O que é uma film commission e como ela pode impulsionar o audiovisual em Fortaleza?

Instituída por decreto em dezembro de 2025, entidade municipal deve ter atuação efetiva na Capital cearense a partir de abril.

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
Legenda: Além de organizar filmagens em espaços públicos — como no caso de "Centro Ilusão", de Pedro Diógenes, na imagem —, a Fortaleza Film Commission busca atrair produtoras do Brasil e do mundo para gravações na Cidade.
Foto: Divulgação.

Fortaleza irá ganhar em 2026 uma entidade que fará a intermediação entre produtoras e órgãos municipais para dar suporte e otimizar a logística de filmagens em espaços públicos e, por outro lado, buscará atrair para a Cidade gravações de produções nacionais e até internacionais.

Regulamentada oficialmente no final de 2025 por decreto municipal, a Fortaleza Film Commission deve começar a cumprir plenamente os dois papeis até o final de abril, conforme adianta à coluna o gestor Daniel de Paula.

Anunciado como o nome à frente da entidade no início de março, o cearense explica o que é uma film commission, como ela pode impactar a economia da Capital para além do audiovisual e quais os passos previstos para o pleno funcionamento da comissão.

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Film commissions organizam e otimizam processos para filmagens

Apesar de ser “uma atividade nova no município”, como Daniel descreve, a film commission (comissão de cinema, em tradução livre) é uma instância comum no universo do audiovisual ao redor do mundo.

Dados de 2024 da publicação “Cenário das Films Commissions no Brasil:  perfil, atuação e perspectiva federal”, da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur), apontavam pelo menos 17 entidades do tipo no País à época.

Na prática, explica Daniel, a comissão “recebe demandas da iniciativa privada — de produtoras, realizadores — e abre diligências” para facilitar os processos necessários para a realização de gravações.

“Vamos supor que a pessoa precisa filmar no Passeio Público, então ela vai abrir um chamado dentro do SPU (Sistema de Protocolo Único da Prefeitura Municipal de Fortaleza). A gente vê quem são as instâncias imbuídas naquele processo, (por exemplo) a Secretaria de Conservação e Serviços Públicos, Etufor, AMC. A gente concentra essas demandas e abre diligência para em tempo hábil resolver”
Daniel de Paula
gestor da Fortaleza Film Commission

O interesse da cidade é que ela seja cenário para filmes de curta-metragem, longa-metragem, séries, então a gente tem todo o interesse de atender a demanda e a precisa organizar o poder público para acolhê-las”, resume o gestor.

Atração de produções nacionais e internacionais para Fortaleza

Esse papel, avança Daniel, “funciona em duas vertentes”. A organização dos processos logísticos serve, também, para atrair para Fortaleza filmagens de produções nacionais e estrangeiras.

“O papel da gente é criar esse ambiente de negócio e de atração e, aí, publicizar por exemplo a nossa rede hoteleira, a nossa cadeia de bares e restaurantes, a nossa capacidade de absorver grandes equipes de cinema”, explica.

Esse viés, ressalta Daniel, evidencia os potenciais econômicos gerais do audiovisual e da cultura. “O audiovisual é uma linguagem complexa, tem outras linguagens intrínsecas. Quando trabalha com cinema, está estimulando teatro, design, arquitetura, música”, inicia.

Uma produção cultural, no entanto, também impacta economicamente em outras vertentes, como alimentação, transporte e hospedagem.

“Já tem estudo (que comprova), quando uma produção se estabelece em uma localidade, ela deixa 60% do orçamento. Se a gente falar de um filme de R$ 1 milhão, R$ 600 mil vão ser investidos. Isso impacta diretamente hotéis, cadeia de de alimentação, transporte, uma série de pessoas e agentes. A médio e longo prazo, você vê que aquilo vai fomentando outras áreas do setor econômico”
Daniel de Paula
gestor da Fortaleza Film Commission

É por isso que Daniel ressalta a importância da aproximação entre a comissão e diferentes entes públicos e sociedade civil, como as Secretarias do Turismo (Setfor) e de Governo (Segov), Sebrae, Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) e Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel).

“Tendo uma estrutura organizada, a gente consegue nesse processo de desburocratização dar agilidade para as pautas e as demandas daquela produção audiovisual. Quando a gente organiza esse processo, está dizendo para produtoras locais, nacionais e internacionais, que temos um ambiente organizado para atender demandas específicas do setor”, aponta.

"Desburocratização" e concorrência são desafios para a Fortaleza Film Commission

Com atuação profissional como produtor de festivais, eventos de mercado e filmes como “Greice”, “O Shaolin do Sertão 2”, “Cabeça de Nêgo” e “O Melhor Amigo”, Daniel de Paula destaca a “desburocratização” como foco da entidade

“Estive há pouco tempo atrás do outro lado da bancada, trabalhando na produção de filmes, e sei o quanto é onerosa a relação da iniciativa privada com o poder público. Nosso papel é conseguir desburocratizar. Fazer alinhamentos e desburocratizar, para não atrapalhar o produtor e deixar a cidade com a capacidade de absorver projetos e demandas”, compreende.

Além do desafio a nível prático, o gestor também reconhece que Fortaleza se soma a um cenário de film commissions já estabelecidas e outras também novas

Uma equipe de cinema trabalha em uma gravação noturna do filme cearense 'A Filha do Palhaço' sob a luz de refletores em uma rua de Fortaleza, com atores sentados na calçada ao fundo. A cena captura o contraste entre a escuridão da noite e a iluminação artificial do set, cercado por cones e equipamentos de produção.
Legenda: Gravações em ruas e espaços públicos de Fortaleza — como no caso do exemplo de "A Filha do Palhaço" (2022), de Pedro Diógenes — podem ser ajudadas com a atuação da film commission.
Foto: Linga Acácio / Divulgação.

Nacionalmente, as experiências de São Paulo e do Rio de Janeiro são descritas como “êxitos” por Daniel, que cita ainda como exemplos descentralizados bem sucedidos as entidades de Curitiba e Belo Horizonte.

Já no Nordeste, há film commissions em nível estadual na Bahia e, em nível municipal, em Salvador, Recife e João Pessoa. É necessário, conforme o gestor, "criar um ambiente de atração" para produções.

"A gente precisa criar esse ambiente e essa condição de atrair um dinheiro que naturalmente não viria para cá, dar a oportunidade para que a prefeitura consiga concorrer com outras praças", defende.

Construção coletiva do comitê gestor

Apesar do decreto de criação da film commission — que estabeleceu o regimento interno com diretrizes e composição do comitê gestor — ter sido assinado em dezembro de 2025, Daniel contextualiza que a entidade já havia sido aprovada no escopo da Prefeitura em 2022

Foi uma provocação da sociedade civil organizada, dos fóruns, da Ceavi (Associação de Produtoras de Audiovisual Independente do Ceará) e outros agentes dentro do escopo audiovisual”, ressalta o atual gestor. 

Depois da “construção coletiva”, o momento agora é de “adequação”, com o estabelecimento das normas e procedimentos de organização e atração de filmagens

Isso será efetivado pelo Comitê Gestor da film commission, que irá reunir representantes de diferentes entidades municipais, como secretarias de Juventude, Turismo e Conservação e Serviços Público e a Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC).

“Preciso abrir diálogo individualmente com cada uma delas para que indiquem titular e suplente, e preciso que tenham sensibilidade com a pauta. A gente está abrindo diligências com as demais secretarias e acredito que até o final de abril esteja com isso estabelecido”, explica.

Em paralelo, Daniel reforça a abertura para abertura de diálogos e atuação conjunta com outras entidades públicas, como a Empresa Cearense de Audiovisual (ECAV), e/ou da sociedade civil. “A gente vai abrir diálogo com todo mundo para poder ter condição de atender as necessidades do setor”, reforça.

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