Natércia Pontes revisita feridas para escrever romance sobre solidões e recomeços

"Vida doçura" é o último lançamento de escritora cearense, já disponível nas livrarias brasileiras.

Escrito por
Beatriz Rabelo beatriz.rabelo@svm.com.br
Imagem de capa do livro Vida doçura, para matéria sobre Natércia Pontes e literatura.
Legenda: Na história, os leitores acompanham a personagem Jocasta, escritora que leva uma vida isolada em São Paulo.
Foto: Divulgação/Companhia das Letras.

Em sua jornada como escritora, foram poucas as vezes em que Natércia Pontes chorou. Mas em "Vida doçura", romance lançado pela Companhia das Letras, a cearense se viu profundamente emocionada durante a escrita do primeiro e do último capítulo. A emoção reflete a dureza do desafio que tomou para si. 

Ao Diário do Nordeste, revelou que o ponto de partida da história foi o suicídio da própria mãe. Assim como Jocasta, protagoista do romance, a matriarca morreu durante a infância de Natércia.

"Escrevo para me organizar e para entender minha própria história de vida. Não podia mais fugir desse assunto difícil e cabeludo".
Natércia Pontes
Escritora cearense

Qual o enredo de 'Vida doçura'?

Na história, os leitores acompanham a personagem Jocasta, escritora que leva uma vida isolada em São Paulo e acaba criando uma relação parassocial com Jovana, uma youtuber que mostra sua vida organizada e alegre nas redes sociais.

Essa relação é marcada por uma conexão emocional unilateral, em que uma das pessoas desenvolve sentimentos de intimidade pela outra, usualmente figura pública.

Enquanto Jocasta se vê imersa nessa compulsão pelos vídeos de Jovana, mergulha também nas lembranças provocadas pelo trauma de ter perdido a mãe aos sete anos.

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Processo de escrita de Natércia 

Para dar corpo ao livro, Natércia seguiu um fluxo mais intuitivo. Longe de buscar tons e fórmulas, permitiu que a ideia e a escrita tivessem espaço e liberdade para gradualmente encontrarem seus tons, formas e cores. 

"Acho que minha voz literária que geralmente mistura estranheza com humor contribui para essa impressão", cita.

As experiências prévias em escrita, inclusive, foram essenciais para chegar nesse estágio. Um ano antes, por exemplo, Natércia trabalhou como roteirista para uma série de streaming. 

Natércia Pontes, escritora e autora do conto Chorona e do livro Vida Doçura.
Legenda: A escritora Natércia Pontes, autora do conto "Chorona", já publicou livros como "Os tais caquinhos" e "Copacabana dreams".
Foto: Divulgação/Renato Parada.

"Era um thriller. E nesse processo, que durou um ano muito intenso, eu aprendi técnicas narrativas que depois aproveitei para usá-las no 'Vida doçura', que também é um thriller esquisito", afirmou. 

Mas, ainda que tenha se divertido ao elaborar e escrever as cenas de suspense, os momentos de mau humor de Jocasta e suas tentativas de se aproximar da youtuber sem graça, Natércia considera o processo de escrita como um todo muito duro

"Acessei lugares escuros que evitei a vida inteira vasculhar. O primeiro e último capítulo, em especial, foram os únicos textos que escrevi chorando no meu trabalho de escritora. Curioso que muitos leitores falam que choram com eles também".
Natércia Pontes
Escritora

Para os leitores que vão embarcar nessa jornada, a cearense partilha o desejo de que, ao fecharem o livro, levem em conta que "suas mães, por mais problemáticas que sejam, são pessoas, erram e têm o livre-arbítrio".

Serviço

Livro “Vida doçura”
Quanto: R$ 79,90
Editora: Companhia das Letras

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