Por que Fortaleza registrou tantos trovões de madrugada?
Os estrondos são resultado da combinação entre nuvens de tempestade carregadas e formação de raios.
A madrugada foi marcada por uma sequência de trovões que atravessaram Fortaleza e tiraram o sono de muita gente. Em 24 horas, mais de 15 mil raios afetaram o Ceará e 35 raios atingiram o solo na capital, segundo a Enel.
Apesar do barulho constante e dos clarões no céu, nem todo mundo que presenciou os raios pela cidade viu a chuva. Isso levantou a dúvida: por que tantos trovões, tão longos e barulhentos, sem que necessariamente estivesse chovendo forte ao longo de toda madrugada na capital?
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O que são trovões?
Para saber o que aconteceu, é preciso começar do básico. O raio é uma descarga elétrica que acontece entre a nuvem e o solo ou entre nuvens. O trovão é a parte sonora do raio. Já o relâmpago, é a luz. O astrônomo e professor Ednardo Rodrigues, colunista do Diário do Nordeste, explica que o raio é a junção das duas partes. Esse fenômeno está sempre ligado à chuva, mas pode ser percebido em um local onde não está havendo precipitação.
Já o pesquisador da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), Raul Fritz, detalha que essa descarga ocorre porque há um acúmulo de cargas elétricas opostas dentro das nuvens de tempestade, chamadas de Cumulonimbus, que possuem grande desenvolvimento vertical. Quando a diferença de potencial fica muito grande, a descarga acontece.
Ao atravessar a atmosfera, o raio aquece o ar, instantaneamente, a milhares de graus Celsius. Essa expansão explosiva gera uma onda de choque que se transforma no som do trovão, e pode ser ouvido a até 16 quilômetros de distância.
Isso ajuda a explicar por que os trovões dessa madrugada pareceram tão longos, vibrantes e, em muitos momentos, como se estivessem “em cima das casas”. Segundo Raul, a onda sonora de alta energia se propaga pelo ar e, quando atinge as superfícies, transfere energia e causa vibrações físicas. Quanto mais próximo o raio está, mais intensa é a vibração.
Ednardo acrescenta que o eco também contribui para essa sensação. “O eco vem da reflexão da onda sonora em prédios, por exemplo. Por isso, às vezes, o trovão parece se arrastar por vários segundos”.
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Por que se escuta trovão onde não está chovendo?
Segundo Ednardo Rodrigues, os trovões e raios sempre estão ligados à chuva, ainda que não esteja chovendo exatamente onde a pessoa está. “Às vezes a gente percebe o trovão sem estar chovendo, porque a nuvem de tempestade está cobrindo outra região, e ali ela está carregada. As nuvens podem estar se formando primeiro longe da gente”, comenta.
Os raios não necessariamente são um indício de que vai chover, porque isso depende da direção dos ventos, que podem ou não levar a nuvem do local onde está chovendo para outro.
O astrônomo explica ainda que o processo de carregamento das nuvens acontece quando o vapor d’água sobe, esfria e forma gelo a grandes altitudes. Esse gelo participa da separação de cargas elétricas dentro da nuvem, preparando o ambiente para a descarga.
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Riscos trazidos pelos raios
Raul reforça que a o fato de não haver chuva forte não significa ausência de risco. Raios podem ocorrer mesmo em chuvas menos intensas, desde que as nuvens de tempestade estejam presentes.
“Os riscos podem ser fatais. O raio busca o caminho de menor resistência elétrica entre a nuvem e o solo”, alerta Raul. Por isso, eles atingem com mais frequência locais elevados e abertos, como prédios altos, torres, árvores isoladas, praias e campos.
Saiba como se proteger de raios
Segundo Ednardo Rodrigues, a melhor maneira de não ser atingido por um raio é ficando em casa, mas, caso não seja possível, existem algumas estratégias que podem ser seguidas.
Se raios começarem a ser registrados e não for uma opção se manter em casa, é interessante procurar uma estrutura grande para usar como abrigo. Locais pequenas não são uma boa opção, porque o espaço para o raio se dissipar e a corrente se distribuir pode não ser suficiente.
Se ficar em casa seja uma possibilidade, é importante não encostar nas paredes e nos eletrodomésticos. As paredes, muitas vezes, recebem uma descarga elétrica dos raios por fora. Essa energia pode passar para a pessoa que toca nas paredes e resultar em um choque.
Além disso, é possível encostar na parede no momento exato em que ocorre a descarga elétrica por fora. Isso também pode ser fatal. É importante também saber o que fazer quando se está em um lugar totalmente aberto. A indicação é nunca se abrigar embaixo de árvores.
Se as árvores forem o único possível abrigo, é melhor não usar nada como cobertura. O procedimento correto é se abaixar, ficando de joelhos no chão, manter os pés juntos e os braços colados ao corpo. Ficar de pé é a última opção, porque, quanto mais alta a superfície, mais atrai raios, que procuram o menor caminho para chegar ao solo.
*Estagiárias sob supervisão da jornalista Dahiana Araújo.