Ruiter Cavalcante, de 31 anos, lembra bem do momento em que decidiu ser independente. Estava na faculdade, acabava de assumir a própria sexualidade para a família.
Não se via nas roupas das lojas de Fortaleza e encontrou na criação da própria marca uma saída financeira e uma forma de produzir algo para o público LGBTQIAPN+ se reconhecer.
Fundada em 2017, a marca dele produz hoje entre 150 e 200 peças por mês, tem loja física no bairro Aldeota e emprega 12 pessoas, a maioria da comunidade LGBTQIAPN+.
"Criar a Take Clothings foi tanto para vender quanto para sobreviver. Quando via as roupas, ficava pensando que não tinha nada direcionado para mim. Precisava criar algo para o público LGBTQIAPN+, porque também tem demanda. Temos um bom poder de compra", frisa.
Mais da metade do público consumidor da marca também pertence à comunidade.
"Quando comecei, era mais difícil ter uma pessoa abertamente LGBTQIAPN+ empreendendo. Precisamos de mais campanhas de conscientização, mas também empregá-los", destaca.
Para dar escala ao negócio, Ruiter buscou formação no Sebrae/CE, onde fez cursos de precificação e marketing especializado.
Dos balcões aos palcos
Vanessa A Cantora, de 37 anos, chegou criança de Chaval, cidade cearense na divisa com o Piauí, e passou anos se virando: de vendedora de acessórios em concessionária a cantora de bar em bar, antes de decidir investir de vez na carreira musical.
Em 2026, migrou de MEI para microempresa, tendo como sócia a esposa Ariana Mércia. Contratou banda e equipe de 15 pessoas, todas LGBTQIAPN+, sobretudo mulheres lésbicas e bissexuais.
"A gente é muito subestimada. Tem casos de pessoas fecharem portas, puxarem meu tapete, dizerem que não ia dar certo. Não existe outro motivo a não ser porque sou 'sapatão'. Quanto mais trabalho, mais realizo coisas. É difícil, mas sei que consigo", diz.
A artista começou a se apresentar em bares e casas noturnas em 2018. Em 2021 abriu o MEI e, depois do São João de 2022, deixou a carteira assinada para se dedicar exclusivamente aos palcos.
"Sempre tive esse desejo de trazer essas pessoas para trabalhar comigo não só para levantar bandeira, mas acho que é uma galera massa que ainda não tem visibilidade. Além de ter uma banda LGBTQIAPN+, tem isso de abrir portas", observa.
Do começo ao recomeço
Raquel Castro, de 38 anos, sempre existiu. Por anos, no entanto, foi o Raul quem apareceu para o mundo. Foi ele quem abriu, em 2011, a Budega do Raul, bar na Cidade dos Funcionários que se tornou referência de entretenimento com clara identificação do público LGBTQIAPN+.
Em 2023, ao passar pela transição de gênero, Raquel tomou as rédeas do negócio sem apagar o que havia sido construído.
"A Budega nasce como um arauto de esperança para minha história. Quem construiu todo esse projeto foi o Raul. Ele permitiu o nascimento de mim mesma através dele", conta.
"Demorei 36 anos para encarar a realidade e não seria justo tirar do Raul tudo o que ele construiu. Ainda assim, ele construiu um lugar que impacta significativamente a vida das pessoas", acrescenta.
Raquel emprega 44 pessoas, sendo 14 diretamente e 30 indiretamente, em sua maioria LGBTQIAPN+. Ela critica a falta de cooperação entre bares e restaurantes que permitam o desenvolvimento profissional de trabalhadores transgênero.
"A vulnerabilidade do corpo travesti está na objetificação. É como se a gente servisse para estar na cama, mas não na mesa. Viver minha verdade é um ato diário de coragem em um sistema que insiste em nos excluir", enfatiza.
Empreender por necessidade e por identidade
A trajetória dos três reflete um padrão identificado por pesquisas especializadas. Levantamento do Sebrae aponta que 55% da comunidade LGBTQIAPN+ já empreende ou tem potencial empreendedor.
Além disso, quatro em cada 10 afirmam que a orientação sexual ou identidade de gênero influenciou diretamente essa decisão.
Entre travestis e transexuais, esse peso é ainda maior. Pesquisa do Sebrae em parceria com o Datafolha mostra que 66% desse público apontou a identidade de gênero como fator determinante para abrir o próprio negócio.
O dado se reflete no mercado: 34% de travestis e transexuais são donos do próprio negócio, percentual maior do que o de LGBPs, com 24%, e de pessoas não LGBTQIAPN+, com 26%. Nove em cada dez empreendem como MEI.
Para atender esse público, o Sebrae criou o Programa Plural, voltado ao empreendedorismo LGBTQIAPN+, em funcionamento desde o final de 2024.
Para Mônica Arruda, gerente da Unidade de Cultura Empreendedora do Sebrae/CE, os números não surpreendem.
"Essas pessoas iniciam muito pela necessidade de ter autonomia financeira, renda própria. Às vezes são questões estruturais que dificultam a entrada no mercado de trabalho", avalia.
Na próxima reportagem desta série, saiba como a ausência de dados sobre a população LGBTQIAPN+ afeta a economia do Ceará.
Créditos
Luciano Rodrigues, Repórter | Fabiane de Paula, Ismael Soares, Kid Júnior e Thiago Gadelha, Produtores Audiovisuais | Bruna Damasceno e Hugo R Nascimento, Supervisores de Jornalismo | Victor Ximenes, Coordenador de Jornalismo | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | G André Melo, Gerente de Audiovisual | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo e Esporte