Como fazer a saúde mental entrar de verdade na gestão das empresas
Janeiro costuma ser o mês das promessas, dos recomeços e das listas de metas para o novo ano. Mas ele também carrega um simbolismo mais profundo: a possibilidade de olhar para dentro.
O movimento Janeiro Branco nos convida justamente a isso: a refletir sobre saúde mental não como um tema pontual, mas como parte essencial da vida, das relações e das decisões que tomamos diariamente.
Em 2026, falar de saúde mental deixou de ser um discurso periférico para se tornar uma necessidade concreta. Vivemos em um contexto de alta pressão, cobranças constantes, um ritmo que raramente respeita os limites humanos e um mercado de trabalho instável. Nesse cenário, cuidar da mente não é fragilidade; é maturidade emocional, consciência e responsabilidade com nós mesmos e com o outro.
É uma demonstração de que a vida não pode se resumir a um cargo ou a um bem adquirido, mas de que ela vale a pena em sua integralidade. A escolha de janeiro não é aleatória. O primeiro mês do ano simboliza a página em branco: a chance de revisar rotas, repensar prioridades e assumir um compromisso mais honesto com o próprio bem-estar.
Mais do que promessas, trata-se de intenção sustentada ao longo do ano no trabalho, na vida pessoal e nas relações que construímos. Isso envolve o estabelecimento de metas exequíveis, honestas e que contemplem todas as áreas da vida, inclusive aquelas que mais negligenciamos, tais como a saúde física e mental; desenvolvimento intelectual, dentre outras.
O papel das empresas na promoção da saúde mental
Essa reflexão não pode ficar restrita ao campo individual. As empresas ocupam um papel central nesse debate! O ambiente organizacional influencia diretamente a saúde emocional das pessoas, seja pela forma como o trabalho é estruturado, seja pela maneira como expectativas, metas e resultados são conduzidos.
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Participo de várias reuniões que envolvem líderes e é comum ouvir o discurso de que essas pessoas são as protagonistas para que equipes sejam engajadas, para que resultados alcançados e para que o clima organizacional seja equilibrado. “Ocupam um cargo de confiança.” Até aí, tudo “ok”, mas, empresas que desejam, de fato, contribuir para o equilíbrio emocional de suas pessoas precisam começar cuidando de quem cuida.
Antes de preparar líderes para acolher, escutar e conduzir equipes com consciência emocional, é fundamental que a própria organização ofereça suporte, reconhecimento e condições saudáveis àqueles que sustentam a cultura no dia a dia. Líderes e profissionais de RH também operam sob alta pressão, expectativas constantes e responsabilidades humanas complexas.
Quando são cuidados, fortalecidos e valorizados em suas missões, tornam-se mais aptos a escutar, dialogar e reconhecer limites. Ninguém dá o que não tem!
É injusto esperar desses profissionais uma atuação equilibrada e efetiva, quando estes se sentem instáveis emocionalmente e à deriva dentro da empresa. A forma como metas são estabelecidas, feedbacks são conduzidos e decisões são comunicadas nasce e depende desse equilíbrio, impactando diretamente a saúde emocional de toda a organização.
Falar de saúde mental nas empresas não se resume a campanhas internas ou ações pontuais. Trata-se de coerência entre discurso e prática, começando pelo gestor e/ou fundador da empresa. Criar espaços seguros de diálogo, livre de vaidades e egos inflados; estimular pausas conscientes e sem culpa; investir em desenvolvimento humano focando também no suporte emocional e tratar o erro como parte do aprendizado, e não como caça às bruxas, são sinais claros de uma cultura que respeita o ser humano em sua integralidade.
O que fazer para iniciar o ano com foco no equilíbrio emocional?
Começar o ano com equilíbrio emocional não exige grandes rupturas, mas escolhas conscientes. O primeiro passo é reconhecer limites pessoais e profissionais e abandonar a ideia de que produtividade está diretamente ligada ao excesso. Conheço pessoas que só se sentem produtivas quando não têm míseros 30 minutos de folga da agenda. Pensar assim é um erro que pode ser fatal!
É importante planejar o ano considerando pausas, momentos de descanso e prioridades reais, tais como exames médicos, viagem com a família, pequenos momentos com os amigos, pausa para ser grato e/ou se conectar com a espiritualidade. Outro ponto essencial é a qualidade das relações. Conversas honestas, alinhamentos claros e expectativas bem definidas reduzem conflitos silenciosos que, ao longo do tempo, adoecem pessoas e ambientes. Cuidar da comunicação é cuidar da saúde mental. Se o ambiente não permite essa comunicação, chegou a hora de refletir se esse ambiente é para você.
Por fim, é fundamental normalizar o pedido de ajuda. Buscar apoio, seja profissional ou relacional, não é sinal de fraqueza, mas de responsabilidade. Equilíbrio emocional se constrói com consciência, constância e disposição para olhar para dentro ao longo de todo o ano, não apenas em janeiro.
Janeiro Branco não deveria ser tratado como mais uma campanha no calendário corporativo ou pessoal, mas como um espelho incômodo. Ele nos obriga a encarar uma pergunta que muitas vezes evitamos: que tipo de pessoas e de líderes estamos nos tornando para sustentar os resultados que buscamos? Está valendo a pena?
Cuidar da saúde mental não é um gesto de gentileza; é uma decisão estratégica, ética e profundamente humana. Empresas que ignoram esse tema podem até manter indicadores no curto prazo, mas pagam um preço alto em adoecimento, rupturas silenciosas e perda de sentido. Pessoas que negligenciam o próprio equilíbrio emocional, cedo ou tarde, também sentirão os impactos. Vale a pena refletir: o nosso ambiente organizacional é saudável de fato ou representa uma harmonia superficial criada para agradar poucos?
Talvez o maior desafio de 2026 não seja fazer mais, mas fazer diferente. Trabalhar com mais consciência, liderar com mais responsabilidade e viver com mais presença. Se janeiro nos oferece uma página em branco, a pergunta que fica é: o que você e a sua empresa escreverão nela? Defender “mais do mesmo” é efetivo para o cenário atual?
Nesta coluna, trarei reflexões sobre carreira, liderança, coaching e as principais tendências que impactam o mundo do trabalho. Sua participação é muito bem-vinda. Comente, envie sua pergunta ou fale comigo pelo Instagram @delaniasantosds. Aproveite também para se inscrever no canal do YouTube @delaniasantosds. Será um prazer ter você comigo nessa jornada. Até a próxima!