Sem produção própria, Ceará paga 11 vezes mais por madeira para a indústria
Na primeira parte desta reportagem sobre a silvicultura para fins industriais no Ceará, você conheceu as iniciativas que mostram o avanço regional no setor mesmo em meio ao semiárido. Agora, vamos nos aprofundar na economia gerada pela atividade, na geração de empregos e no potencial do Estado para se tornar fornecedor de madeira para o Brasil e o mundo.
Um dos principais benefícios da atividade é a redução do custo para a indústria. Segundo o engenheiro florestal Charles Costa, enquanto uma empresa de móveis cearense desembolsa cerca de R$ 1.700 por 1 metro cúbico (m³) de eucalipto, por exemplo, a mesma quantidade de madeira pode sair por R$ 150 caso seja produzida pelo próprio negócio.
Isso significa uma redução superior a 90% no valor da matéria-prima.
Já a projeção do presidente do Sindicato das Indústrias do Mobiliário no Estado do Ceará (Sindmóveis), Junior Osterno, é que uma empresa de móveis que passa a plantar a própria madeira pode economizar de 20% a 25% nos custos de produção.
Isso ocorre, principalmente, porque toda a madeira utilizada no Estado vem das regiões Sul e Sudeste, apontam especialistas do setor.
Para o presidente do Sindicato das Indústrias de Serrarias, Carpintarias, Tanoarias, Madeiras Compensadas e Laminadas no Estado do Ceará (Sindserrarias), Absalão Miranda, o frete representa de 30% a 40% do valor da mercadoria.
A atividade florestal demonstra, ainda, capacidade de gerar empregos. Segundo Osterno, a cada 100 hectares plantados, são criados 50 postos de trabalho.
Só para se ter uma ideia, a meta da empresa de móveis que passou a investir no plantio de eucalipto em larga escala no município de Marco, baseada no programa florestal da Embrapa, é atingir 15 mil hectares. Isso significaria 7.500 postos de trabalho em apenas um projeto.
"Quando você planta o eucalipto, você diminui o custo disso, porque a madeira plantada é ainda mais barata. Em contrapartida, pequenos produtores podem fazer parte dessa cadeia de fornecimento. O processo do eucalipto traz muito mais benefício do que só a madeira."
Os benefícios econômicos da prática não são os únicos. Na visão de Charles, apostar no plantio de árvores para fins industriais se mostra ainda mais urgente frente à degradação ambiental, assim como o aumento dos custos logísticos a partir desse cenário.
O caráter sustentável da atividade também é lembrado por Kilmer Coelho. De acordo com o professor do Departamento de Economia Agrícola da Universidade Federal do Ceará (UFC), até estar pronta para o primeiro corte, a árvore passa anos emitindo oxigênio e absorvendo gás carbônico da atmosfera.
"De certa forma, contribui para a redução do efeito estufa, sem contar que melhora o clima", defende.
Projeção para o setor no Estado é de expansão
Apesar de a prática ainda estar engatinhando no Estado, a expectativa para o setor é de crescimento. Oito anos atuando no Ceará como especialista em plantio em regiões secas foram suficientes para Charles Costa levantar a bandeira de que o Estado "é o novo polo florestal do Brasil".
A esperança pelo desenvolvimento do mercado é compartilhada por Absalão Miranda. Segundo o presidente do Sindserrarias, outros estados do Nordeste, como Rio Grande do Norte, Paraíba, Bahia e Maranhão, já investem na prática.
“Nós temos potencial, uma planície muito boa que não é de alto relevo. Nós vamos virar produtor de madeira. Eu posso até não alcançar, mas meus filhos e netos vão”, reflete.
O presidente do Sindmóveis também demonstra otimismo e considera a atividade uma das mais rentáveis do agronegócio.
“Como é uma coisa nova para cá, eu acredito qu, com o tempo, isso vai aumentar, e aí você vai ter competição entre os fornecedores de madeira, gerando muita riqueza. Empreendedor vai plantar porque é uma atividade bem rentável. E se um agricultor quiser plantar eucalipto também tem demanda”, salienta Osterno.
Ceará pode se tornar exportador de madeira, dizem especialistas
Nacionalmente, o setor florestal representa 1% do Produto Interno Bruto (PIB) total brasileiro e 5% do valor adicionado pelo agronegócio. Os dados são do Relatório Setor Florestal Brasileiro pelo Clima, da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá). De acordo com a entidade, em 2024, a indústria de árvores cultivadas gerou receita bruta de R$ 240 bilhões, atingindo 10,52 milhões de hectares de árvores cultivadas, 2,8% a mais que em 2023.
"Esse tipo de produção não vai atender só o Estado. Atende toda região, o País. Há demanda nacional e externa, principalmente porque temos o Porto do Pecém, que pode fazer esse transporte."
Assim, a capacidade do Ceará no mercado pode ir, ainda, além da demanda local. É o que acredita o professor do Departamento de Economia Agrícola da UFC, Kilmer Coelho Campos.
O cenário é confirmado por Charles Costa. Segundo o engenheiro florestal, empresas internacionais com negócios no Brasil têm procurado comprar terras no Ceará para investir no plantio de árvores para uso próprio.
"O Estado tem potencial de ser um grande exportador. Já fui visitado por indianos, chineses, noruegues já vieram aqui sondar. São empresas que já têm negócios no Brasil e, como nós temos no Ceará a condição logística, uma das menores distâncias para a Ásia e a Europa, as empresas que precisam de madeira lá fora também começam a entender essa oportunidade como uma coisa viável", explica.
Falta de políticas públicas e investimento são gargalos no mercado florestal cearense
Com benefícios claros e projetos prósperos, o que é necessário para o setor florestal do Ceará deslanchar?
“Falta, principalmente, conhecimento e investimento em pesquisa e tecnologia. O setor florestal é extremamente importante, gera valor e tem sido muito esquecido no Estado. Falta um pouco de políticas públicas”, analisa o professor do Instituto Federal do Ceará (IFCE) de Tianguá, Clemilton da Silva Ferreira.
O Diário do Nordeste procurou a Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece), a Secretaria do Desenvolvimento Econômico do Estado (SDE), a Secretaria do Desenvolvimento Agrário (SDA) e a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce) em busca de dados sobre a atividade florestal no Ceará, mas não obteve mais esclarecimentos. O espaço permanece aberto para eventuais respostas.
Na visão de Charles, programas de fomento florestal estaduais poderiam transformar o Ceará em uma base consolidada no setor, fazendo o Estado passar de consumidor a fornecedor de madeira.
“Você vê milhares e milhares de quilômetros com mato parado, que poderiam virar ativos florestais e atrair grandes indústrias para cá. Da hora que a gente nasce até a hora que a gente morre, a madeira está presente. A demanda é gigante”.
É o que ocorre em Minas Gerais. Segundo a engenheira florestal e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Adriana Assis, o Estado abriga a maior área de floresta plantada para fins industriais do País, com a atividade florestal presente em 94% dos municípios mineiros.
Conforme explica a especialista, os principais destinos da produção, cuja matéria-prima é o eucalipto, são a siderurgia a carvão vegetal e a produção de celulose.
Metade da área plantada pertence a pequenos e médios produtores, cujos plantios tanto podem estar associados às grandes empresas consumidoras por meio de programas de fomento florestal, quanto podem ser produções independentes.
“Também existem empresas grandes, bem estruturadas, que vendem madeira para diferentes fins e possuem áreas em diversos estados brasileiros”, acrescenta.
E o que sustenta esse mercado? Para Adriana, a resposta é evidente: “a construção de políticas sólidas que buscam garantir as boas práticas do manejo florestal, que têm de ser, necessariamente, economicamente viáveis, ecologicamente corretas e socialmente justas”.