável em qualquer sistema você jogar tanta energia fora”, destaca Elbia.
Cortes de energia devem reduzir somente a partir de 2028
Após o auge da crise no setor de energias renováveis em 2024, a presidente da Abeeólica defende que o mercado ensaia uma recuperação nos últimos tempos.
Na visão da especialista, alguns movimentos que contribuem para essa perspectiva otimista são a procura cada vez maior das empresas pela descarbonização dos processos e a chegada de data centers, que consomem altas quantidades de energia.
Com um novo cenário se desenhando, ela estima que a recuperação de investimentos e contratos ocorra a partir de 2027, com a redução dos cortes de energia em 2028. Em relação aos empregos, Elbia aponta que novas oportunidades já estão surgindo.
“Os chineses já estão chegando ao Brasil, estão montando fábricas. A Goldwind inaugurou a primeira fábrica da China na Bahia. Eles estão olhando aqui no Nordeste os campos para instalação de novas fábricas. Na medida em que chegam as novas fábricas, os empregos também chegam”, ressalta.
Setor espera ressarcimento de R$ 4 bilhões este ano
Outro movimento favorável ao setor de energias renováveis foi a Lei 15.269/2025, sancionada em novembro de 2025. Entre outras ações, a medida “moderniza o marco regulatório do setor elétrico para promover a modicidade tarifária e a segurança energética, estabelece as diretrizes para a regulamentação da atividade de armazenamento de energia elétrica e cria incentivo para sistemas de armazenamento de energia em baterias”.
De acordo com Gannoum, a lei prevê o ressarcimento de até R$ 4 bilhões para o setor de energia eólica e solar em todo o País, no segundo semestre deste ano. No entanto, o prejuízo nacional, segundo a especialista, supera os R$ 7 bilhões.
Ainda de acordo com ela, é esperado, também para este ano, um leilão de baterias, tecnologia que favorece o equilíbrio do sistema nacional e mitiga os prejuízos do curtailment devido à capacidade de armazenamento de energia. A data e a demanda energética, porém, ainda não foram definidas.
Apesar dos avanços, Elbia acredita que a solução de uma crise complexa também é complexa. Fatores como expansão da transmissão, aprimoramento dos mecanismos de preços e mudanças na regulação também devem ser levados em consideração.
“A solução do problema envolve muitas variáveis. A macro crise está caminhando na trajetória que é a solução: atrair novas cargas e data centers, produção de hidrogênio e descarbonização de processos produtivos brasileiros. A microssolução está associada aos cortes de geração. Resolver os cortes de geração numa equação em que, do ponto de vista operacional, traz mais baterias pro sistema, mais cargas pro sistema e cria mecanismo de preços adequados para o sistema”