Ceará não registra casos de microcefalia associados ao Zika vírus há mais de 3 anos

Não há registros de Síndrome Congênita do Zika no Estado desde 2018. Dois anos antes, esse número chegou a 105

Legenda: Apesar da estabilização, há "chances de retomada" da síndrome no Ceará, alerta especialista
Foto: Fabiane de Paula

Há praticamente quatro anos, estão zerados os registros de Síndrome Congênita do Zika (SCZ) no Ceará. A síndrome associada à infecção pelo vírus pode provocar um conjunto de má-formação e problemas de desenvolvimento nos bebês – como microcefalia, deficiências do sistema nervoso central, epilepsia, além de dificuldades auditivas, oftalmológicas e de deglutição.

Em 2016, o Estado somou 105 casos de SCZ, conforme dados disponibilizados pela Secretaria da Saúde do Estado (Sesa) ao Sistema Verdes Mares. Entre 2018 até o último dia 16 de agosto, porém, não houve mais nenhum caso registrado. Em 2017, a Sesa contabilizou apenas um, já refletindo uma queda abrupta (99%) de acometimento da síndrome ante o ano imediatamente anterior.

O Zika vírus é uma arbovirose transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, o mesmo vetor da dengue e da febre chikungunya.

O último surto no Brasil ocorreu entre 2015 e 2016, elevando a quantidade de crianças com microcefalia, uma má-formação congênita em que o cérebro não se desenvolve de maneira adequada. Apesar de ser um sinal clínico prevalente, a microcefalia não está presente em todos os casos de síndrome pelo Zika, podendo ser causada por outras doenças como a taxoplasmose e a rubéola.

Embora os casos de microcefalia associada à SCZ estejam zerados no Ceará, há dois casos suspeitos em avaliação no momento, afirma o neurologista infantil com atuação em Neurogenética e chefe do serviço de neurologia do Hospital Infantil Albert Sabin (Hias), André Luiz Santos Pessoa. 

Em 2016, foram confirmados 2.357 casos de infecções pelo Zika no Ceará, sendo 110 em gestantes, que culminaram em 105 casos da SCZ em bebês. Neste ano, até 16 de agosto, o total de infecções caiu para 135, sendo 9 em gestantes e sem casos de síndrome.

Imunidade x retomada da síndrome

André Luiz estima que a diminuição significativa de casos da síndrome esteja relacionada à imunidade de rebanho, a partir da qual parcela da população se tornou imune à doença. 

"Apenas 20% dos pacientes infectados [pelo vírus] tiveram sintomas e a gente teve em 2015 muitos casos diagnosticados de Zika. Ou seja, o que se acredita na Ciência é que houve realmente uma quantidade de mulheres infectadas muito grande e isso gerou uma imunidade de rebanho, mesmo sem o desenvolvimento de uma vacina". 

O neurologista alerta, no entanto, que a estabilização de casos pode não perdurar. Daí a importância de manter a vigilância do vetor, também capaz de provocar doenças como a dengue e a chikungunya. Sobretudo durante a quadra chuvosa, no primeiro semestre, o momento mais propício à proliferação do mosquito.

"[Tem] chances de retomada [da síndrome no Ceará]. A população vai renovando, nós temos o vetor, o mosquito Aedes aegypti, e existe, sim, a possibilidade. Talvez não tenhamos uma onda tão grande como em 2015 a 2017, mas há chance de termos casos isolados ou um pequeno número de casos".  

Estimulação precoce

Segundo André, o Zika vírus tem preferência por células jovens e do sistema nervoso. E, "de uma forma geral", todas as crianças acometidas pela Síndrome Congênita do Zika evoluíram para um quadro de déficit motor, com algumas delas em situações mais graves e todas com paralisia cerebral. Uma minoria dessas crianças conseguiu andar e falar, mas graças à estimulação precoce.  

"A gente consegue ver uma diferença de desfecho muito grande entre os pacientes que foram adequadamente estimulados e os que não tiveram tanto acesso à estimulação precoce", diferencia, lembrando que todo paciente com a SCZ demanda cuidados de muitas áreas, como a fisioterapia e a fonoaudiologia, sendo esta última importante não somente para o desenvolvimento da fala como para a deglutição. 

5 sinais clínicos mais comuns da Zika Congênita: 

  • Microcefalia;
  • Atrofia cerebral com calcificações;
  • Alterações na retina;
  • Hipertonia precoce (rigidez);
  • Alterações ortopédicas (quadris e problemas articulares graves).

Tratamento dificultado com pandemia

A artesã Sabrina Duarte de Sousa, 24, descobriu que o filho Enzo, 4, tinha microcefalia quando ainda atravessava o terceiro mês de gestação. Logo após o menino nascer, exames confirmaram que o sinal clínico estava, de fato, associado ao Zika vírus. Devido à pandemia de Covid-19, mãe e filho enfrentam mais dificuldades para manter o tratamento e a rotina de estímulos com profissionais.  

Apesar dos obstáculos, Enzo continua a ter acompanhamento de neuropediatra, ortopedista, pneumologista, nutricionista no Hias, no hospital Sarah Kubitschek de Fortaleza e em um posto de saúde. Por outro lado, está sem fisioterapeuta, fonoaudiólogo e terapeuta ocupacional. 

Legenda: Sabrina descobriu que o Enzo tinha microcefalia no terceiro mês de gestação
Foto: Arquivo pessoal

"Hoje, o Enzo está um pouco mais debilitado por conta da pandemia porque ele tem disfagia grave e não consegue deglutir. Se ele tivesse uma fono de qualidade e por semana, mais intensiva, ele poderia estar até se alimentando novamente pela boca. Hoje ele é sondado". 

Sabrina lembra ter sentido "um baque muito grande" ao saber que Enzo foi diagnosticado com a síndrome e que viveria por apenas seis meses. Mas hoje comemora, pois, ao contrário dos prognósticos, Enzo completará cinco anos de vida em novembro. 

Riscos da infecção no início da gestação

Ginecologista e obstetra, Mayna Moura esclarece que nem sempre a microcefalia causada pelo Zika vírus vai ser "extramente grave" para o desenvolvimento do bebê. Da mesma forma que o grau de acometimento do sistema nervoso pode piorar o quadro de saúde da criança, a estimulação precoce é importante para ajudá-la a desenvolver habilidades mais cedo e responder melhor ao tratamento.

A médica frisa ainda que nem todas as infecções pelo Zika causam necessariamente problemas para o bebê. Mas se o contato com o vírus ocorrer nos primeiros meses de gestação, tal como aconteceu com Sabrina, o comprometimento da saúde do bebê é maior.

"Se o contato com o vírus for no primeiro trimestre da gestação, há mais riscos para a transmissão vertical e para o comprometimento do bebê porque é justamente no primeiro trimestre que o sistema nervoso do bebê está em formação. Então, quanto mais precocemente na gestação é adquirido o contato com o vírus, mais cedo são observadas alterações e potencialmente mais graves são as implicações pra esse bebê". 

Prevenção

De acordo com Mayna, os cuidados para evitar a SCZ na gestação são os mesmos recomendados para a dengue e a chikungunya. São estes:

  • Usar repelentes;
  • Usar roupas leves, mas de mangas compridas;
  • Usar sapatos fechados.

Transmissão por contato sexual

A obstetra atenta também para um "cuidado especial" em relação ao Zika vírus, que pode ser transmitido por meio do contato sexual. "No Zika vírus a gente tem a transmissão vertical, que é da mãe pro bebê dentro do útero, e temos a transmissão sexual. Os sêmens dos parceiros podem apresentar Zika e essa transmissão já foi documentada", diz, recomendando ser "extremamente importante", portanto, que os cuidados acima listados sejam adotados pelo casal.  

 

 

 

 

 

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