Novas edições de ‘Grande Sertão: Veredas’ apresentam clássico em versão quadrinhos e pocket

Companhia das Letras lança uma versão em quadrinhos e outra em formato pocket da mais importante obra de João Guimarães Rosa

Escrito por
Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
(Atualizado às 18:39, em 31 de Maio de 2021)
Legenda: Ilustração presente em "Grande Sertão: Veredas - Romance gráfico", versão em quadrinhos da obra-prima de João Guimarães Rosa
Foto: Arte de Rodrigo Rosa

Se, por um lado, o apavorante cenário pandêmico eclipsou uma infinidade de perspectivas, por outro aqueceu expressões que há muito pareciam adormecidas nas páginas dos livros. “O que a vida quer da gente é coragem” parece ser uma delas. 

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De menção nos stories a costuras em bordados, de tatuagens a estampas em camisetas, a sentença presente na obra-prima de João Guimarães Rosa (1908-1967) tornou-se o chamariz perfeito para tempos esfomeados de esperança e ânimo. Uma coqueluche, portanto, totalmente justificada, com o bônus da sofisticação linguística típica do escritor mineiro.

Disponíveis recentemente no mercado, as novas edições de “Grande Sertão: Veredas”, assim, não apenas voltam a iluminar as linhas do aclamado (e referenciado) romance, como ampliam as possibilidades de leitura de um dos mais complexos trabalhos da literatura brasileira.

Legenda: O mineiro João Guimarães Rosa é o autor de "Grande Sertão: Veredas"
Foto: Divulgação

Quem assume o leme das publicações é a editora Companhia das Letras. Pelo selo Quadrinhos na Cia, a casa lança “Grande Sertão: Veredas - Romance Gráfico”, com roteiro de Eloar Guazzelli e arte de Rodrigo Rosa; já pelo selo Companhia de Bolso, o público tem em mãos uma versão da obra em formato pocket, com texto integral e posfácio do professor e crítico literário Davi Arrigucci Jr. 

O lançamento das reedições acontece na esteira de um movimento iniciado pela editora em 2019, quando passou a publicar o clássico nacional. À época, até uma edição limitada do livro foi ofertada, com tira de tecido – já totalmente esgotada. 

Em quadrinhos

A transposição do livro para a linguagem da nona arte feita pela Companhia das Letras chega festejada: foi vencedora do prêmio HQMIX, considerado o Oscar dos quadrinhos no Brasil. A conquista deve-se à irretocável atuação da equipe à frente da adaptação, responsável por refazer os caminhos da clássica obra com respeito e originalidade. 

Legenda: "Grande Sertão: Veredas - Romance gráfico" foi vencedor do prêmio HQMIX, considerado o Oscar dos quadrinhos no Brasil
Foto: Arte de Rodrigo Rosa

Está tudo lá: os inesquecíveis Riobaldo e Diadorim, protagonistas do romance; as disputas e entraves no coração do Brasil; e, sobretudo, a essência do enredo criado por Guimarães Rosa, cujo principal mérito foi atribuir ao sertão mineiro uma dimensão universal, panorama alimentado desde 1956 – ano da publicação original do título.

Em linhas gerais, o livro apresenta o extenso monólogo de Riobaldo, velho jagunço que trocara a vida da jagunçagem pela tranquilidade de uma fazenda. Nesse processo, ele narra a própria trajetória a um jovem doutor que chegou a suas terras.

Cada detalhe ganha uma tessitura ainda mais épica na versão em quadrinhos, beneficiada pelos arrojados traços de Rodrigo Rosa e o roteiro belamente escrito por Eloar Guazzelli.

Legenda: Na obra o calor sertanejo ecoa sobretudo por entre diferentes tons de amarelo – num deslumbrante jogo com outras cores, a exemplo de azul e vermelho
Foto: Arte de Rodrigo Rosa

Juntos, os profissionais entregam ao público um trabalho em que o calor sertanejo ecoa sobretudo por entre diferentes tons de amarelo – num deslumbrante jogo com outras cores, a exemplo de azul e vermelho – expandindo a curiosidade dos leitores para desbravar os territórios onde acontece a trama.

O esmero técnico ganha realce ainda maior nas páginas duplas do romance gráfico, verdadeiros pôsteres que certamente farão brilhar os olhos tanto de apreciadores veteranos quanto dos recém-apresentados ao livro. 

Mar e rio de histórias

Por sua vez, além do texto integral e posfácio assinado por Davi Arrigucci Jr., a versão de bolso do livro também possui uma cronologia do autor e sugestões de leitura, tudo encapsulado pela inventiva capa de Alceu Chiesorin Nunes

Na nota dedicada à edição, é sublinhado que o tomo adota como referência a segunda edição do livro, publicada pela Livraria José Olympio Editora em agosto de 1958 com a rubrica “texto definitivo”. A Companhia das Letras destaca, assim, o respeito adotado ao critério básico de diminuir, ao máximo, as diferenças com a mencionada segunda edição, quando se fixou a fisionomia textual do romance

Nesse sentido, o texto foi estabelecido de modo a preservar a expressividade de sinais diacríticos, hifenização e outros pormenores morfológicos e ortográficos na aparência desimportantes, mas que se destacam no sistema polifônico do livro.

Legenda: O professor e crítico literário Davi Arrigucci Jr. assina o posfácio da versão de bolso do clássico nacional
Foto: Divulgação

Grosso modo, foram admitidas na presente edição apenas atualizações óbvias e inevitáveis – a exemplo da queda da acentuação de “êle”, “aquêle”, “acêrto” e demais formas diferenciais abolidas pelos acordos ortográficos subsequentes, além de termos como “vôo”, “idéia” e outros atingidos pela grafia corrente.

Tratando-se do posfácio, Davi Arrigucci Jr. atravessa alguns dos aspectos mais relevantes da obra, não sem antes confessar a difícil tarefa de escrever sobre um dos maiores autores brasileiros. Para isso, cita uma frase do Menino (Diadorim) em uma das passagens mais notáveis da trama, quando Riobaldo fraqueja numa canoa: “Carece de ter coragem. Carece de ter muita coragem”.

O professor e crítico literário parte do princípio do que chama de “vocação para a totalidade” – característica premente de “Grande Sertão: Veredas” – de modo a transitar pelas marcas que fazem do clássico um eloquente testemunho da experiência humana. 

Como exemplos, cita a forma mesclada com a qual o romance se alicerça – numa unidade poética e enigmática resultante de uma mistura linguística ímpar; o espanto que confere ao público leitor por esse mesmo motivo, uma vez investir sobremaneira em neologismos, deixando que o falar do centro-norte de Minas Gerais ganhe protuberância; e o esquema de narração, capaz de, segundo Davi, “permitir uma reviravolta na prosa ficcional da literatura regionalista, superando-a de vez”.

“‘Grande Sertão: Veredas’ é a história de uma travessia individual que se desgarra do mar de histórias da grande épica tradicional, que é a épica da fala, a épica oral, a épica dos provérbios, dos causos, das narrativas orais dos contadores anônimos”, escreve o crítico. 
Davi Arrigucci Jr.
Professor e crítico literário

Um romance que desdobra, na vastidão sertaneja, a poesia que a canção enigmática oculta. Uma trama para as gerações do ontem, do hoje e do sempre.

 

Grande Sertão: Veredas 
João Guimarães Rosa

Companhia de Bolso
2021, 504 páginas
R$ 49,90

Grande Sertão: Veredas - Romance Gráfico
João Guimarães Rosa
Roteiro de Eloar Guazzelli

Quadrinhos na Cia
2021, 194 páginas
R$ 89,90

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