Cearense conquista única medalha de ouro brasileira em olimpíada de Matemática na Europa
Esta é a segunda vez que o Brasil leva a premiação máxima, após a primeira em 2019.
A estudante cearense Julia Leguiza, de 17 anos, conquistou a única medalha de ouro da equipe brasileira que participou da European Girls' Mathematical Olympiad (EGMO) 2026 — a maior olimpíada internacional de matemática exclusiva para meninas — realizada na cidade francesa de Bordeaux. Essa foi a segunda vez que o Brasil levou a premiação máxima após o primeiro ouro, em 2019.
Cursando o 2º ano do Ensino Médio, a jovem, natural de Fortaleza, conta que, apesar de ter dedicado anos de estudos para realizar o grande desejo de participar do evento, está surpresa com o resultado, que parecia ser inalcançável. “Então, para mim, parecia muito impossível. E aí, quando vi que tinha sido ouro, fiquei muito impressionada e feliz", detalha ao Diário do Nordeste.
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Admiradora da olimpíada, ela acompanhava os resultados brasileiros desde edições anteriores e, neste ano, pôde contribuir com a equipe, que foi a melhor da América Latina. Além do ouro de Julia, a delegação nacional ainda trouxe para casa uma medalha de prata, outra de bronze e mais uma menção honrosa, saldo que rendeu ao Brasil o 15º lugar no ranking geral, em meio aos cerca de 60 países participantes do evento, realizado entre os dias 9 e 15 de abril.
Em um ambiente predominantemente masculino, em que mulheres são menos de 20% em competições como a Olimpíada Internacional de Matemática (IMO), a EGMO propõe encorajar jovens garotas a seguirem a paixão pela matemática, e foi exatamente a existência de torneios femininos que inspirou a estudante a superar a solidão e o isolamento, e seguir na trajetória olímpica.
“Durante o início, em alguns momentos, me senti mais desmotivada, mas depois descobri que tinham olimpíadas femininas e isso me motivou a continuar e tentar ir para um nível maior, competir de igual para igual com os meninos. Nós somos poucas, mas não é impossível.”
Embora as disputas exclusivas sejam consideradas “mais confortáveis”, devido à presença de outras meninas, a estudante revela que não pretende se deixar vencer pelo desafio de perseverar em ambientes majoritariamente masculinos. Julia já tem em mente os próximos desafios: se classificar para competições internacionais mistas de matemática, como a IMO e a Olimpíada Ibero-americana de Matemática (OIM).
"Acho importante que meninas nunca se limitem a olimpíadas femininas. Considero que esses eventos são um apoio, uma motivação. Dê o seu máximo em competições mistas, porque não é impossível, outras já conseguiram”, destaca.
De onde surgiu a paixão pela matemática
A cearense, estudante da Organização Educacional Farias Brito, conta que o interesse por matemática nasceu por acaso, durante o 5º ano do Ensino Fundamental, quando se preparava para as seletivas para ingresso no Colégio Militar de Fortaleza (CMF). Naquele momento, ao estudar os conteúdos do certame, deparou-se com uma "matemática diferente", que apresentava conteúdos mais complexos do que os que havia aprendido até então, deixando-a intrigada.
Após dois anos tentando, conseguiu entrar na instituição pública e, logo em seguida, conheceu a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), que apresentou à Julia um novo mundo, no qual poderia unir a paixão pelos números ao sonho de viajar para fora do Estado pela primeira vez, já que a competição realiza cerimônias de premiação em várias partes do território nacional.
O desejo de conhecer outras cidades se realizou em 2022, quando visitou Recife (PE) após ganhar a medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM). Desde então, ela já conheceu, por meio das competições, destinos como Florianópolis (SC), Argentina, México e, recentemente, França.
“Gosto de fazer olimpíadas para poder viajar, porque acho muito legal e não tenho essa prática nem essa disponibilidade muito fácil. Então é o meu meio de conhecer outros países e é divertido, e também gosto muito de matemática, une o útil ao agradável.”
Durante a EGMO, além de garantir a premiação máxima ao resolver problemas matemáticos complexos de forma discursiva, a cearense aproveitou para visitar diversos pontos turísticos de Bordeaux, cidade histórica do sudoeste francês.
No desafio mais recente, no qual teve aulas de preparação com uma professora, a representatividade feminina inspirou ainda mais a jovem a seguir na rotina rigorosa, que inclui mais de oito horas de estudos, inclusive aos fins de semana. Apesar da agenda cheia, ela conta que prioriza momentos de pausa, para lanchar ou caminhar um pouco, e de interação com os colegas, com quem muitas vezes se reúne para resolver problemas matemáticos.
O que a estudante planeja para o futuro
Ao Diário do Nordeste, Julia detalha que deseja unir a paixão pela matemática a novos desafios internacionais e acadêmicos de alto nível. Além de garantir vaga na Olimpíada Internacional de Matemática e na Olimpíada Ibero-americana de Matemática, a cearense quer usar os resultados nas competições para ingressar em alguma universidade nos Estados Unidos.
Embora o processo dessas instituições seja considerado difícil, a jovem está decidida a tentar essa trajetória internacional. Vale destacar ainda que medalhas olímpicas, com o ouro conquistado pela estudante na EGMO, garantem a entrada direta em universidades públicas brasileiras, como a Universidade Federal do Ceará (UFC) e a Universidade Estadual Paulista (Unesp), no estado de São Paulo.