Lutas de operários cearenses registradas em filme de Eduardo Coutinho são revisitadas em livro
“20 Anos Depois: Memórias Operárias no Cinema” reencontra operários cearenses que foram retratados no documentário “Peões” (2004).
Era 2002 quando o cineasta Eduardo Coutinho (1933-2014) foi atrás de operários que trabalhavam nas fábricas do ABC paulista na época das grandes greves ocorridas entre 1978 e 1980, parte deles cearenses de Várzea Alegre, para gravar o documentário “Peões” (2004).
Décadas depois, após estudar o filme de Coutinho no mestrado em Comunicação da Universidade Federal do Ceará, a pesquisadora e roteirista cearense Luana Sampaio decidiu que iria atrás dos ex-metalúrgicos varzealegrenses entrevistados na obra para uma nova revisita.
O resultado está no livro “20 Anos Depois: Memórias Operárias no Cinema”, no qual Dona Socorro, Seu Bezerra, Seu Zé Pretinho, Dona Ana e Seu Zacarias compartilham memórias das lutas, visões políticas e aspectos que falam muito do Ceará e do Brasil de ontem e de hoje.
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Arquivos, documentos e reflexões políticas
Em entrevista à coluna, Luana explica que teve contato inicial com “Peões” durante uma pós-graduação de curta duração feita na Austrália em 2018. Na época, a dimensão das greves e o papel do então líder metalúrgico e posterior presidente Lula (PT) no movimento chamaram a atenção da pesquisadora.
O documentário, inclusive, foi filmado durante a campanha presidencial de 2002, costurando arquivos e documentos da época das graves com as memórias e opiniões contemporâneas dos metalúrgicos sobre o então candidato.
“O fato do filme falar dessas memórias e trazer os arquivos, que não era um recurso muito utilizado por Coutinho, me inquietou bastante. Quando voltei para o Brasil, em julho de 2018, já voltei escrevendo o projeto. Fiquei de 2019 até 2021 conduzindo essa pesquisa com esse recorte do arquivo, da memória e da política”
Destaque aos operários cearenses em “Peões”
Além dos aspectos políticos e de arquivo evidenciados em “Peões”, outro ponto em especial chamou a atenção de Luana: “O filme começa no Ceará, os primeiros personagens a serem entrevistados pelo Coutinho são cearenses”.
Enquanto estava no processo da dissertação, a pesquisadora descobriu que a migração de varzealegrenses para São Paulo em busca de trabalho como operários era tamanha que foi criada até uma associação desses profissionais cearenses.
“Fiquei com essa curiosidade de saber o que tinha acontecido com eles. A pesquisa estava sendo feita tanto tempo depois de quando o filme foi realizado e tinha acontecido tanta coisa politicamente no Brasil: a própria pandemia, questões de política institucional”, aponta.
“O Brasil de 2002 não é o Brasil (dos anos) de 2020, então eu tinha interesse de saber: será que eles ainda estão lá? O que pensam sobre política, sobre Lula, sobre essas lutas? Que arrependimentos têm? Quais os desejos, o que queriam? O que esperavam em 2002 foi atingido?”
A partir de um edital da Lei Paulo Gustavo lançado pela Secretaria da Cultura de Fortaleza, a pesquisadora conseguiu produzir a pesquisa.
O primeiro contato conseguido foi o de seu Bezerra, um dos operários entrevistados em "Peões". Isso abriu as portas para a autora conseguir ir até Várzea Alegre e visitar ele e outros nomes ligados ao movimento grevista histórico.
“Foi um processo super especial, eles foram muito abertos à proposta do livro. Todos abriram suas casas para a gente entrar, fazer as fotos, ter essas conversas, conheci as famílias. Foi uma semana bem intensa e de muita troca de lembranças”, relembra.
“Experiências que falam dos nossos pais e avós”
O grupo que foi entrevistado por Luana para o livro é formado por pessoas entre 70 e 80 anos, “que viveram em um Ceará que parece mais distante do que realmente está”.
Os entrevistados, aponta ela, partilham memórias e visões sobre os contextos de migração de nordestinos para São Paulo e de direitos cerceados da época.
“(Foi uma) luta trabalhista em regime militar, então todos têm lembranças de correr de polícia, ver amigos apanhando, de correr o risco de perder o emprego porque o direito de greve foi abolido”, explica.
Entre memórias simbólicas partilhadas, Luana destaca: “Seu Bezerra diz que foi comprar o primeiro sapato quando tinha 18 anos. O Seu Zacarias tinha muito a coisa da mobilidade: no Ceará não dava certo, ele ia pra outro estado; não dava certo, voltava”.
“Seu Zacarias lembra dos motores, a Dona Socorro lembra de como ela fazia o contorno dos carros, do Corcel em que estava envolvida na produção. Ela, inclusive, é a única mulher que foi para São Paulo. Perguntei quando eles começaram a trabalhar e ela começou com oito anos de idade, cuidando dos irmãos”, avança.
“São experiências que falam muito de nós e se não falam de nós falam dos nossos pais, dos nossos avós. Tem várias situações que eles contam que falam de um Ceará que parece tão distante, mas na verdade não está. Esse valor de resgate, registro e memória é muito importante e caro”
Espírito coletivo e político
Outo aspecto evidenciado nas falas dos entrevistados é o da consciência política ligada ao ofício. “Cada um tem o seu jeito de pensar, a sua opinião sobre Lula, sobre trabalho, sobre o que aconteceu nesses 20 anos, e todos contribuem com pensar o Brasil, pensar o Ceará e pensar o trabalhador hoje”, resume Luana.
Neste sentido, a pesquisadora ressalta o entendimento que todos os ex-metalúrgicos têm da importância da união e da luta por direitos coletivos.
“Dona Socorro diz que foi pedir por aumento, fez uma confusão e deram só para ela, não para as companheiras. (Então) ela foi lá e falou: ‘Eu não quero aumento só para mim, eu quero aumento para todo mundo’”
“Era uma greve no setor privado, que é outra questão. Hoje a gente escuta falar mais no setor público, mas se você pensar que mais de 100 mil pessoas pararam de trabalhar no setor privado e ficaram 40 dias sem produzir carro, (em) uma organização que não tinha internet e outras facilidades de comunicação, dá para dimensionar”, elabora Luana.
“Vejo muito isso, o que eles tiveram que batalhar para conquistar os seus direitos, e também, hoje, como as coisas mudaram, como é mais frágil a questão da união coletiva, em prol de direitos coletivos”, compara.
Lançamentos e onde encontrar o livro
“20 Anos Depois: Memórias Operárias no Cinema” teve lançamentos em Fortaleza e também em Várzea Alegre, este com a presença dos entrevistados, em março, nos dias 12 e 28 respectivamente.
Estão previstos mais três eventos de lançamento da publicação em Fortaleza entre maio e junho. Para adquirir o livro, é possível comprá-lo no site da editora.
- Siga a autora: @luanasampaio.doc
Onde ver "Peões", de Eduardo Coutinho
- Onde: no streaming DOC Canal Brasil (disponível para assinatura dentro da Prime Video)