H2V e Data Centers: o Ceará diante de uma escolha estratégica

Para o coordenador geral da Associação dos Jovens Empresários de Fortaleza, Thiago Guimarães, o Ceará não disputa posição, ele já é desejado.

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
(Atualizado às 05:46)
Legenda: O Ceará tem energia renovável suficiente para mover Data Center e indústria de H2V, mas precisa saber tirar proveito dessa vantagem
Foto: SVM
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Esta coluna recebeu do jovem empresário Thiago Guimarães, coordenador geral da AJE, o texto abaixo, que é, além de muito bem elaborado, uma espécie de GPS a orientar o governo e o empresariado a respeito dos projetos de produção do Hidrogênio Verde e da instalação de Data Centers no Complexo do Pecém. Suas opiniões merecem uma boa reflexão. Eis o texto:  

“O debate sobre hidrogênio verde e data centers no Ceará vem ganhando espaço — e isto é positivo. Trata-se de dois vetores centrais da economia do futuro: transição energética e infraestrutura digital. No entanto, a forma como a discussão em torno do tema tem sido conduzida ainda é limitada.  

“O foco excessivo nos gargalos operacionais — linhas de transmissão, água, licenciamento — corre o risco de obscurecer a pergunta mais importante: que modelo de desenvolvimento o Ceará quer construir a partir dessas oportunidades?  

“O Estado já possui ativos que poucos territórios no mundo reúnem simultaneamente: energia eólica e solar abundantes, posição estratégica com hub de cabos submarinos, um porto com vocação industrial e experiência em grandes projetos estruturantes. O Ceará, portanto, não disputa atenção — ele já é desejado. O risco real não é a ausência de investimentos, mas a falta de uma estratégia clara para capturar valor econômico, tecnológico e social.  

“Data centers: infraestrutura crítica, não apenas investimento imobiliário - Tratar data centers como simples galpões tecnológicos que consomem energia e água é um erro de leitura. Eles são infraestrutura crítica da economia digital, base para inteligência artificial, serviços financeiros, indústria avançada, governo digital e soberania de dados. No Brasil, esse debate começa a amadurecer com iniciativas como o ReData — um projeto que coloca na agenda nacional temas como data centers sustentáveis, eficiência energética, uso racional da água e soberania digital.  

“O ReData sinaliza algo fundamental: data centers não devem ser pensados apenas como ativos privados, mas como infraestrutura estratégica de país. Nesse contexto, aceitar a instalação de data centers no Ceará sem contrapartidas claras significa repetir um modelo histórico conhecido: ceder território, energia e recursos naturais enquanto o valor agregado é produzido fora.  

“Se o Estado deseja protagonismo, precisa condicionar esses projetos a compromissos como: processamento e retenção de dados no território nacional; formação de mão de obra qualificada local; parcerias com universidades e centros de pesquisa; estímulo a startups e empresas de tecnologia cearenses; critérios mínimos de governança sobre dados sensíveis. Hospedar infraestrutura não é o mesmo que participar da economia digital.  

“Hidrogênio verde: lições do plano indiano - O mesmo raciocínio se aplica ao hidrogênio verde. Enxergá-lo apenas como uma commodity de exportação é desperdiçar seu maior potencial transformador. Um bom contraponto internacional é o National Green Hydrogen Mission, da Índia.  

“O plano indiano não trata o hidrogênio verde só como energia limpa, mas como instrumento de política industrial, com metas claras de desenvolvimento de cadeias produtivas locais, estímulo à indústria de eletrolisadores; produção de fertilizantes verdes; redução de importações estratégicas; geração de empregos qualificados; e posicionamento geopolítico no mercado global de energia limpa. Ou seja, o hidrogênio é usado como alavanca de reindustrialização, não como fim em si mesmo.   

“Para o Ceará, a lição é direta: se o hidrogênio verde não estiver conectado à siderurgia de baixo carbono, química avançada, combustíveis sintéticos, fertilizantes e mobilidade pesada, o Estado correrá o risco de permanecer na parte menos rentável da cadeia global. Exportar energia transformada sem desenvolver indústria local é apenas uma versão moderna de um velho modelo econômico. 

“Infraestrutura é meio, não estratégia - Linhas de transmissão, água e licenciamento são desafios reais. Mas eles são instrumentais, não estruturais. Infraestrutura constrói-se com investimento, planejamento e coordenação institucional. O que não se constrói rapidamente é capacidade estratégica de decisão. O desafio central está na articulação entre governo, setor produtivo, academia e sociedade. Está na habilidade de negociar, exigir contrapartidas, planejar o longo prazo e alinhar esses projetos a uma visão clara de desenvolvimento econômico, tecnológico e sustentável.  

“Uma decisão histórica - O Ceará vive um momento raro. As decisões tomadas agora moldarão sua posição econômica nas próximas décadas - onde eu espero ainda morar. A pergunta não é se o Estado atrairá data centers e projetos de hidrogênio verde. A pergunta é quem ficará com o valor gerado por eles.  

O futuro desejável é o de um Ceará que não apenas abriga infraestrutura, mas que processa dados, produz tecnologia, forma talentos, desenvolve indústria, e fortalece sua soberania econômica e digital. Atrair investimentos é importante. Mas definir o projeto de desenvolvimento é essencial. O Ceará não deve sentar-se à mesa como fornecedor passivo de recursos, mas como parceiro estratégico, consciente do seu valor — e do seu futuro.” 

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