Carnaval de ontem: Festejos em Fortaleza cresceram mesmo após contextos de crise e silenciamento

Ao longo da história, crises econômicas, tensões com o poder público, disputas sociais e censura da festa provocaram altos e baixos na realização do Carnaval na capital cearense

Maracatu Az de Ouro
Legenda: Maracatu Az de Ouro
Foto: Foto: Arquivo Nirez

"A calmaria da cidade é geral, é geral, é geral”, cantava o cearense Ednardo. na década de 1970. Os versos de “Maresia” ganharam nova interpretação pelo Bloco Luxo da Aldeia, nos últimos 14 anos. A canção é retrato de um tempo de folia local muito tímida em relação aos maiores polos da festa – Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro – , resultante de tensões econômicas, políticas e sociais que, inclusive, antecedem aquele período. 

Apesar das últimas duas décadas irem na contramão dessa música por aqui, com um aumento significativo de atividades carnavalescas na capital, revirar uma história de caráter cíclico para entender o que poderemos encontrar amanhã, nos festejos do pós-pandemia, pode ser uma das alternativas para enfrentar o não-Carnaval de hoje. E esse é o convite dessa série de três reportagens a ser publicada nos dias cinzas de fevereiro de 2021.

“O Carnaval é uma festividade que reflete, de modo muito próximo, a organização social. Então, quando a sociedade está em crise, ele também vai refletir isso”, introduz a doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará e professora do IFCE, Vanda Lucia de Souza Borges. Autora da tese “Carnaval de Fortaleza: tradições e mutações” (2007), ela faz um apanhado dos altos e baixos dessa manifestação na capital, situando os desafios apontados nos jornais desde os primeiros registros da festa por aqui, no século XIX.

B<MC>loco </MC>P<MC>rova de Fogo (à esquerda) e Escola de Samba Luiz Assunção (abaixo) marcaram o carnaval de Fortaleza
Legenda: Bloco Prova de Fogo marcou o Carnaval de Fortaleza
Foto: Foto: Arquivo Nirez

“O auge do Carnaval nascente aqui em Fortaleza é ali pelos anos de 1886, que foi o ano principal, antecedido de alguns anos também festivos. Mas aí quando veio a seca (1888), esse carnaval praticamente desapareceu da imprensa”, observa Vanda, baseada em pesquisas de Caterina Saboya.

A professora recorda que a realização do Carnaval de rua em Fortaleza no início do século XX “era criticada e denunciada como frivolidade e desregramento moral”.

“Em 1916, houve manifestos nos jornais da Capital contra a realização da festa momesca por causa da grande seca que, desde 1915, assolava o estado do Ceará e outros estados do Nordeste. O impasse surgido foi resolvido com a proposta de que o dinheiro arrecadado nas festas seria revertido em apoio aos flagelados. E assim foi feito”, lembra.

Nos anos 1930, de acordo com o memorialista Nirez, o desfile de rua se intensificou, quando começaram a surgir os blocos e cordões carnavalescos. “Um dos blocos mais antigos desse período é o Prova de Fogo, de 1935, onde brincavam Lauro Maia e Luiz Assunção. Depois surgiu a Escola de Samba Lauro Maia onde os mesmos compositores do Prova de Fogo estavam presentes”, aponta.

É desse período também o surgimento do Maracatu Az de Ouro (1936), o mais antigo em atividade na Capital, apesar dessa manifestação ter registros por aqui que datam do século XIX.

Segunda Guerra

Mas na década de 1940, especificamente nos anos da Segunda Guerra Mundial, a festa em Fortaleza arrefece novamente. “Em 1943, não houve Carnaval de rua. No domingo de Carnaval, a União Estadual dos Estudantes promoveu passeata antinazista, e os estudantes afirmaram ser o caso de se acabar com a folia e não a promover. Neste ano, Carnaval mesmo só nos clubes e o seu anúncio nos jornais foi mínimo”, explica Vanda Borges.

Legenda: Registro do Carnaval no Ideal Clube
Foto: Arquivo Nirez

Em 1944, segundo a pesquisadora, o corso não passou de quinze carros fechados e um caminhão com brincantes. E, em 1945, o ambiente das ruas para os blocos foi frio e adverso: “cada bloco era acompanhado por um grande número de garotos a vaiá-lo”, conta. 

<MC>Cordão das Coca Colas ressaltam os contrates sociais da nossa festa
Legenda: Cordão das Coca Colas
Foto: Foto: Arquivo Nirez

A transformação viria apenas em 1946, naquele que Nirez referencia como o “Carnaval da Vitória”.

“Foi animadíssimo como nenhum outro, com blocos como Zombando da Lua, Garotos do Frevo, Turma do Camarão, Turma da Invernada, Escola de Samba Luiz Assunção, Cordão das Coca-Colas, Meninas do Barulho, Alfaiates Veteranos, Bando do Morro, Caçadores da Floresta, Batuqueiros do Morro, Enverga mas não quebra, Gang do Cemitério, Marujos do Ritmo, etc”, enumera o memorialista.

Disputas sociais

Nesse cenário, a socióloga e professora da Universidade de Fortaleza, Danielle Maia Cruz, chama atenção para as questões de classe e raça que marcam os movimentos de distinção da festa, como as atividades privadas em residências da elite fortalezense e ainda nos clubes de acesso particular que ganham força nos anos 1950. 

“Olhar para as festas carnavalescas acompanhando os movimentos dos processos históricos nos permite perceber questões de fundo da nossa sociedade. Além das questões de gênero (mulheres foram proibidas de participar da festa por um longo período), o Carnaval de Fortaleza mostra outras fissuras estruturais. Isto ganha clareza ao observar as festas tidas como ‘civilizadas’ e socialmente autorizadas por grupos específicos”, aponta, destacando, no contexto oposto, a marginalização de manifestações como o maracatu.

Escola de Samba Luiz Assunção, foto do Carnaval de Fortaleza dos anos 1950 -
Legenda: Escola de Samba Luiz Assunção, foto do Carnaval de Fortaleza dos anos 1950
Foto: Foto: Arquivo Nirez

A essas tensões, Vanda Borges atribui parte da instabilidade da folia na capital cearense. “Há muita alternância entre quem são os atores principais dessa festa. O Carnaval popular se consagrou no Brasil com os carnavais de rua. Mas, em Fortaleza, o carnaval de rua é sempre muito disputado por outras iniciativas da classe média. E aí é muito importante destacar o papel de resistência das agremiações tradicionais que conseguiram imprimir a identidade do Carnaval de Fortaleza”, evidencia.

Na década de 1960, essas agremiações conviveram com uma indisposição do poder público no incentivo à festa, por exemplo. Em 1961 e 1962, como lembra Vanda, a prefeitura comprometeu os desfiles por adiar até as vésperas do Carnaval a concessão de subvenção aos grupos.

Em 1963, o prefeito Cordeiro Neto não promoveu o Carnaval de rua. E em 1965/1966, manobras militares em Fortaleza, além de inúmeras proibições baixadas especificamente para o Carnaval criaram um clima de terror e as comemorações de rua não ultrapassaram um tímido desfile.

Mesmo o surgimento do pré-Carnaval, na década de 1980, instiga a forte distinção que atravessa a festa em Fortaleza, pois, como recorda Danielle Maia Cruz, os primeiros desenhos dessa festividade na cidade eram concentrados em espaços de elevado IDH. 

“Em síntese, o ciclo carnavalesco de Fortaleza nos revela não somente um conjunto de práticas ocorridas no decorrer do tempo, mas o valor simbólico da festividade para os próprios fortalezenses, uma vez que por toda a década de 1990 foi notória a negação do Carnaval popular de Fortaleza, sendo emblemático o silenciamento de manifestações populares tradicionais que, apesar das inúmeras dificuldades financeiras, colocavam a festa na rua”, pontua Danielle.

Falar em uma mudança significativa do ciclo carnavalesco das últimas duas décadas, implicaria, segundo ela, em pensar toda temporalidade carnavalesca, de forma que tanto o período do pré-Carnaval como o Carnaval propriamente dito fossem amplamente valorizados, especialmente as manifestações populares que se apresentam na avenida Domingos Olímpio.

“Certamente, mudanças importantes vêm ocorrendo, mas ainda é preciso avançar quando se pensa na valorização simbólica de práticas culturais que muito falam de nossa formação étnica, social e cultural”, projeta Danielle.

Leia amanhã: No ano que ficará marcado pela ausência de festejos, admiradores da festa apostam em alternativas para viver o período em isolamento

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