‘É lindo ver os grisalhos acreditando no amanhã’: aos 83 anos, idosa aposta na arte e no sonho

No Dia Mundial do Idoso, celebrado nesta sexta-feira (1º), Mazé Figueiredo transborda vitalidade ao escolher os palcos

Legenda: No Theatro José de Alencar, a artista estreará o espetáculo musical “Telha de Vidro”, baseado no poema homônimo de Rachel de Queiroz
Foto: Thiago Gadelha

Se a data não constasse na certidão de nascimento, 3 de maio de 1938, Mazé Figueiredo poderia ter 20 anos de idade. A constatação invade os ouvidos tão logo ela responde do outro lado da linha, “Oi, meu filho, bom dia! Você tá bem? Diga lá!”. A alegria na voz não nega: a pedagoga, gerontóloga, coralista e atriz radicada no Ceará é toda vitalidade.

É quase meio dia quando conversamos. Naquele momento, Mazé se encontra nas dependências do Theatro José de Alencar, aguardando o início do ensaio para o espetáculo do qual integra. Até chegar ao local, a rotina diária foi seguida à risca. Cedinho, a idosa namora o mar, beijando o sol quando sai na varanda. Após cuidar dos afazeres domésticos, o novo lar é o mundo. “Não gosto de fazer nada em casa. Gosto de rua”, diz.

Também aprecia conversar e o fazer cênico. Mazé inspira contato. Não à toa, na mesma data em que se recorda o Dia Mundial do Idoso, celebrado nesta sexta-feira (1º), ela estreará a peça musical “Telha de Vidro”, baseada no poema homônimo de Rachel de Queiroz (1910-2003). No trabalho – fruto da oficina teatral do Programa de Ação Integrada para o Aposentado (PAI) –  interpretará a personagem Mimi, avó da aclamada escritora cearense. 

Legenda: “Nietzsche diz que nada é maior que os sonhos. E a vida só tem sentido quando se sonha", sublinha a pedagoga, gerontóloga, coralista e atriz Mazé Figueiredo
Foto: Thiago Gadelha

O papel é apenas um dos tantos desempenhados pela bancária aposentada na dobra do cotidiano. Também é mãe, esposa, avó, amiga. O aconchego com o qual se refere às pessoas queridas parece apontar para outra característica. Tem muito de ternura e sonho nas vivências de Figueiredo. “Quando eu era pequena, queria ser recepcionista de aeroporto, só pra falar várias línguas e conhecer muita gente”, conta. 

Hoje, ela direciona a mesma pergunta a si toda vez que se põe a pensar na existência: qual será o próximo desejo a cumprir? “Nietzsche diz que nada é maior que os sonhos. E a vida só tem sentido quando se sonha. É erguer as mãos para o céu e pedir ao Senhor: dai-me paz, dai-me alegria, dai-me a condição de o outro ajudar, a condição de ser feliz no coletivo”.

Diálogos artísticos

Nascida em Mossoró, município do Rio Grande do Norte, faz mais de meio século que Mazé Figueiredo reside em Fortaleza. A arte, segundo ela, despontou cedo no horizonte, quando ainda estava em território potiguar. “Acho que nasci artista. Desde pequena, diziam que eu era espevitada, queria aparecer. Eu não queria, mas aparecia. E daí, qual é o problema?”, brinca. Logo, foram as peraltices infantis as responsáveis por moldá-la a ser quem hoje é.

Mais tarde, quando se tornou professora do Ensino Básico, sentiu que a vocação teatral não a abandonou. Na sala de aula, adorava ler textos nos quais aparecessem animais. Se cachorro, colocava os estudantes para latir; se gatos, para miar. Eles também podiam voar feito borboleta ou correr como um coelho. 

“O magistério é uma das funções mais belas que nós temos na sociedade. Ela é responsável pela formação do homem do amanhã. Lamentavelmente, o nosso Brasil não investe na educação, no professor. Devia ouvir o que o Paulo Freire dizia: ‘Educação não transforma o mundo. Educação transforma as pessoas. Pessoas transformam o mundo’”.
Mazé Figueiredo
Pedagoga, gerontóloga, coralista e atriz

O universo de Mazé foi igualmente transformado quanto mais investia nos palcos. Em 1962, por exemplo, o Grupo de Teatro de Mossoró (Team) participou do IV Festival de Teatro de Estudantes Amadores do Brasil. Na ocasião, a artista foi escolhida a Melhor Atriz Amadora do País por meio da peça “Eles não usam black-tie”. Com o passar dos anos, ela integrou o elenco de várias outras montagens, sendo ainda idealizadora do Festival de Teatro da Terceira Idade de Fortaleza - Festidade.

Legenda: As caras e bocas de Mazé Figueiredo: dedicação irrestrita ao Teatro
Foto: Thiago Gadelha
Legenda: As caras e bocas de Mazé Figueiredo: dedicação irrestrita ao Teatro
Foto: Thiago Gadelha
Legenda: As caras e bocas de Mazé Figueiredo: dedicação irrestrita ao Teatro
Foto: Thiago Gadelha

A missão mais desafiadora, conforme destaca, foi interpretar a personagem Chiquinha na montagem “Musical da Turma do Chaves”, em 2014. “Eu tinha 76 anos quando a Francenice Campos – responsável pela concepção cênica e direção do espetáculo – me convidou para o papel. Eu sempre me perguntava, ‘como é que vou fazer a Chiquinha com essa idade?’. Ela insistiu e tudo foi um sucesso, ficamos 5 anos em cartaz. Uma coisa muito linda”.

Outro projeto que gosta de mencionar é “Diva”, monólogo escrito por Walden Luís, apresentado no ano de 2018. “Foi um espetáculo muito bonito, que me tocou profundamente, porque diva sou eu”. 

Legenda: Mazé Figueiredo em 1962, quando foi escolhida a Melhor Atriz Amadora do Brasil pelo desempenho na peça “Eles não usam black-tie”
Foto: Arquivo pessoal

Projetos e sonhos

E ela não pretende parar tão cedo. Também neste mês, em alusão ao Dia Mundial do Idoso, Mazé Figueiredo compõe a programação do Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB) por meio do projeto Ativoidade. Além de participar de espetáculos, ela conduzirá o momento “Como se planejar financeiramente para uma vida longa”, realizado por meio de videoconferência com um profissional de São Paulo. 

Ao mesmo tempo, segue já situando a emoção de estar de volta aos palcos depois do difícil momento de pausa compulsória. Quando se dá conta de que ocupará novamente o tablado do centenário Theatro José de Alencar, a emoção toma conta do coração com mais força. 

Legenda: "Gosto de lembrar que o bonito da vida é poder bordar histórias, costurar sonhos, desatar os nós de nossos dias", destaca a artista
Foto: Thiago Gadelha

“Enquanto atriz, acho uma glória pisar nesse palco sagrado. Levito, viajo. São outros mundos, o teatro permite isso. Você não vive você, você vive o outro. Mas você vive o outro para o outro”, dimensiona.

“É muita água pra rolar debaixo da ponte, né, meu filho? Aí você tem que ser água mesmo, seguindo silenciosa. Ela vê o obstáculo, percebe que não pode subir, contorna e vai em frente. É o que eu faço. É a vida, seguindo o curso do rio”.
Mazé Figueiredo
Pedagoga, gerontóloga, coralista e atriz

Na data em que a terceira idade ganha ainda mais relevância, Mazé situa ser um achado, uma glória e uma dádiva perceber-se abraçada à preciosa herança do tempo. Um vestígio possível do vigor das travessias percorridas.

“Que lindo a gente ver os grisalhos acreditando no amanhã, investindo nos sonhos. Sem eles, não há o depois. É acreditar na capacidade de interagir, de produzir, de ser pensante e atuante como membro dessa sociedade para a qual trabalhamos tanto. Gosto de lembrar que o bonito da vida é poder bordar histórias, costurar sonhos, desatar os nós de nossos dias. E viva a vida! Existir é muito bom e viver é ainda melhor. Obrigada, Deus, pelos meus 83 anos”.

Serviço
Espetáculo “Telha de Vidro”, com Mazé Figueiredo e elenco
Nesta sexta-feira (1º), às 16h, no Theatro José de Alencar (Rua Liberato Barroso, 525, Centro). Gratuito. Mais informações no número (85) 98992-7895

Programação do Centro Cultural Banco do Nordeste em alusão ao Dia Mundial do Idoso
Roteiro completo nas redes sociais da instituição (instagram e facebook)

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