Como cinema e educação têm se aproximado em Fortaleza e no Ceará

De festival temático a projeto de lei municipal, iniciativas buscam estimular ações e reflexões de ligação entre audiovisual e escolas.

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
Legenda: Iniciativas de difusão e reflexão sobre cinema e educação incluem o Festival Vento da Tarde; na foto, imagem de filme "Não quero citar teóricos", que será exibido no evento e foi produzido por alunos do Centro de Ensino Urbano Rocha (MA) e outras instituições.
Foto: Divulgação.

É lei federal: escolas de educação básica do Brasil devem exibir filmes nacionais por mínimo de duas horas mensais. Entre o texto e a aplicação dele em instituições de ensino, porém, desafios de infraestrutura e pedagógicos se colocam.

Em meio a esse cenário, uma série de iniciativas em Fortaleza e no Ceará tem se somado na luta não apenas pela efetivação da lei federal nº 13.006, mas pela aproximação entre cinema e educação.

Festivais que reforçam essa ligação e até um projeto de lei municipal buscam estimular ações e reflexões sobre a relação possível entre o audiovisual e as escolas.

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Espaço de circulação, reflexão e encontro

É o caso do Festival Vento da Tarde, cuja segunda edição começa na próxima terça-feira (7), com exibição de filmes produzidos no escopo de espaços formativos e a realização do seminário “Arejar o Pensamento: diálogos entre cinema e educação”.

“A prioridade do festival hoje é contribuir para que o cinema seja compreendido como linguagem e como prática pedagógica, não apenas como ferramenta ilustrativa em sala de aula”, aponta Davi Jaguaribe, diretor do evento.

A primeira edição do Vento da Tarde foi realizada em 2024 e, na avaliação do idealizador, “mostrou que existe uma produção audiovisual significativa sendo realizada em escolas, universidades e projetos de formação em todo o Brasil”.

Estudantes ocupam as poltronas vermelhas de um cinema lotado, com o foco em uma jovem de cabelos cacheados que observa atentamente a tela enquanto segura um celular. Ao seu redor, outros jovens em uniformes escolares conversam e aguardam o início da sessão em um ambiente de luz suave e tons quentes.
Legenda: Festival Vento da Tarde chega à 2ª edição a partir do próximo dia 7 de abril.
Foto: Alan Sousa / Divulgação.

Apesar da amostra, também foi possível observar que “essa produção ainda tem poucos espaços de circulação, reflexão e encontro”, avalia Davi.

“O principal resultado foi colocar em pauta a ideia de que o cinema não é apenas um conteúdo para ser exibido na escola, mas pode ser uma linguagem pedagógica, uma prática de pensamento e uma experiência de formação crítica e sensível"
Davi Jaguaribe
diretor do Festival Vento da Tarde

Para o diretor, o Vento da Tarde ajudou a organizar “uma conversa que já existia de forma dispersa e a reunir pessoas e instituições que estavam pensando cinema e educação”. Parcerias entre instituições, universidades e escolas foram travadas a partir do evento.

O festival tenta atuar como uma ponte entre esses diferentes campos: educação, realização audiovisual, pesquisa, políticas públicas e circulação de filmes”, define Davi.

Ações para políticas públicas “mais estruturadas e permanentes”

“Se na primeira edição a pergunta era ‘por que pensar cinema e educação juntos?’, agora a pergunta passa a ser ‘como estruturar essa relação de forma mais permanente?’”, resume Davi Jaguaribe. 

Tal estruturação passa também pelo Projeto de Lei Ordinária nº 39/2026, de autoria da vereadora de Fortaleza Mari Lacerda (PT). A proposta visa alinhar a legislação municipal à lei federal e criar uma política de fomento, difusão e exibição na rede pública de ensino.

Segundo Mari, o projeto surge em articulação com diferentes entidades nacionais, como a Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan), e em diálogo com o “bom momento” do Estado na área, que inclui a criação da Empresa Cearense de Audiovisual e o reconhecimento internacional.

Participantes de uma audiência pública estão reunidos em torno de uma grande mesa em formato de
Legenda: A vereadora Mari Lacerda (PT) é autora do PL do Cinema nas Escolas.
Foto: José Leomar / CMFor / Divulgação.

“Fortaleza, potencialmente, pode ser a primeira capital a demonstrar como a integração do cinema ao currículo escolar pode acontecer como linguagem pedagógica e ferramenta de letramento midiático, contribuindo para a formação crítica dos estudantes”
Mari Lacerda
vereadora de Fortaleza

O projeto, segue explicando a vereadora à coluna, incentiva a exibição de produções nacionais e locais nas escolas, especialmente de produções negras, indígenas e regionais, fortalecendo o sentimento de pertencimento”.

“Também queremos consolidar o ecossistema audiovisual por meio de parcerias entre escolas, festivais, cineclubes e instituições culturais, além de enfrentar desafios estruturais como transporte e infraestrutura de exibição”, acrescenta a parlamentar.

A atuação institucional é "fundamental", aponta Davi, “porque aponta para a possibilidade de transformar experiências que hoje são pontuais em políticas públicas mais estruturadas e permanentes”.

O PL do Cinema na Escola já passou e foi aprovado pelas comissões de Constituição e Justiça; Cultura, Esporte e Juventude; e Educação da CMFor. 

Participantes de uma audiência pública estão reunidos em torno de uma grande mesa em formato de
Legenda: Audiência pública para discutir políticas de fomento, difusão e exibição do cinema e audiovisual na Rede Pública de ensino foi realizado em março na Câmara Municipal
Foto: Yuri Choices / Divulgação.

Além disso, houve audiência pública sobre o projeto e a temática no começo de março e, conforme Mari, o projeto já foi apresentado à secretaria de Educação

“Agora, está em redação final, pronto para ser votado no plenário da casa. Estamos articulando com a presidência da casa para que ele seja votado ainda em abril”, adianta a vereadora.

A parlamentar é uma das convidadas do seminário “Arejar o Pensamento” desta edição, participando na sexta (10) da mesa “Disputar as imagens, defender a democracia: escola-território-cinema”.

Compõem o momento, ainda, a presidenta da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro Tatiana Carvalho Costa; o fotógrafo, cineasta e pesquisador Erik Sousa; e o professor Sávio Ponte.

"Ecossistema em formação"

“Já existe um ecossistema em formação. O desafio agora é transformar esse conjunto de iniciativas em políticas continuadas, que garantam formação, exibição, produção e circulação audiovisual dentro da educação pública”, analisa Davi.

Na avaliação do diretor do Vento da Tarde, o cenário em Fortaleza e no Ceará no que se refere à vizinhança entre audiovisual e educação é positivo e envolve diferentes frentes.

“Existem experiências que acontecem dentro das escolas, professores que trabalham com audiovisual como prática pedagógica, projetos de formação, cineclubes e mostras que funcionam como espaços formativos”, acrescenta.

Estudantes em uniformes escolares participam de uma produção audiovisual em sala de aula, com uma jovem ao centro lendo um roteiro enquanto outra segura uma claquete ao seu lado. Equipamentos de filmagem, como uma câmera em um estabilizador e um refletor de luz, estão posicionados à esquerda, compondo o cenário da atividade prática de cinema.
Legenda: Frame do curta-metragem "Não quero citar teóricos", produzido por alunos do Centro de Ensino Urbano Rocha (MA) e outras instituições.
Foto: Divulgação

Em diálogo, Mari destaca: 

“Festivais, projetos pedagógicos e ações de professores consolidam essa articulação ao incentivar os estudantes como produtores de conhecimento, humanizam o ambiente escolar por meio da reflexão e da linguagem audiovisual, democratizam o acesso à experiência cinematográfica e criam novos imaginários críticos sobre a realidade”
Mari Lacerda
veradora de Fortaleza

A parlamentar cita, ainda, os cineclubes e iniciativas comunitárias como elementos importantes na formação de “uma rede de difusão e resistência que fortalece o cinema local e contribui para a construção de uma política de formação cultural e simbólica no território”.

Também queremos potencializar os CUCAS como espaço, de fato, de cinema público, com exibições para os nossos estudantes da rede municipal de ensino”, adianta. 

Festivais como "espaços de formação"

Para Davi, festivais e mostras se destacam “como espaços de formação”. O diretor cita como exemplos o Noia – Festival do Audiovisual Universitário, a Mostra de Cinema Unifor (MUC) e a Mostra Percursos, da UFC.

Além dos citados, vale ressaltar uma novidade no cenário de festivais do tipo no Estado: a criação do Festival de Cinema e Audiovisual Universitário do Cariri – Fotograma, que será realizado pela Universidade Federal do Cariri (UFCA) em maio. 

A iniciativa é voltada à difusão e valorização da produção audiovisual universitária e se soma à lista de iniciativas de interiorização do audiovisual, encabeçada pela criação em 2027 de graduação em Cinema e Audiovisual na UFCA. 

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As inscrições para o Fotograma seguem até 22 de abril e podem ser feitas por formulário on-line. Curtas de até 20 minutos de estudantes de graduação ou pós-graduação são aceitos.

Finalmente, outra política pública já estabelecida no Estado que fortalece a relação entre audiovisual e educação é o projeto Escola no Cinema, do Cineteatro São Luiz.

A iniciativa gratuita completou 10 anos em dezembro de 2025 e já levou mais de 125 mil alunos para as mais de 500 sessões realizadas no equipamento cultural histórico.

O agendamento para a participação de escolas, instituições e associações interessadas pode ser feito pelo e-mail osaoluizenosso@idm.org.br. Para tanto, basta enviar mensagem pedindo a programação do mês e o formulário de inscrição.

Vento da Tarde - 2º Festival de Filmes de Formação

  • Quando: de terça, 7, a sábado, 11
  • Onde: mostras audiovisuais no Cinema do Dragão (rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema) e no Cineteatro São Luiz (rua Major Facundo, 500 - Centro); seminário Arejar o Pensamento no Museu da Imagem e do Som do Ceará (av. Barão de Studart, 410 - Meireles)
  • Mais informações: no site www.ventodatarde.com.br ou no Instagram @festivalventodatarde
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