O que os amantes da astronomia fazem para observar o céu nos dias nublados?
Há equipamentos que permitem que os astrônomos enxerguem o universo mesmo com nuvens no céu.
Basta colocar um telescópio para fora de casa e logo uma nuvem aparece cobrindo o céu. Qual astrônomo, seja profissional ou amador, nunca passou por essa conspiração da natureza?
No treinamento de alunos para a seleção brasileira de Astronomia isso é algo comum. Já vi muitas provas práticas de telescópios dessa seletiva serem canceladas devido ao tempo nublado. Nessas provas, os alunos teriam de 30 a 60 segundos para encontrar um astro, como uma estrela ou planeta, usando um telescópio. Mas, na maioria das vezes, só é possível encontrar nuvens. Então a prova é cancelada, e logo depois o tempo abre e o céu fica limpo. É intrigante. Já presenciei isso pelo menos três vezes.
Nesses casos, os avaliadores escolhem alvos distantes, como sinalizadores de torres (aquelas luzes vermelhas no alto das torres de celular ou prédios), ou até simulam estrelas artificiais posicionando outras luzes.
Aqui no Ceará, o período em torno de março é muito chuvoso. Geralmente a Zona de Convergência Intertropical está por aqui. Quando ela está sobre o Ceará, é muito provável chover no dia 19 de março, dia de São José.
Com o céu nublado, nos dedicamos a outras práticas correlatas ao espaço. Por isso incentivamos nossos alunos a construir foguetes de garrafa PET e participar da Mostra Cearense de Foguetes. O Ceará tem mais de 30 mil alunos praticantes desta modalidade. Eles começam a se preparar em março para lançar seus foguetes em maio. Esse período corresponde muito bem aos meses mais chuvosos do Ceará.
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Os astrônomos que não param
Apesar de as nuvens atrapalharem as observações astronômicas, existem astrônomos profissionais que continuam observando o céu. Eles utilizam radiotelescópios. Esse tipo de telescópio, como o nome diz, usa ondas de rádio no lugar da luz visível. Foi um cientista escocês chamado James Clerk Maxwell quem desenvolveu uma teoria capaz de explicar a natureza da luz. Ele mostrou que as ondas de rádio são, na verdade, um tipo de luz invisível. Ou, ao contrário, que a luz visível é um tipo de onda eletromagnética, assim como as ondas de rádio. Inclusive, ambas se movem na mesma velocidade: a velocidade da luz, porque, de fato, são a mesma coisa.
Temos um radiotelescópio destes aqui no Eusébio, operado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Ele funciona até se o céu estiver nublado porque as ondas de rádio atravessam as nuvens. A origem das ondas de rádio no Cosmo são as radiogaláxias e os quasares.
Radiogaláxias são galáxias que possuem um buraco negro supermassivo em seu centro, capaz de lançar jatos de partículas em velocidades próximas à da luz. Esses jatos produzem radiação na faixa de rádio. Os jatos podem se estender por distâncias enormes, chegando a milhões de anos-luz, e formam regiões chamadas lóbulos. Essa emissão acontece porque elétrons em movimento rápido interagem com campos magnéticos, liberando energia.
Quasares são núcleos de galáxias extremamente brilhantes, também alimentados por buracos negros supermassivos. A energia vem do disco de gás e poeira que gira em torno do buraco negro e aquece até temperaturas altíssimas. Por isso, os quasares emitem luz em várias faixas do espectro, como rádio, ultravioleta e raios X. Eles são tão luminosos que podem ser vistos a distâncias muito grandes, funcionando como faróis cósmicos que ajudam os cientistas a estudar o universo distante.
Dessa forma, mesmo com nuvens, graças aos rádios telescópios, os astrônomos conseguem enxergar o universo distante.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.