Falta de profissionais em postos de saúde de Fortaleza gera sobrecarga e demora em atendimentos

Trabalhadores e usuários denunciam que assistência tem sido impactada pela ausência de enfermeiros, técnicos e médicos suficientes

Escrito por
Theyse Viana theyse.viana@svm.com.br
Imagem mostra fachada do posto de Saúde Ivana Paes, em Fortaleza. A parede é branca e suja, com pedaços descascados. Na frente do posto, um homem passa de bicicleta e com uma garrafa de água na mão.
Legenda: Posto de saúde Ivana Paes aparece com déficit de quatro profissionais de enfermagem, em lista obtida pelo Diário do Nordeste; unidade sofre com aparentes problemas estruturais
Foto: Kid Júnior

O atendimento nos postos de saúde de Fortaleza tem sido impactado pela falta de profissionais de enfermagem suficientes para a demanda. A denúncia é feita por trabalhadores, entidades que representam as categorias e até usuários das unidades.

Por outro lado, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) afirma que convocou mais de 1.400 concursados da extinta Fundação de Apoio à Gestão Integrada em Saúde de Fortaleza (Fagifor) para atuar na rede municipal, dos quais 992 são da enfermagem. A SMS afirma que convocará novos profissionais, mas não cita prazos. 

O Diário do Nordeste teve acesso a uma lista de 15 postos da cidade onde, somados, faltam 21 enfermeiros e 10 técnicos de enfermagem. São os números de profissionais que precisam ser contratados ou convocados para preencher as vagas ociosas:

  • Posto de Saúde Zélia Correia (Regional 5): três enfermeiros
  • Posto de Saúde Dr. Otoni Cardoso do Vale (Regional 6): um enfermeiro
  • Posto de Saúde Célio Brasil Girão (Regional 2): dois técnicos de enfermagem
  • Posto de Saúde Mariusa Silva de Souza (Regional 3): um enfermeiro
  • Posto de Saúde Dr. Luís Costa (Regional 4): um enfermeiro
  • Posto de Saúde Dr. Luiz Augusto Castelo Branco – José Walter (Regional 5): um enfermeiro e dois técnicos de enfermagem
  • Posto de Saúde Edilmar Norões (Regional 6): três enfermeiros e um técnico de enfermagem
  • Posto de Saúde Ivana de Souza Paes (Regional 3): quatro enfermeiros
  • Posto de Saúde Dr. Licínio Nunes de Miranda (Regional 3): dois técnicos de enfermagem
  • Posto de Saúde Lúcia de Sousa Belém (Regional 6): duas enfermeiras
  • Posto de Saúde Sítio São João (Regional 6): um enfermeiro
  • Posto de Saúde CDFAM (Regional 3): um técnico de enfermagem
  • Posto de Saúde João XXIII (Regional 3): dois técnicos de enfermagem
  • Posto de Saúde Carlos Ribeiro (Regional 1): três enfermeiros
  • Posto de Saúde Dr. Pontes Neto (Regional 5): um enfermeiro

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Uma fonte que atua em um posto de saúde de Fortaleza, que não será identificada, explica que a ausência de profissionais de enfermagem ocorre porque grande parte dos contratos encerrou em dezembro de 2024 sem possibilidade de renovação, deixando vagas ociosas.

“Muitos eram de seleção pública com duração de um a dois anos. Os contratos que venceram em 2024 não foram renovados pela gestão Sarto e ficaram essas vagas sem o profissional. Os que tinham vencimento em 2025 e concordaram, foram renovados pela nova gestão”, explica.

Outro problema, aponta, é a não convocação dos aprovados no concurso da extinta Fundação de Apoio à Gestão Integrada em Saúde de Fortaleza (Fagifor), que poderiam suprir o déficit nos postos de saúde.

A situação, assim, como frisa a fonte, impacta diretamente a disponibilidade de alguns serviços à população, como consultas de emergência, coleta de exames e até a vacinação.

“Uma atividade prejudicada é o acolhimento inicial dos pacientes que procuram o posto por algum evento agudo, uma queixa do dia, pois num posto com déficit de enfermeiras não há como dar cobertura em todos os turnos”, inicia.

A presença do enfermeiro, ela explica, é obrigatória ainda para que técnicos de enfermagem atuem em salas de curativo, de vacina, de verificação de sinais vitais, teste do pezinho e outras, “porque as atividades do técnicos só podem acontecer sob supervisão do enfermeiro”. Na ausência do profissional, então, os atendimentos são cancelados.

Imagem mostra fachada amarela do posto de saúde Carlos Ribeiro, no bairro Jacarecanga, em Fortaleza. Na frente do posto, uma mulher de saia preta média, camisa azul e cabelos escuros lisos e longos aguarda.
Legenda: Na manhã de segunda-feira, posto Carlos Ribeiro, com estrutura totalmente renovada, estava lotado de pacientes de aguardando medicações e consultas; na lista obtida pelo DN, ele aparece com déficit de três enfermeiros
Foto: Kid Júnior

Além do trabalho dentro das unidades básicas, a atuação das Equipes de Saúde da Família (ESF) a domicílio também fica comprometida. As ESF se dividem para atender o território do bairro coberto pelo posto de saúde – mas sem profissionais suficientes, não realizam o trabalho de forma plena.

“Cada equipe é composta por médico, enfermeira, técnica de enfermagem, agentes comunitários de saúde e dentista. Se um posto tem seis equipes e em duas não há enfermeira, a população dessas duas equipes fica sem fazer, por exemplo, exame de prevenção do câncer de colo uterino”, pontua.

Os atendimentos de gestantes e crianças, por exemplo, não deixam de ocorrer, mas ficam sem o acompanhamento da enfermeira que faz os testes rápidos pra IST's já na primeira consulta de pré-natal. A avaliação do cartão de vacina das crianças também fica prejudicada. O médico fica sobrecarregado, é impossível dar conta de todos.

Profissionais de outros dois postos de saúde da capital, localizados nas Regionais 3 e 11, também confirmaram à reportagem sobre a ausência de técnicos de enfermagem. Em um dos equipamentos, a sala de vacinação chegou a ser temporariamente fechada pela falta de profissional para aplicação. No segundo, procedimentos cotidianos sofrem atrasos pela "falta de mãos" de técnicos para executá-los.

Novos trabalhadores

Em nota, a SMS informou que “1.447 aprovados no concurso público da extinta Fagifor foram convocados, dos quais 683 são técnicos de enfermagem, 309 enfermeiros e 143 médicos”. A Pasta adiciona que “a convocação para as demais vagas e a migração para o regime estatutário estão garantidas pela atual gestão”. 

A SMS não fixa prazos, mas garante que “o chamamento será realizado de forma gradual e a gestão trabalha para convocar parte do efetivo o mais rápido possível”.

Sobre o déficit de médicos nas unidades básicas, a secretaria afirma que, “por meio de uma parceria com o Governo Federal, Fortaleza contará, a partir de julho, com o acréscimo de 23 médicos na Atenção Primária, oriundos do Programa Mais Médicos”.

Por fim, a Pasta cita a Lei Complementar nº 34/2025, sancionada neste mês, que cria 256 cargos para reforçar a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) de Fortaleza – “desse total, 48 são destinados à categoria da enfermagem”. Reforço para postos de saúde não foi mencionado.

“Faltas ocorrem direto”

As denúncias sobre déficit nas equipes da atenção básica têm chegado ao Conselho Municipal de Saúde de Fortaleza "há algum tempo", como informou a representação à reportagem. "Ainda em novembro de 2024, em reunião ordinária, o conselho solicitou à SMS o envio do número atualizado de trabalhadores em atividade na Atenção Primária e reivindicou a convocação imediata dos aprovados no concurso da Fagifor em razão de tais denúncias", complementou.

As faltas de profissionais de enfermagem em número ideal nos postos de saúde da cidade “ocorrem direto” e são fruto do “subdimensionamento da categoria”, como afirma Adriana Moura, secretária-geral do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde do Ceará (Sindsaúde).

O cenário atual, ela reforça, é causado pelo fim dos contratos da seleção pública dos trabalhadores da saúde e pela não convocação dos aprovados na Fagifor. “Diuturnamente somos chamados a visitar postos. Isso acontece em todas as regionais”, lamenta.

“Os postos estão com necessidade de profissionais tanto de enfermagem como de saúde bucal. Hoje, é preciso ter dois profissionais numa sala de vacina. Na maioria das unidades, fica apenas um, o que induz, sim, a erros”, pondera.

“Você chega num posto de saúde que tem três equipes de dentistas, e só um auxiliar de saúde bucal. Isso compromete a assistência”, complementa Adriana, que é servidora da Prefeitura de Fortaleza.

Para a representante do Sindsaúde, “a alternativa é convocar os aprovados dentro das vagas e o cadastro de reserva” – o que deve apenas amenizar o problema. “Ainda assim, vai gerar faltas. O ideal seria ter um número de profissionais com margem de segurança”, avalia.

As denúncias sobre o déficit nas unidades básicas também têm sido acompanhadas pelo Conselho Regional de Enfermagem do Ceará (Coren), como confirma a presidente, Natana Pacheco – que aponta, ainda, que o problema é estrutural.

Imagem mostra fachada verde do posto de saúde Edilmar Norões, no bairro Parque Dois Irmãos, com uma grande árvore na frente
Legenda: No posto Edilmar Norões, usuários reclamam da demora para atendimento, diante de suposta falta de profissionais em número suficiente
Foto: Kid Júnior

“Não é recente, mas se agravou devido ao encerramento de contratos. Muitos profissionais já trabalham no limite há muitos anos, devido à ausência de concurso público e aos déficits de contratualização para a atenção primária”, observa, frisando, ainda, os impactos do cenário.

“A ausência de uma equipe completa é um prejuízo muito grande para as pessoas, porque a equipe fica sobrecarregada e não consegue prestar uma assistência de qualidade e atender todas as necessidades da população naquela região.”

O Diário do Nordeste acionou o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) para saber se o órgão fiscaliza e acompanha o caso. Em nota, o MP informou que "vai requisitar ao Sindicato dos Enfermeiros do Ceará mais informações sobre a situação", e que "a 138ª Promotoria de Justiça de Fortaleza já tem procedimento instaurado para acompanhar as equipes de saúde da família nos postos de saúde em Fortaleza".

"A população pode formalizar denúncias diretamente na Secretaria Executiva das Promotorias de Justiça de Saúde de Fortaleza (Rua Maria Alice Ferraz, 120, Luciano Cavalcante) ou através do e-mail secretariapsp@mpce.mp.br ou do WhatsApp (85) 98563-4657."

Impactos na assistência

Na manhã de segunda-feira (16), a reportagem percorreu algumas das unidades e ouviu pacientes para entender os impactos na assistência.

No acolhimento lotado do posto de saúde Edilmar Norões, no bairro Parque Dois Irmãos, Maria* (que preferiu não ser identificada) já aguardava há mais de 2 horas por atendimento, “mesmo sendo prioridade”. Acompanhada da filha pequena, a mulher estava em crise de dor renal.

“As demoras pra conseguir consulta são grandes. Eu, mesmo com essa dor horrível, tô aqui desde 7h, já são mais de 9h. Pra esse pessoal todinho aqui só tem um médico. É o que eles dizem”, pontua. Nenhum funcionário concedeu entrevista para confirmar a informação.

No bairro Passaré, a alta demanda se repetia no posto de saúde Alarico Leite, onde dezenas de pacientes se distribuíam nas áreas de espera por consultas. Uma delas, a autônoma Claudiane Soares, 35, afirmou não ter conseguido, na semana anterior, um atendimento emergencial.

“Cheguei com crise de sinusite, com dor na garganta, mal mesmo. Não me atenderam, marcaram foi uma consulta pra daqui a um mês. Tá marcada, aqui, pra julho. Fui à farmácia e tive que comprar medicação”, descreve. Segundo ela, a demora também reflete nos serviços eletivos.

“Fiz prevenção (ginecológica) em setembro e até hoje não recebi o resultado do exame. Marcaram pra eu receber agora, em junho. Quase um ano depois”, critica.

A dona de casa Renata Maria, 42, alongava a fila para receber medicação no posto de saúde Carlos Ribeiro, no bairro Jacarecanga. Ela recorreu à unidade após não conseguir atendimento de emergência no posto Ivana de Souza Paes, no bairro Presidente Kennedy, próximo dali.

“No Ivana não tem emergência, não consegui. A gente não consegue atendimento e eles dizem que é porque não tem enfermeiras. Tô com uma consulta marcada pra agosto, porque parece que é só quando vai chegar uma médica”, narra.

O que diz a Prefeitura de Fortaleza

A reportagem solicitou posicionamento da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) sobre o assunto, questionando, entre outros pontos:

  • qual é o déficit atual de profissionais de enfermagem e médicos nos postos de saúde;
  • quais unidades têm cenário mais preocupante; 
  • quais as causas da situação;
  • o que tem sido feito, como e quando a Prefeitura deve solucioná-la;
  • se há perspectiva de convocar os profissionais da Fagifor para os postos de saúde.

Confira nota da Pasta na íntegra:

"A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) informa que 1.447 aprovados no concurso público da extinta Fundação de Apoio à Gestão Integrada em Saúde de Fortaleza (Fagifor) foram convocados. Desse total, 683 são técnicos de enfermagem, 309 enfermeiros e 143 médicos.

A convocação para as demais vagas e a migração para o regime estatutário estão garantidas pela atual gestão. O chamamento será realizado de forma gradual e a gestão trabalha para convocar parte do efetivo o mais rápido possível.

A Prefeitura de Fortaleza segue adotando medidas administrativas e assistenciais para melhorar o atendimento aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) da Capital. Por meio de uma parceria com o Governo Federal, Fortaleza contará, a partir de julho, com o acréscimo de 23 médicos na Atenção Primária, oriundos do Programa Mais Médicos.

Além disso, na última sexta-feira (13/06), o prefeito Evandro Leitão sancionou a Lei Complementar nº 34/2025, que cria 256 cargos para reforçar a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) de Fortaleza. Desse total, 48 são destinados à categoria da enfermagem."

 

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