"Inexplicável e injustificável", diz arquiteta sobre desaparecimento da escultura "Mulher Rendeira"

Após sumiço da obra do pernambucano Corbiniano Lins, a arquiteta e pesquisadora Tania Vasconcelos reafirma o descaso da população de Fortaleza com o patrimônio artístico da cidade

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Legenda: Escultura "Mulher Rendeira", na entrada do Banco do Brasil, no Centro de Fortaleza
Foto: Reprodução/Instagram

A obra "Mulher Rendeira", de autoria do escultor pernambucano José Corbiniano Lins, foi removida do prédio do Banco do Brasil, no Centro de Fortaleza, e não foi mais vista no local desde a última sexta-feira (29). A escultura teria sido retirada durante uma reforma da entrada da agência bancária, porém, segundo o cantor, compositor e produtor musical Calé Alencar, ela foi destruída por operários.

O desaparecimento da obra de arte repercutiu e gerou reclamações nas redes sociais. Para Tania Vasconcelos, arquiteta e pesquisadora da Arte Urbana e Pública de Fortaleza, o ocorrido é inexplicável e injustificável.

“Diante de tantas vulnerabilidades da arte urbana, eu vivia tranquila quanto à obra Mulher Rendeira do Corbiniano Lins, achando que estava guardada pelo Banco do Brasil. Se não tinham mais interesse na obra, que a doassem. Isso que permitiram acontecer é um crime contra o patrimônio. É um descaso não só da população, como da própria agência do banco que leva o nome do país”, afirma.

A contribuição de Corbiniano Lins para a arte urbana de Fortaleza também contempla outras duas esculturas públicas expostas na cidade. Além da “Mulher Rendeira”, de 1966, o artista esculpiu a estátua de “Iracema”, inaugurada em 1965 na avenida Beira-Mar, no Mucuripe. Segundo Tania, também autora do livro  “A Arte Pública de Fortaleza”, Corbiniano retornou à capital cearense em 2006 para a inauguração da nova iluminação da obra de arte.

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Legenda: Em 2006, Corbiniano Lins revisitou sua obra "Iracema", na avenida Beira Mar de Fortaleza
Foto: Ivana Paiva

Ainda em 1965, foi instalado o “Monumento do Vaqueiro” na praça Brigadeiro Eduardo Gomes, em frente ao antigo aeroporto. Hoje com pichações e rachaduras em sua estrutura, a peça também é exemplo do abandono e descaso.

“É um privilégio para a cidade ter obras que representam tão bem personagens tão cearenses, nordestinos na essência. Toda obra de arte é um patrimônio e nada justifica não mantê-las ou depredá-las. Eu estou tomando tudo isto que está acontecendo, toda esta barbaridade, como algo maior que possa impulsionar mudanças positivas para com a realidade artística de Fortaleza”, conclui a arquiteta.

Posicionamento

O Departamento do Ceará do Instituto dos Arquitetos do Brasil também se pronunciou quanto ao caso. Segundo nota oficial divulgada neste domingo (29), o IAB-CE cobrará do Banco do Brasil os devidos esclarecimentos sobre o ocorrido e a “responsabilização pelo descaso com importante patrimônio institucional e patrimônio do povo brasileiro”.

“É inaceitável o descaso e exige-se que o Banco do Brasil tome medidas em caráter de urgência para descobrir o paradeiro da escultura, realizar seu restauro e com isso zelar como se deve tal patrimônio cultural, que apesar de ser privado e de não possuir nenhuma proteção legal, estava lá para contribuir, para embelezar e enriquecer nossa cidade”, cita o documento.

Segundo a publicação de Calé Alencar, os operários da obra afirmaram que uma pessoa passou no local e recolheu as partes do monumentos, declarando o intuito de restaurá-lo. Assim, o IAB também solicitou que quem houvesse levado a obra, a devolvesse, para que sua devida recuperação seja feita por profissionais especialistas.

Em nota, o Banco do Brasil informou que a escultura foi danificada por um "erro de execução no projeto de engenharia", que deveria removê-la justamente para protegê-la. A instituição afirmou ainda que irá tomar medidas para garantir a restauração da obra.

Veja a nota na íntegra:

O Banco do Brasil esclarece que durante uma obra de reparação em sua agência Praça do Carmo, em Fortaleza, a escultura Mulher Rendeira, do artista Corbiniano Lins, foi indevidamente danificada e removida do local.

A retirada da escultura é resultado de erro de execução no projeto de engenharia, que previa a remoção da escultura durante as obras exatamente para protegê-la, com sua posterior reinstalação.

O Banco do Brasil lamenta profundamente o erro de execução da empresa contratada para a realização da reforma e irá adotar ações que levem à restauração da escultura e sua reinstalação no local.