Escola não é lugar para doer
Episódios que machucam a comunidade escolar não podem ser naturalizados.
Há poucas semanas fui adicionada ao grupo de Whats App da escola onde cursei parte do ensino fundamental e médio. Lá, reencontrei algumas das pessoas com quem convivi entre as décadas de 1990 e 2000, e isso mexeu em minhas memórias.
Senti saudades, lembrei de muitas outras pessoas com quem estudei naquela e em demais escolas por onde passei na vida — e não foram poucas. Ressaltei em silêncio aquele clichê de quando nos deparamos com detalhes de tempos atrás: “O tempo passou rápido demais”. Será?
Ao meu ver, tempo também é revolução, pois nos chacoalha entre transformações, mas também permanências que nos acompanham ao longo de toda a vida. Muita coisa passa, tantas ficam. As minhas lembranças de escola são, na grande maioria, muito boas! Que sorte a minha, eu sei.
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Talvez por isso, nas últimas semanas, ao rememorar os tempos de escola, senti-me grata, mas também reflexiva sobre o que a escola representava para mim… e o que significa para as gerações mais novas. Sobre como foram minhas vivências nos colégios e como tem sido, atualmente, pertencer à comunidade escolar.
Temos vivenciado constantes violências à integridade da comunidade escolar. Ataques, agressões envolvendo alunos, professores; 'brincadeiras perigosas'. O lugar que deveria ser ambiente de segurança, afeto e aprendizado tem abrigado medo.
Esse cenário violento é um ataque não apenas a quem está dentro da escola, mas dói em famílias, vizinhos e reflete diretamente em como as instituições de ensino têm sido vistas também do outro lado de seus muros — físicos e simbólicos.
Quando mães, pais, tios, madrinhas ou avós deixam suas crianças ou adolescentes na creche, na escola, não imaginam que horas depois podem receber uma ligação de urgência porque o ente está ferido, dopado, nervoso, adoecido mentalmente. Com medo!
Educadores, quando chegam às salas de aula ou planejam experiências pedagógicas, não os fazem imaginando que podem ser alvos de ameaças, agressões físicas, verbais, racismo, intolerância ou tantas outras violências.
Violência não é comum em lugar nenhum e jamais deve ser naturalizada. Episódios que machucam a comunidade escolar não podem ser aceitáveis e toda a sociedade tem responsabilidade sobre isso.
Conversas dentro de casa, na calçada, no trabalho precisam combater a ideia da escola como lugar de medo, de violência, de bullying, e passar a ensinar narrativas que fomentam a cultura de paz e desmontam cenários de intolerância em ambientes físicos e digitais.
O combate à violência tem muitos caminhos: afeto, disciplina, letramento, valorização, cultivo da autoestima escolar, políticas públicas, investimento financeiro e de tempo. Construção de narrativas de paz. Mediações de conflitos.
Mas esses caminhos não chegam a destinos satisfatórios se entendermos que a responsabilidade é singular, individual. Educar é uma tarefa coletiva, passa pelas nossas creches, escolas, universidades, mas também precisa ser presença constante nos almoços em família, nas conversas de calçadas, nas formações de trabalho. É um verdadeiro processo de "conscientização", semelhante ao que nos ensinou o mestre Pulo Freire.
A escola precisa continuar sendo um lugar seguro. Espaço de aprender — e esse verbo precisa estar ligado à esperança, diversidade, tolerância, diálogo, acolhimento. Escola não é território de disputa. Ensinar também exige ambiente de alívio e segurança físico-emocional. Escola é cenário de curar, não é lugar de doer.