Açude do Jangurussu tem mais de 100 anos e água fora dos padrões para uso
Moradores do bairro denunciam transtornos causados pelo reservatório e temem rompimento da estrutura; técnicos visitaram o local.
Um vasto espelho d’água com capacidade para quase 250 milhões de litros, a “lagoa” do Jangurussu faz parte da paisagem da Regional 9 e, neste mês, entrou no radar das autoridades por um possível risco de rompimento da parede de sustentação. Mas poucas pessoas sabem que esse reservatório, na verdade, é um açude bem antigo que deve completar 104 anos em 2026.
Desde o início de março, moradores do entorno do Açude Jangurussu denunciam que a construção de um condomínio residencial no bairro está obstruindo o escoamento natural das águas, gerando pressão sobre a parede do reservatório.
Por conta disso, uma comissão formada por técnicos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis no Ceará (Ibama-CE), da Defesa Civil de Fortaleza (DCFor) e da Secretaria Executiva Regional (SER) 9 estiveram no local no último dia 13 de março para vistoriar a situação. A comunidade local aguarda um laudo técnico da situação.
Para tratar do assunto, as equipes vão precisar levar em conta a idade do local. Registros históricos do Diário do Nordeste e do livro "Jangurussu", de Raimundo Moacir da Costa, narram que as obras do Açude Jangurussu foram concluídas em 1922. A barragem foi construída nas terras do Sítio Jangurussu, pertencente a João Francisco Ribeiro Neto, numa área rural próxima a Messejana.
À época, a obra foi executada pela Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (Ifocs), órgão federal responsável por obras hidráulicas no Nordeste e que hoje corresponde ao Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs).
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O período coincide com a fase (de 1919 a 1945) em que o órgão federal intensificava a construção de pequenos e médios açudes estratégicos no Ceará para combater os efeitos das secas. Muitos açudes desta fase eram pequenos reservatórios rurais, destinados mais ao suporte regional do que ao macroabastecimento urbano.
“Em 1922, Fortaleza praticamente era só lá na praia. Para cá, ficava a área rural”, conta o pedagogo e educador social Edinaldo Felipe, morador do Jangurussu. “Então, era essa água que abastecia a região durante o período de seca”.
Reportagens do Diário do Nordeste, nos anos 1980, lembram que o açude continuava servindo como espaço de pesca para suprimento de famílias, lavagem de roupas e lazer da comunidade, décadas depois da instalação.
Porém, em anos recentes, a poluição severa passou a impedir o consumo da água do reservatório. De acordo com o último laudo laboratorial de qualidade disponibilizado pela Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma), em outubro de 2024, a amostra analisada não atendia aos padrões legais vigentes.
Segundo Edinaldo, atualmente, o açude funciona apenas como espaço de lazer e confraternização, “mesmo com toda a problemática da poluição” gerada por ligações clandestinas de residências e comércios da área.
O açude Jangurussu não faz parte da rede de abastecimento humano da Capital, cuja água provém do sistema formado pelos açudes Pacoti, Pacajus, Riachão e Gavião, conforme a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh).
Açude 'sufocado', comunidades afetadas
O morador nascido e criado no bairro diz que o sangradouro do açude escorre para a Lagoa do São Cristóvão e deságua no Rio Cocó. No entanto, ele observa que vários outros recursos hídricos do entorno têm sido soterrados pela construção de empreendimentos imobiliários.
“Todas as nossas lagoas estão sendo sufocadas. Quando não é sufocada, é o nível de poluição”, conta Edinaldo. A consequência, ele indica, é a água ameaçando as comunidades.
Segundo a análise inicial de técnicos do Ibama e da SER 9, área à qual o açude pertence, obras aceleradas de um condomínio bloquearam o escoamento natural da água na região. Empoçada, a água passou a colaborar para a erosão da parede do açude.
A diarista Ivonete Félix, moradora do bairro há 30 anos, conta que os impactos já chegam à Travessa Paraisópolis e vilas do entorno, onde o transbordo ameaça invadir casas de quem não tem condições de deixar a região, principalmente em áreas mais baixas do Jangurussu.
Ainda na sexta (13), a reportagem também questionou ao Dnocs, construtor original da barragem, qual é a periodicidade da manutenção dela, quando foi a última vistoria e se o órgão já foi notificado sobre o risco de rompimento. No entanto, não recebeu retorno até esta publicação.
Diagnóstico precário
Segundo o Plano Mestre Urbanístico e de Mobilidade do Plano Fortaleza 2040 – documento que estabelece uma visão de futuro para a Cidade –, o açude Jangurussu faz parte da bacia do Rio Cocó, com uma profundidade média de 1,87 metro e volume de 241.900 m³ (241 milhões de litros de água).
Apesar da representatividade histórica, o estudo revela que o corpo hídrico sofreu uma série de impactos da urbanização do entorno.
A partir de 1960, a região Jangurussu começou a ser mais ocupada com a chegada de migrantes do interior do Estado. Em 1978, houve a instalação do Aterro Sanitário do Jangurussu, mais tarde conhecido como “Rampa”, que por 20 anos funcionou como depósito para todo o lixo da Capital e gerou estigma na localidade.
O plano detalha “grande quantidade de esgoto clandestino sendo despejado em suas águas, bem como de chorume proveniente da área de transbordo ali existente, além do aterramento de seu leito para ocupação”.
Além disso, o diagnóstico aponta a quase inexistência de matas ciliares (vegetação que fica no entorno de recursos hídricos e funciona como uma proteção natural), “o que fica evidente ao se observar que parte das áreas legalmente protegidas pelo Código Florestal como pelo Plano Diretor estão sendo ocupadas”.
Município elabora relatório sobre o açude
A preocupação sobre o risco de rompimento do açude surgiu após alagamentos recentes no bairro e suspeitas de que a obra do condomínio possa ter alterado o escoamento natural da água. Equipes da Prefeitura e de órgãos ambientais realizaram uma vistoria no local, na última sexta-feira (13), para avaliar os riscos.
Técnicos da gestão municipal avaliam se a construção do condomínio reduziu a área de escoamento da água da região, o que teria criado um gargalo na drenagem natural.
A Seuma informou que está elaborando um relatório técnico sobre a situação da área e que as demandas identificadas serão encaminhadas aos órgãos responsáveis para possíveis providências.
Já a construtora responsável pelo empreendimento afirmou que a obra possui licenças e projetos aprovados pelos órgãos municipais e estão previstas medidas de drenagem para reduzir impactos na região.