Adolescentes que moram em Fortaleza vão competir na olímpiada de matemática mais difícil do mundo
Levi Magalhães, Paulo Jônatas de Oliveira e José Elias Padovan compõem a equipe de seis brasileiros que competem na IMO.
A rotina de alunos olímpicos passa longe do que se costuma associar a quem está no 1º, 2º ou 3º ano. Quadros preenchidos com fórmulas, discussões em grupo e horas dedicadas a problemas complexos. Mas esse é o cenário no dia a dia de três alunos adolescentes que cursam o ensino médio em Fortaleza e se preparam para representar o Brasil na 67ª Olimpíada Internacional de Matemática (IMO), a mais difícil do mundo - e ocorre na China.
Até à China, os competidores atravessaram um longo percurso de olimpíadas e testes seletivos. Por terem sido medalhistas na Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM) em 2024, os estudantes Levi Magalhães, 18 anos, Paulo Jônatas de Oliveira, 16 anos, e José Elias Padovan, 17 anos, residentes em Fortaleza, garantiram participação em 2025 no certame e foram medalhistas mais uma vez.
A organização da OBM selecionou os alunos de maior desempenho para a realização de testes seletivos que classificam para as olimpíadas internacionais de matemática. A partir dessa etapa, os competidores passam por duas provas. Entre eles, os vinte ou trinta melhores avançam para o teste final, do qual são escolhidos os seis melhores alunos do Brasil para representar o país na IMO, o mais alto nível das olimpíadas internacionais de matemática.
A reportagem conversou com Paulo Jônatas de Oliveira Pimentel Leite, 16, e José Elias Padovan Britto, 17, que, em julho, sairão de Fortaleza em direção a Xangai para da IMO. A equipe também tentou contato com Levi Magalhães, do Ceará, mas não obteve retorno. Juntos, os três compõem parte da delegação de seis estudantes que embarcam para Xangai, onde ocorre, entre 9 e 21 de julho de 2026.
Vindos de fora do Ceará, Paulo deixou Recife e José Elias saiu de Brasília, onde estudavam em colégios militares, para integrar o grupo de treinamento olímpico na Capital cearense. Hoje, são bolsistas, onde compartilham não apenas a rotina intensa de estudos, mas também o alojamento com outros jovens de diferentes regiões do País. Os três são alunos do Colégio Ari de Sá, sede Aldeota, em Fortaleza.
Antes mesmo das provas, a experiência já começa a se desenhar como uma imersão. O grupo deve passar cerca de um mês na China, incluindo um período de preparação ao lado da equipe local, além de atividades culturais e de integração. A competição em si ocorre em dois dias, com provas discursivas que exigem raciocínio avançado em áreas como álgebra, geometria e teoria dos números.
Caminho até a seleção
O percurso até a competição internacional começa, geralmente, na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep), considerada porta de entrada para novos talentos. A partir daí, os estudantes avançam para a Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM), onde são selecionados os nomes que passam a integrar a elite olímpica do país.
O nível exigido ultrapassa, muitas vezes, conteúdos de graduação. “É uma matemática muito específica, voltada à resolução de problemas. O nível que eles alcançam chega a ser superior ao de cursos de bacharelado”, explica o coordenador de olimpíadas da escola, Rodrigo Cajazeira.
Além das aulas, um dos diferenciais está na chamada “cultura olímpica”, consolidada em escolas e centros de treinamento no Ceará. “Desde cedo, os alunos já sabem o que são olimpíadas, convivem com outros estudantes do mesmo nível e criam uma rede de troca que impulsiona o desenvolvimento”, acrescenta o coordenador.
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Estudo como rotina
No cotidiano em Fortaleza, a preparação tem ritmo próprio. Não há divisão tradicional por disciplinas, nem horários rígidos como no ensino convencional. A matemática ocupa o centro de tudo.
Os dias começam cedo e podem se estender até a noite, quase sempre dentro da mesma sala: um espaço coletivo onde os estudantes se reúnem para pensar problemas, testar soluções e construir caminhos juntos. Entre uma ideia e outra, surgem pausas, conversas e até momentos de descontração.
“A gente passa o dia inteiro estudando matemática. Tem momentos de aula, momentos de estudo individual e momentos em grupo. Muitas vezes, a gente fica junto em uma sala, com um quadro, pensando nos problemas”, explica José Elias.
Paulo Jônatas, complementa que o ambiente coletivo faz diferença. “Estudar com os amigos torna tudo mais leve. A gente discute ideias, um ajuda o outro. Acaba sendo algo até divertido”, afirma.
Essa convivência também ajuda a tornar a rotina mais equilibrada. Fora dos estudos, há espaço para atividades físicas, música e momentos de descanso, que são formas de manter o ritmo sem esgotamento. “É como se a gente descansasse enquanto estuda e estudasse enquanto descansa”, diz Paulo.
Interesse que começou cedo
O contato com a matemática surgiu ainda nos primeiros anos escolares. Para José Elias, o interesse foi quase natural. “Eu sempre achei matemática mais interessante. Quando comecei a fazer olimpíadas, fui me envolvendo mais e desenvolvendo”, conta.
Já Paulo Jônatas lembra que a curiosidade cresceu junto com as competições. “Eu tinha facilidade e achava legal. Quando começaram as olimpíadas no colégio, participei de várias, mas matemática foi a que mais me chamou atenção”, relata.
Com o tempo, o envolvimento se intensificou, com participação em treinamentos, semanas olímpicas e seletivas internacionais. “Quando você entra nesse mundo, não sai mais. Você conhece pessoas, professores, novos conteúdos. Isso impulsiona”, diz Paulo.
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O caminho até Fortaleza exigiu mudanças importantes. Longe da família, Paulo e Elias passaram por um período de adaptação, comum entre estudantes que deixam suas cidades para integrar centros de alto rendimento acadêmico.
A estrutura oferecida pela escola - com moradia, alimentação e acompanhamento - ajuda a amenizar o impacto. Ainda assim, o início costuma ser marcado por saudade e ajustes à nova rotina. Com o tempo, o convívio entre alunos com trajetórias semelhantes cria um ambiente de apoio mútuo.
Os alunos vivem em um alojamento compartilhado, com acompanhamento de equipe pedagógica e suporte emocional. Os coordenadores Daniel Parente e Francisco Alves lembram que é preciso ter cuidado porque é uma mudança grande, pois os estudantes estão longe de casa, mas precisam manter o foco e o equilíbrio.
Futuro acadêmico
A trajetória olímpica também abre portas para o ensino superior. Universidades brasileiras como Unicamp, USP e, mais recentemente, a Universidade Federal do Ceará (UFC), oferecem vagas específicas para medalhistas em olimpíadas científicas.
“Essas vagas dão uma segurança. A gente pode focar mais na matemática, sabendo que tem boas oportunidades no Brasil”, explica José Elias. Ainda assim, muitos estudantes miram universidades no exterior. “Eu pretendo aplicar para fora, se tudo der certo”, afirma Paulo Jônatas.
Segundo os coordenadores, esse é um perfil comum entre os participantes, pois eles enxergam nas olimpíadas como uma porta para o mundo. Eles avaliam como uma trajetória que conta muito para processos seletivos internacionais.
Experiência internacional
Apesar da pouca idade, alguns dos estudantes já acumulam experiências fora do país. Paulo, por exemplo, já participou de competições na Romênia e na Argentina. Elias também integrou delegações em torneios internacionais, como a Olimpíada do Cone Sul.
Agora, a expectativa para a IMO é de confiança. “Antes eu estava mais nervoso. Agora me sinto mais tranquilo, porque a gente vem se preparando há muito tempo. Acho que vão vir bons resultados”, diz Elias.