‘Quarto de empregada’ é mote para reflexões sobre trabalho doméstico em documentário brasileiro

Longa de estreia da cineasta Karol Maia, “Aqui não entra luz” está em cartaz nacionalmente.

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
Legenda: Divisões sociais e econômicas são evidenciadas pelas diferenças de arquitetura entre os espaços destinados à empregada doméstica e o restante das casas dos patrões.
Foto: Divulgação.

“A história de empregada doméstica não é bonita de se contar, não. Eu pergunto a vocês o que é que levou vocês a fazer um filme desse”. A fala de Marcelina Martins, ela mesma profissional do trabalho doméstico, é proferida diretamente para a cineasta Karol Maia.

A diretora e roteirista do documentário “Aqui não entra luz” não responde de maneira explícita ao questionamento na cena em si, mas constrói a resposta na própria obra.

Filha de Miriam, ex-doméstica, Karol parte da estrutura do “quarto de empregada”, presente na realidade e no imaginário da sociedade brasileira, para discutir questões históricas e sociais do trabalho doméstico na história do País.

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Guiado pela narração da cineasta, que partilha memórias da infância e processos do filme, “Aqui não entra luz” se estrutura a partir das presenças de cinco mulheres que dão entrevistas sobre as próprias experiências de trabalho e vida — incluindo a mãe de Karol.

A obra está em cartaz em todo o Brasil, com sessões em Fortaleza no Cinema do Dragão.

“O Brasil é culturalmente e economicamente sustentado pelo trabalho doméstico”

Em entrevista à coluna, Karol explica que a escolha por retratar Rosarinha, Cris, Mãe Flor e Marcelina no trabalho veio pelo interesse em “pluralidade de pontos de vista”.

“Eu as conheci por meio de sindicatos de trabalhadoras domésticas nas cidades onde a gente filmou e pesquisou, também por indicação, foram muitas vias diferentes”, inicia. “Cada uma delas me interessou por um motivo, fosse por alguma semelhança com a minha mãe ou por alguma coisa muito específica, só delas”, avança.

“Por mais que eu buscasse uma unidade de experiência — que era todas já terem morado num quartinho de empregada —, eu também estava buscando especificidades, seja na forma com que lidam com o trabalho, resistiram a ele ou o estilo de vida”
Karol Maia
cineasta

Outra pluralidade buscada por Karol foi geográfica. As entrevistadas são de quatro estados diferentes: Minas Gerais, Rio de Janeiro Maranhão e Bahia. “(Eles) foram escolhidos porque são os que mais receberam mão de obra escravizada no Brasil”, aponta.

Além deles, o filme também traz São Paulo, estado de Karol e da mãe.

A decisão foi tomada tendo como motivação uma pesquisa sobre a relação entre a arquitetura da época da escravidão de cada região do País e a estrutura do “quartinho” destinado às domésticas, bem como as “muitas versões” da experiência deste trabalho em diferentes estados. 

Uma planta baixa minimalista sobre fundo preto apresenta o layout de uma área de serviço de 6 m², um banheiro de 1,3 m² e um quarto de empregada de 3,55 m². As linhas brancas desenham os compartimentos de forma técnica e clara, destacando a organização compacta dos espaços funcionais.
Legenda: Documentário dirigido por Karol Maia apresenta aspectos históricos e sociais do "quarto de empregada" no Brasil.
Foto: Divulgação.

Acho importante falar de trabalho doméstico pensando o país inteiro porque, às vezes, o que acontece nos interiores parece que é ainda mais invisível”, ressalta. “É bem importante dar uma dimensão de que o Brasil é culturalmente e economicamente sustentado pelo trabalho doméstico”, ressalta a diretora.

“Essas histórias precisam estar em primeiro plano na nossa vida cultural”

Antes do momento em que ouve a pergunta de Marcelina que abre este texto, Karol mostra, logo no início do filme, a negação inicial que a mãe dela dá para participar da obra como entrevistada. “Tô com medo de você levar isso aí pra frente”, diz Miriam.

Com esta fala e a afirmação de que “a história de empregada doméstica não é bonita de se contar”, “Aqui não entra luz” demonstra o que a diretora define como “falha na hora de representar histórias de trabalhadoras domésticas, seja na literatura, no cinema, na televisão”.

Uma mulher sorri serenamente enquanto apoia o rosto na mão à mesa de jantar, cercada por taças de vidro e garrafas de bebida. O ambiente interno é iluminado de forma suave, destacando a expressão acolhedora da mulher em um momento de convívio social.
Legenda: Rosarinha, uma das entrevistadas no documentário "Aqui não entra luz".
Foto: Divulgação.

“Isso ainda está sendo reconstruído por muitos artistas, esse imaginário do que é a trabalhadora doméstica. A falta de ver uma boa representação dessa figura da nossa vida enquanto brasileiros, mas também do nosso imaginário, pode dar essa sensação de que a história não vale a pena ser contada”, aponta.

Karol, no entanto, compreende que “faz todo o sentido” contá-la, por ser “completamente brasileira e não só sobre as trabalhadoras domésticas”. 

“Espero que muito em breve nem as trabalhadoras, nem qualquer pessoa tenha dúvida de que essas histórias precisam estar em primeiro plano na nossa vida cultural, artística, e que vale muito a pena investigar e contá-las com aprofundamento e comprometimento”
Karol Maia
cineasta

“O que levou vocês a fazer um filme desse?”

Em resposta à questão de Marcelina, Karol compreende que “hoje, todos os dias, quando tenho uma nova conversa, quando sai uma nova matéria, encontro novos motivos para fazer esse filme”. 

“A partir desse momento que foi lançado, passo a perder o controle de como as pessoas vão interpretar, sentir, levar para casa, e acho que essa é uma parte bonita dessa história toda que é fazer cinema, que é quando o filme encontra as pessoas e elas dão novos ‘porquês’”
Karol Maia
cineasta

A reflexão sobre a lida audiovisual encontra eco no próprio documentário, em sequência na qual Karol lista, na narração, “angústias sobre cinema”, incluindo pontos como “autoria” e “hierarquia”.

Existe uma angústia que é a de criar, mesmo, de ser artista e isso é inerente a essa profissão. Mas inevitavelmente, nesse filme onde mexo em coisas tão pessoais e dores coletivas da população negra e das mulheres negras, principalmente, também mexo com coisas além de mim”, explica.

Para a diretora, “o filme fala sobre trabalho doméstico, mas também sobre o meu trabalho enquanto filha de uma ex-empregada doméstica que já conseguiu romper o ciclo”. Apesar disso, ela reconhece:

“Recentemente falei com umas colegas negras e a gente tava conversando sobre como o trabalho doméstico parece ser um fantasma na nossa vida, porque para nossas mães, avós, tias, não foi uma opção”.

A cineasta Karol Maia sorri segurando dois troféus dourados, destacando suas longas tranças loiras e seu traje em tons de bege e vinho sob uma iluminação suave. A composição captura um momento de triunfo em um ambiente festivo e escuro, ressaltando o contraste entre o brilho das estatuetas e o fundo sutilmente desfocado.
Legenda: Cineasta Karol Maia em registro no Festival de Brasília de 2025, onde o longa venceu dois prêmios incluindo o de melhor direção.
Foto: Divulgação.

“A gente tá conseguindo agora, nesse momento da história do Brasil, começar a ter mais opções para onde ir profissionalmente, mas, como eu também digo no filme, o cinema é um lugar ‘quase’ feito pra mim. Essa sensação de deslocamento é muito presente na minha experiência e foi muito presente na experiência de fazer esse filme”, pondera.

Apesar dos desafios e delicadezas de ocupar posições como diretora, autora e criadora pela primeira vez em um longa, Karol expressa na fala a continuidade e as próximas descobertas do caminho.

“No filme, consegui lidar me fortalecendo a partir dessas histórias que conto nele, entendendo a força, a importância e o poder de contá-las, mas pensando na minha profissão como um todo, enquanto diretora, todos os dias aprendo a lidar um pouco com isso”, sustenta.

Aqui Não Entra Luz

  • Quando: sessões no dia 12, às 15h50, e no dia 13, às 20 horas
  • Onde: Cinema do Dragão (rua Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema)
  • Mais informações: @cinemadodragao e Ingresso.com
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