Como Fortaleza monitora chuvas em tempo real para prevenir enchentes e desastres?
Em entrevista ao Diário do Nordeste, coordenador da Defesa Civil do Município, Haroldo Gondim, detalhou de que modo o trabalho voltado, sobretudo, para áreas de risco é realizado
Uma chuva de 6 horas seguidas acumulou 125 milímetros, o segundo maior volume de janeiro em 10 anos em Fortaleza. Entre 26 e 27 do mês passado, a cidade registrou alagamentos, desabamentos e também a morte de um adolescente em um canal na periferia da cidade. A intensidade daquela chuva reforçou a importância de monitorar e ter respostas rápidas a esses eventos, sobretudo, na Capital que ainda tem mais de 80 áreas de risco.
Mas, como esse trabalho preventivo é feito e de que modo a gestão municipal irá atuar na quadra chuvosa que começou esse mês?
Em entrevista ao Diário do Nordeste, o coordenador da Defesa Civil de Fortaleza, Haroldo Gondim, detalha as tecnologias que serão utilizadas em Fortaleza, como é feita a vigilância em áreas próximas a rios e lagoas, e quais são os fatores que precisam ser observados com maior atenção.
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Na Capital, onde as temperaturas são elevadas durante a maior parte do ano, foram instaladas, em 10 bairros, em setembro de 2025, estações meteorológicas equipadas com múltiplos sensores. Esses equipamentos monitoram simultaneamente diversas variáveis climáticas, como temperatura e formação de ilhas de calor, e além disso, na quadra chuvosa, serão usadas para registrar o volume de chuvas acumulado.
Os bairros monitorados são:
- Benfica
- Centro
- Conjunto Esperança
- Granja Lisboa
- Jangurussu
- Messejana
- Montese
- Mucuripe
- Vila Velha
Além disso, desde 2012, as gestões municipais estimavam que Fortaleza possuía 89 áreas de risco. Em 2023, durante a gestão do ex-prefeito José Sarto, após uma revisão dos dados, esse número foi reduzido para 66 áreas. Mas, no governo Evandro Leitão o município voltou a considerar a estimativa inicial de 89.
Agora, a Defesa Civil realiza junto com o Governo Federal uma atualização oficial do mapeamento. A expectativa é que, com essa revisão, o total ultrapasse 100 áreas de risco.
Ao Diário do Nordeste, Haroldo Gondim, explicou como está sendo feita essa atualização, qual a finalidade, qual o destino desses dados, e detalhou de que modo a Defesa Civil atua, por exemplo, em dias chuvosos, para alertar e agir preventivamente contra desastres.
Haroldo, historicamente, acompanhamos a questão das áreas de riscos e a Prefeitura fala no número de 89. Mas esse total é antigo. Como está o trabalho de atualização e quantas são realmente as áreas de risco em Fortaleza?
O último mapeamento que foi feito pelo Serviço Geológico do Brasil (órgão público vinculado ao Governo Federal) foi em 2012. Então, Fortaleza, com outros 10 municípios no país, foi contemplada, em 2025, para ter o novo Plano Municipal de Ação de Risco, financiado pelo Ministério das Cidades, pela Secretaria Nacional das Periferias, no valor de 700 mil reais inicial, contratou o Serviço Geológico do Brasil para executar com apoio da Defesa Civil essa atualização.
Então, a gente tem catalogado 89, mas alguns projetos de urbanização, tanto do Maranguapinho, como por exemplo, do Vila do Mar, áreas de risco já foram erradicadas. Esse número, na verdade, de 89 caiu para 72 hoje. Só que a gente está passando por esse processo de atualização agora.
Eram previstas três etapas de campo, mas nós teremos quatro etapas, porque a expectativa, com 14 anos de atraso, é ter um aumento considerável. E aumentou porque a periferia, essa franja de Fortaleza, aumentou. São ocupações de forma desordenada, muitas ocupações à margem de rios e lagoas, assim, sem estrutura de drenagem. São diversos fatores.
Temos áreas de risco que eram de um tamanho, tinha uma poligonal, hoje, essas áreas são o dobro, porque as edificações aumentaram nesse entorno, então nós temos diversos problemas.
Nossa expectativa é de aumento sim de área de risco, mas o bom desse projeto é porque ao final dele, o Instituto de Pesquisa Tecnológica de São Paulo (vinculado ao Governo de São Paulo) virá aqui, avaliar todas essas áreas de risco e vai fazer os pré-projetos executivos. Vai dar a solução para cá.
Mas teremos que fazer um trabalho de macrodrenagem, e microdrenagem, enfim, ou então essas famílias devem ser removidas. As soluções serão dadas para que nós possamos, aí sim, junto com a Secretaria de Infraestrutura e outras secretárias, fazer os projetos executivos.
Hoje nós temos diversas fontes de financiamento para mudanças climáticas, para áreas de risco, então assim, com esse projeto já pronto vamos buscar verbas. Temos verba do PAC (do Governo Federal) que abrange várias áreas de risco, então a nossa expectativa é ter esse aumento, mas também a gente já tem as soluções.
E já tem projetos prontos para acabar ou mitigar algumas dessas áreas de risco?
Hoje não temos projetos prontos. Não voltados especificamente para essas áreas de risco. A Seinf tem alguns projetos que ajudam essas áreas de risco, mas eles não foram feitos inicialmente para o problema da área de risco. Então a gente tem que pensar agora dessa forma vai ser mapeado e já vai ter a solução. A Seinf ou outra pasta irá fazer em cima dessa solução o projeto mais adequado.
E quando é que saí o resultado dessa atualização?
A terceira etapa termina no dia 6 de fevereiro e essa etapa são visitas georreferenciadas. As equipes do SGB e da Defesa Civil estão rodando aí, as regionais 1, agora 1, 2, 3, 5 e 11, mas não vai dar tempo de terminar. Aí só estavam previstas apenas 3 etapas, agora vai para 4, que vai ser em abril.
Não vai dar tempo devido a esse aumento de área de risco, da necessidade de fazer avaliação, esse georreferenciamento. Por isso, teremos que ampliar essa quarta etapa.
Terminando essa quarta etapa, eles concluem o produto de mapeamento, entregam para o Instituto de Pesquisa Tecnológica, eles virão aqui, a equipe de São Paulo para poder fazer todo esse estudo de soluções para essas áreas de risco. Lembrando, riscos hidrogeológicos altos e muito altos.
Que são alagamentos, inundações...?
São alagamentos, inundações, enxurradas, enchentes, deslizamentos, tudo isso é hidrogeológico. Então são esses aspectos que serão verificados e, ao final do processo, nós teremos soluções e faremos os nossos projetos. Que será em dezembro de 2026. Teremos que priorizar o que é mais importante.
Estamos bem alinhados (com a Habitafor) em relação a ter esse remanejamento de famílias que moram em área de risco para casas que são contempladas, que são reservadas para pessoas que moram em área de risco, então isso também já está sendo feito. Se não tem a solução de retirar, temos que mitigar o risco. Em dezembro teremos essas soluções.
A Defesa Civil atua com monitoramentos próximos a rios e lagoas. Como é feita essa vigilância?
A gente tem monitoramento para as principais áreas de risco. Temos o trabalho, temos mais de 100 câmaras voltadas para áreas de risco. Mas para áreas que correm um risco, posso dizer assim. São áreas que alagam frequentemente, que trazem transtornos voltados para rios, lagoas, para alguns canais. Aí a gente consegue perceber esse movimento e tomar decisões.
Essas câmeras não são voltadas somente para as áreas de risco, são voltadas para pontos críticos de alagamentos e inundações. Às vezes eu tô ali na tela (na sede da Defesa Civil) e chega a ocorrência e eu vou olhar, vou verificar na câmera. Por exemplo, eu tenho ali no Saporé, que é do Riacho Maceió, uma câmara em cima. Ali eu consigo ver o movimento em tempo real de subida e descida (das águas do Riacho).
Agora o bom, porque com essas estações meteorológicas, como elas estão divididas geograficamente, vamos conseguir ter detalhes. Por exemplo, na maior chuva de janeiro, o maior número de ocorrências que nós tivemos foi na região do Bom Jardim. Porque lá foi o maior índice de chuva. Então a gente vai cruzando essas informações e tentandor prevenir.
Essas estações foram instaladas em 2025? E como elas funcionam?
A gente está fazendo esse monitoramento dessas estações e fica acompanhando a cada dez minutos. Eu vou acompanhando em tempo real, tanto no aplicativo como lá na tela. Então, assim, entender a dinâmica de alagamento e inundações de Fortaleza é muito importante. Até então, a gente não sabia quantos milímetros eram necessários chover para causar danos.
A gente instalou as estações a partir de setembro. Então esse é o primeiro momento de chuva. Na terça-feira da maior chuva, ficamos verificando em tempo real. Fiquei acompanhando, por isso que eu falei 6 horas de chuva, porque esse dado quem tem é a gente. Foram 6 horas, porque eu vi que iniciou as 5h30 e as 11h30, cessou. E aí eu tenho todo o gráfico, onde choveu mais, que hora que choveu mais.
No Dom Lustosa tem uma estação que ela é diferenciada, que ainda é uma estação extra e em regime de comodato (espécie de empréstimo). Estamos avaliando se vamos ficar ou não com o produto. É a décima primeira, por isso falamos em 10. Essa seria a 11ª e ela tem um sensor sônico.
Ela está voltada para dentro do canal do Dom Lustosa. Para extravasar lá no canal é preciso a água chegar 2,40 metros a altura, chegou a 2,16. Então, ficamos acompanhando em tempo real.
E o que é feito a partir desse monitoramento?
Se estiver subindo (o nível de água) e eu estiver sabendo que o sistema que está vindo de chuva é maior ainda, o que é que eu posso fazer? Entro na interface de alertas públicos que nós temos, que é do Governo Federal, coloco o CEP daquela região, ou então faço uma poligonal naquela região, e envio um alerta. O que a gente recebe no celular.
Nós temos esse e tem o serviço que é o broadcast, que é o Defesa Civil Alerta, que é pelas antenas de telefonia. Não é por mensagem, esse é diferente. Esse aqui precisa de cadastro prévio, já aquele não precisa.
O alerta não precisa ser só porque vai acontecer um desastre. Muitas vezes, vamos alertar as pessoas que vão sair de casa, que vão pegar ruas alagadas e vão ter problemas como possíveis acidentes, descargas elétricas, enfim, são diversos fatores que uma chuva intensa pode causar.
Então se a gente perceber que a chuva está aumentando e tem um sistema com chuvas intensas nas próximas 24h, temos como lançar o alerta.
Quais critérios definiram os locais das estações?
Tem dois fatores, mas principalmente a questão das ilhas de calor. As estações medem variáveis e a gente colocou em locais mais periféricos de Fortaleza, mas também a gente pôde ter noção de como é o comportamento, tanto de temperatura, umidade, como também de pluviometria nas diversas regiões de Fortaleza. Mas as manchas de calor foram importantes porque o calor também influencia nessa diferença de chuva. Pode influenciar devido às massas de ar.
Então, a nossa tendência é querer talvez adquirir mais estações e dividir melhor aí sim a gente teremos uma dinâmica muito boa.
Os dados das estações estão disponíveis publicamente?
Estão no site do Observatório dos Riscos Climáticos. Lá tem três informações interessantes. Tem as nossas ocorrências da Defesa Civil, a questão das estações meteorológicas tem lá em tempo real também mostrando essas 10 estações e a questão da limpeza dos recursos hídricos.
Em relação ao diálogo com a Funceme, como ele tem ocorrido?
É interessante pontuar que a Funceme, todos os dias, de manhã e à tarde, principalmente quando tem um sistema de chuva (atuando na área de Fortaleza), temos reunião com a Funceme e a Defesa Civil do Estado. Falamos sobre esses movimentos, esses sistemas, às vezes um vórtice, aquilo que pode se aproximar, como é que está o sistema, qual a previsão para a região litorânea.
Se o dia estiver mais tranquilo, a gente deixa só uma reunião. Caso não, se algo estiver mais complicado, a gente mantém as duas reuniões.
Então, é uma parceria, porque os meteorologistas da Funceme fazem um trabalho muito interessante e como trabalhar o “nowcast”, o evento no curto espaço de tempo, no caso, a chuva, e a gente tem que ter uma tomada de decisão rápida.
Os radares da Funceme são super importantes para a gente ver a chuva naquele momento, cruzar com as informações das estações meteorológicas e saber a dinâmica. Então, é um trabalho bacana junto com a Funceme e o Governo do Estado.