Em “A Vida Invisível”, Karim Aïnouz toca a ferida do Brasil machista

Premiado em Cannes e aposta brasileira por uma vaga no Oscar, nova produção do cearense estreou nacionalmente no Cine Ceará na noite de sexta-feira (30)

Escrito por
Antonio Laudenir laudenir.oliveira@diariodonordeste.com.br
Legenda: Carol Duarte e Julia Stockler entregam protagonistas que se completam tanto nos desejos como na dor
Foto: Divulgação

O desconforto e uma certa angústia são sensações inevitáveis quando os letreiros finais de “A Vida Invisível” sobem na tela. Antes de buscar respostas imediatas, o espectador precisa valer-se do silêncio. Da reflexão. Abraçar e discutir a origem de tal incômodo podem ser artifícios essenciais à compreensão do novo trabalho assinado pelo diretor Karim Aïnouz

A produção baseada no livro "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão" de Martha Batalha entrega uma dolorosa história de vida envolvendo as irmãs Eurídice (Carol Duarte) e Guida Gusmão (Julia Stockler). Estamos no Rio de Janeiro dos anos 1950 e quais as razões de eventos ambientados no passado causarem tanta agonia ao olhar dos dias atuais? Contribui para tanto o roteiro desenvolvido pelo trio Murilo Hauser, Inés Bortagaray e Aïnouz. Outro alicerce eficaz é o cuidado visual e cênico pretendido pelas lentes do cearense, apoiado também pelo serviço da diretora assistente Nina Kopko. 

A ação é projetada pelos sonhos, desejos  e  desilusões  amargadas pelas  protagonistas. Imersas num contexto social dominado pela voz masculina, Eurídice almeja ser pianista. Quer desenvolver sua arte e quem sabe   estudar no conservatório de música de Viena. Guida, por sua vez, busca autonomia na vivência das escolhas amorosas. Existe cumplicidade e apoio entre elas. É mútuo o cuidado e até a inocência alimentada por cada uma. Vítimas do conservadorismo, a posterior ruptura entre ambas move este sufocante jogo de desencontros. Separadas, apartadas do convívio, tentam contornar a dor da distância e violência. Existe esperança no reencontro. 

Aïnouz introduz  as Gusmão a partir de cenários mergulhados em uma natureza selvagem, intocada e idílica. Paulatinamente, os espaços físicos do filme vão ficando cada vez mais apertados. Nesse intervalo temporal, a capital fluminense pouco é consumida  pelas personagens. É retratada distante e progressivamente mais hostil na geografia. A gradual separação das irmãs acompanha o desmoronamento daquela vegetação mostrada no início do filme. 

Cada qual carrega e afunda ao mesmo tempo numa prisão involuntária. Recalques, frustrações e mentiras refletem a violência enfrentada por aquelas mulheres. Esgarçam   abusos do corpo e da mente. Brutalmente mais comuns do que imaginamos entre quatro paredes. Tais manifestações de força e dominação masculina, provoca “A Vida Invisível”,  podem estar materializadas seja numa noite de núpcias como no território das relações de trabalho. 

Família não é sangue

Os caminhos tortuosos percorridos por  Eurídice e Guida se assemelham às de inúmeras mães, avós, irmãs, tias e companheiras  silenciadas  no correr da vida real. O mal estar apontado no início do texto repercute a constatação do quanto nada sabemos dos anseios e  expectativas perdidas pelas  mulheres que nos cercam. É  profunda e exigente a meditação em torno das  escolhas que não foram lhes permitidas tomar. Outra discussão urgente protagonizada pela adaptação cinematográfica trata da idealização social de um núcleo familiar. “Família não é sangue. É amor”, intervém Guida em determinado momento da obra. 

Somente a  partir do carinho e afetividade de estranhos e consequente construção de  um lar pouco comum aos costumes tradicionais é que a irmã de Eurídice aplaca um pouco da angústia que carrega.Ao adentrar aspectos tão pouco debatidos e censurados até hoje na sociedade brasileira, “A Vida Invisível” aproveita as mais de 2h de projeção para elaborar sensível resgate de vivências  anônimas espalhadas pelo País.

Insensibilidade, injustiça e decepção amordaçam existências doloridas para muitas mulheres.  Dono de  filmes mediados pelo deslocamento entre lugares, Aïnouz investe no que de mais pessoal cada espectador possui, a ideia de um lar.

Devassa a intimidade de nossas casas. Visita um espaço contumaz de opressão que pode estar na cozinha ou  na sala de casa. Fernanda Montenegro vive a versão idosa de Eurídice. Estabelece paralelos entre o Brasil do passado e o do contemporâneo, que testemunha o crédito a ideais retrógrados e medievais. O semblante cansado, as cicatrizes e o medo denunciam nossa derrota moral. Karim Aïnouz entrega um alerta. 
 

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