Caio Blat grava audiolivro de 'Grande sertão: veredas' e incentiva descoberta de Guimarães Rosa
Ao Diário do Nordeste, ator revelou bastidores da gravação e compartilhou passagem favorita do livro.
Puxando o fio da memória e da experiência, Caio Blat se aventurou na gravação do audiolivro de "Grande sertão: veredas", um dos maiores clássicos da literatura brasileira. A obra de João Guimarães Rosa foi publicada pela primeira vez em 1956 e, em comemoração aos 70 anos do romance, os leitores agora podem mergulhar na história no formato inédito.
O lançamento da Companhia das Letras ocorreu no começo deste mês, contando com 31 horas e 45 minutos de gravação. Desde os primeiros minutos, Caio conduz a leitura como quem compartilha experiências íntimas. Há um tom de confissão que apenas quem trabalha há mais de sete anos com a obra consegue exprimir.
Em sua trajetória, o ator chegou a dar vida à Riobaldo no teatro e no cinema. "A experiência com a montagem no teatro e os dois filmes foram fundamentais para eu poder fazer o audiolivro, porque eu tinha uma intimidade com o texto", revelou, em entrevista ao Diário do Nordeste.
"Foram anos estudando, repetindo, buscando novos entendimentos, dizendo esse texto na frente das pessoas, no teatro, sentindo a reação delas. Tinham vários trechos que eu já sabia de cor, vários textos que tinham sentido profundo para mim".
Para ele, essa experiência pode ter motivado o convite feito pela Companhia das Letras. Caio possuia intimidade com a obra. Tinha lembrança, memória, sentimento. Um jeito de falar que reflete em sua leitura mais amadurecida.
Desafios da leitura e da adaptação
Apesar da familiaridade com a obra, a presença dos neologismos e palavras inventadas não deixa de ser um desafio na leitura.
"O texto tem muitos neologismos, muitas palavras inventadas, adaptadas de expressões locais, regionais, ou até de outras línguas. E é um exercício de criatividade você deduzir o sentido dessas palavras pela história que está sendo contada, pela frase, pela sonoridade", citou Caio.
As palavras surgem também pela sonoridade que possuem. Foi preciso praticar um exercício de imaginação, dedução e interpretação.
A gravação do audiolivro lhe exigiu fôlego. Foi um processo que levou cerca de 20 dias de trabalho intenso. As sessões eram diárias e se estendiam por várias horas. Entre leituras, releituras e regravações, cada trecho passou por revisões cuidadosas até chegar à versão final.
"Leva dias para ser feito, então foi um processo delicado, trabalhoso, de muita dedicação, muito cuidado, muita atenção. Mas, repito, se eu já não tivesse uma intimidade com o texto, acho que provavelmente seria um tempo muito maior", ponderou.
Passagens marcantes para Caio Blat
Entre as muitas passagens do romance, o ator revela ter uma predileção especial por um momento decisivo da narrativa: a cena em que Riobaldo tenta firmar um pacto com o demônio. No trecho, o personagem atravessa a noite nas Veredas Mortas para chamar pelo maldito e buscar forças para enfrentar Hermógenes, seu grande inimigo.
"Tem vários trechos muito lindos, frases e expressões inesquecíveis que me emocionam bastante. Mas tem uma passagem especial que eu tenho predileção, que é o momento do pacto. É um trecho que me impressiona pelo desespero do Riobaldo, pela atitude extrema de buscar no sagrado, no maldito, forças para lutar contra esse inimigo gigante".
Para ele, o poder da cena está na ambiguidade criada por Rosa. Nada acontece de forma concreta. O demônio não aparece, não pode ter a certeza, mas, ao mesmo tempo, tudo parece acontecer. Riobaldo sai com a sensação de que o pacto foi firmado.
Caio revela, então, o que o atrai tanto nessa narrativa: "esse desejo de ultrapassar a cortina do mistério, de desvendar o que existe além das coisas, acho que tudo isso me provoca muito nesse trecho".
Convite aos novos leitores
A capacidade da obra de evocar esses fascínios não se restringe a essa cena. Há um motivo para o romance ter se tornado um clássico. Com a criação desse novo formado, o acesso ao livro é ampliado e pode torná-lo mais convidativo para as gerações mais jovens.
Através do áudio, as novas gerações podem se aproximar de Rosa. Para Caio, é justamente esse o objetivo do audiolivro, além de se tornar uma porta de entrada para outros livros do autor.
"Esse é um livro grande e volumoso, que às vezes afasta o leitor. De repente, através do audiolivro, ele se torne mais acessível, leve. Que muita gente que não teria coragem de encarar o romance consiga ouvi-lo e, através da minha interpretação, possa penetrar na obra do Rosa e descobri-la".
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Audiolivro de 'Grande sertão: veredas'
O audiolivro de “Grande sertão: veredas” está disponível em plataformas de audiolivros, como a Audible, Google Play Livros, Kobo, Skeelo e Martins Fontes Paulista.
Além da narração de Caio Blat, formato inédito ainda conta com trilha sonora e com entradas de viola de Ivan Vilela.