Em 2026, o Ceará exportará dados processados com vento e sol

Adão Linhares, engenheiro especialista em energia, afirma o estado tem a oportunidade de ouro de se consolidar como um Hub Digital Verde.

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
(Atualizado às 11:23)
Legenda: As energias renováveis, como a eólica e a solar da foto, crescem no Nordeste. Juntá-las ao processo industrial do Ceará é uma saída
Foto: Thiago Gadelha / SVM
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Elaborado especialmente para esta coluna, o texto a seguir é de autoria do engenheiro Adão Linhares –sócio fundador da Energo Soluções em Energias, fundador e primeiro presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), ex-secretário executivo de energia do estado do Ceará e ex-membro do Conselho Nacional de Políticas Energéticas (CNPE). 

Ele está otimista com o futuro próximo do Ceará na área da energia renovável e, mais ainda, na verdadeira inovação que está na integração entre a energia limpa e a economia de dados. O tema é atual, o texto é oportuno e importante, razão pela qual a coluna o publica na íntegra, abaixo: 

“Por muito tempo, o setor de energia no Brasil, e especialmente no Nordeste, viveu sob o signo da promessa. Ao longo de décadas, trabalhamos arduamente para transformar os ventos alísios e a irradiação solar em ativos econômicos reais. Contudo, ao olharmos para 2026, não podemos mais nos dar o luxo de projetar apenas sonhos ou celebrar capacidades instaladas isoladas. Este é o ano convocado para ser o marco da execução e, principalmente, da convergência. 

“O ano de 2026 desenha-se como o momento em que a energia deixa de ser tratada apenas como uma commodity — um produto básico de exportação — para se tornar a espinha dorsal de uma nova revolução industrial e social. Se os anos anteriores foram de desbravamento e consolidação das renováveis, 2026 deve ser o ano da simbiose entre tecnologia, meio ambiente e pessoas. 

“No Ceará, epicentro dessa transformação, a grande novidade e o desafio para este ano vão além da produção de moléculas de Hidrogênio Verde. A verdadeira inovação está na integração entre a energia limpa e a economia de dados. O estado, que já é um dos maiores entroncamentos de cabos de fibra óptica do mundo, tem em 2026 a oportunidade de ouro de se consolidar como um ‘Hub Digital Verde’. 

“A lógica estratégica é clara: em vez de apenas exportarmos eletricidade bruta, devemos atrair os grandes centros de processamento de dados (Data Centers) globais, que buscam desesperadamente descarbonizar suas operações de Inteligência Artificial.  

“Em 2026, o Ceará deve começar a exportar ‘dados processados com vento e sol’, agregando valor incalculável à nossa economia e gerando empregos de alta qualificação. 

“Expandindo o olhar para o Nordeste, o ano exige uma resposta inteligente para o uso do solo. A imagem de conflito entre geração de energia e produção de alimentos deve dar lugar à harmonia dos sistemas agrivoltaicos.  

“O ano de 2026 pode ser o início da massificação da "safra dupla" na Caatinga: painéis elevados que geram sombra, reduzem a evaporação da água e permitem o cultivo ou a criação de caprinos no mesmo hectare. Isso transforma a transição energética em uma ferramenta de fixação do homem no campo, blindando a renda do produtor rural contra as secas. 

“Em escala nacional, o Brasil enfrenta em 2026 o desafio da maturidade sistêmica. Com a geração renovável batendo recordes, o foco estratégico do país precisa migrar da expansão da geração para a inteligência do armazenamento. Este deve ser o ano da regulamentação robusta e do incentivo aos sistemas de baterias (BESS) em larga escala. Precisamos transformar a intermitência natural das fontes renováveis em segurança energética despachável, criando um sistema capaz de estocar o excedente. Sem isso, desperdiçaremos nossa maior riqueza por falta de infraestrutura para guardá-la. 

“Por fim, nenhuma dessas inovações fará sentido se 2026 não trouxer resultados tangíveis para a população. A sustentabilidade real precisa chegar à conta de luz das famílias. O setor deve abraçar modelos de geração compartilhada que funcionem como política social, democratizando o acesso aos benefícios da energia barata e limpa. 

“O que esperamos de 2026 é o fim da era das ilhas isoladas. O Ceará, o Nordeste e o Brasil têm as ferramentas para que este ano seja o ponto de virada onde deixamos de ser apenas a "bateria do mundo" para nos tornarmos o cérebro e o motor de uma economia regenerativa global. Que 2026 seja, enfim, o ano em que o futuro da energia se torne a nossa realidade cotidiana.” 

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