Cinema potencializa debates e reflexões sobre mundo do trabalho em projeto da UFC

Em sessões mensais no Cineteatro São Luiz, projeto Trabalho no Cinema promove reflexões sobre questões trabalhistas junto a estudantes, professores e a sociedade.

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
Legenda: Projeto Trabalho no Cinema reúne cineclube, grupo de estudos, produção de conteúdo para a Rádio Universitária e organização de mostras.
Foto: Igor Barbosa / Divulgação.

Pensar o trabalho a partir das múltiplas representações dele no cinema. É essa a proposta de um projeto de extensão da Universidade Federal do Ceará que reúne a comunidade acadêmica e a sociedade para refletir e debater questões como precarização, direitos trabalhistas e ética.

A primeira sessão pública, por exemplo, debateu trabalho por plataformas com membros do sindicato de motoristas de aplicativos, tendo o filme “Você Não Estava Aqui”, do britânico Ken Loach, como mote.

Já obras brasileiras como “Peões”, de Eduardo Coutinho, e cearenses como “Transversais”, de Émerson Maranhão, mobilizaram debates sobre greves e inserção de pessoas trans no mercado de trabalho, respectivamente. 

No formato atual, o projeto ocupa mensalmente a sala Seu Vavá, espaço cineclubista do Cineteatro São Luiz, com sessão seguida de debate. O próximo encontro será no sábado (9), às 9 horas, com o filme sul-coreano “A Única Saída”. O crítico de cinema Márcio Sallem participa do momento.

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“Complexidade do trabalho não se esgota numa abordagem só”

“São filmes muito diferentes entre si, mas que têm em comum essa capacidade de abrir debates reais, com sujeitos concretos, sobre o trabalho”, destaca Paulo Carvalho, coordenador do Trabalho no Cinema e professor da Faculdade de Economia, Administração, Atuária e Contabilidade (FEAAC) da UFC.

Apesar de a primeira exibição ter ocorrido em abril de 2025, o projeto começou a atuar primeiramente com “estudos e planejamentos” a partir de 2023.

A semente, no entanto, vem desde 2003, quando Paulo começou a explorar a “relação entre trabalho e cinema em sala de aula em cadeiras de direito do trabalho”.

O professor Paulo Carvalho está de pé, de camiseta branca com a estampa do filme 'O Agente Secreto', e fala para uma plateia em um auditório escuro durante a exibição de 'Jovens Mães'. A projeção ao fundo detalha a sessão cineclubista e os participantes da roda de conversa, destacando um momento de debate e mediação cultural.
Legenda: Doutor em Ciências Jurídico-políticas pela Universidade de Lisboa e professor de legislação trabalhista e previdenciária da FEAAC, Paulo Carvalho coordena o Trabalho no Cinema.
Foto: Divulgação.

Atualmente professor de legislação trabalhista e previdenciária da FEAAC, Paulo destaca que “a complexidade do trabalho não se esgota numa abordagem só”.

“Nas aulas de Direito, sempre defendo a força de uma ‘transjuridicidade’, que é justamente esse encontro de linguagens entre as ciências e artes”, afirma. 

O cinema, para o professor, “funciona quase como um grande repositório da história social do trabalho, mas também como um espaço de provocação estética que faz a gente sentir, estranhar, questionar”.

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Projeto reúne estudantes e professores de diversos cursos

Foi a partir desse entendimento que a ação de extensão foi criada, com o intuito de agregar diversos cursos da Universidade.

No escopo da UFC, o Trabalho no Cinema é qualificado como “extensão estratégica” e é, também, uma Ação Curricular de Comunidade de Saberes (ACCS) da instituição. 

Atualmente, são cerca de 50 membros entre estudantes — de cursos como Cinema, Ciências Contábeis, Teatro, Administração, Geografia, Sociologia e Design, por exemplo —, professores e agentes externos.

Um grupo de mais de 20 pessoas posa para uma foto em uma grande escadaria de madeira em um espaço interno bem iluminado. O grupo é diverso em idade, gênero e vestuário, que varia de camisetas casuais e shorts a calças sociais e blusas.
Legenda: Parte dos membros do projeto Trabalho no Cinema em ação de recepção de novos integrantes, ocorrida em abril deste ano.
Foto: Acervo do projeto.

“Essa pluralidade muda completamente a qualidade das discussões. Um filme nunca é visto de um único lugar: ele pode ser analisado pela estética, pelas relações de trabalho que representa, pela gestão da produção, pelas questões sociais, territoriais... Cada área abre uma camada nova de leitura”
Paulo Carvalho
Coordenador do Trabalho no Cinema

O projeto se concretiza nesse lugar entre universidade e sociedade, entre arte e ciência, recuperando a dimensão coletiva do cinema como experiência e ferramenta para pensar o trabalho”, define.

Ações incluem participação na Rádio Universitária e mostras

Além da face cineclubista, o Trabalho no Cinema tem outras frentes de atuação. “Hoje o projeto tem esse formato múltiplo: cineclube, formação, produção de conteúdo e articulação institucional”, resume Paulo.

Assim como no início dos trabalhos, em 2023, o projeto conta com um grupo de estudos “voltado para as complexidades do trabalho e para a análise fílmica, aprofundando essa dimensão mais formativa”, explica o professor.

Na Rádio Universitária, dois quadros da emissora têm ligação com o projeto: “Trabalho em Cena”, que apresenta discussões a partir de filmes, e “Cinema em Curso”, que evidencia a rede de trabalho por trás de uma produção audiovisual.

Finalmente, o projeto também se envolveu com a organização de eventos como a Mostra Difusão de Direitos Humanos e a 2ª Mostra Mercosul Audiovisual, além de realizar ocupações e parcerias com espaços interessados, como o Cinema do Dragão.

“O que move a gente é justamente isso: criar e fortalecer uma rede de debate sobre o trabalho a partir do cinema, ocupando tanto espaços acadêmicos quanto culturais”, resume o professor.

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Cinema como ferramenta de "qualificar o conflito"

“Não é novidade que estamos em um cenário em que falar de temas sensíveis muitas vezes vira confronto”, reconhece Paulo. É por isso que tratar de questões do mundo do trabalho partindo de filmes tem um papel importante.

O cinema, defende o docente, “‘desarma’ um pouco esse lugar de disputa direta, porque não começa pela opinião, começa pela experiência”. 

Um jovem de camiseta branca e óculos sorri ao lado de uma mesa com livros e uma claquete do projeto 'Trabalho no Cinema' da UFC. Ao fundo, uma tela exibe a logo do evento e um painel com cartões coloridos, compondo um cenário educativo e cultural em um ambiente aberto e arborizado.
Legenda: Projeto de extensão Trabalho no Cinema é considerado "estratégico" na UFC; na foto, ação na Feira das Profissões de 2025.
Foto: Divulgação.

“Você não está só debatendo uma ideia abstrata, você está diante de uma história, de personagens, de afetos. Isso cria uma espécie de espaço mais seguro para que o diálogo aconteça”, considera.

“O cinema não elimina o conflito, mas qualifica esse conflito, torna ele mais sensível, mais complexo. E isso é fundamental quando a gente está falando de trabalho, que é um tema tão atravessado por vivências, desigualdades e também por diferentes formas de ver o mundo”
Paulo Carvalho
coordenador do Trabalho no Cinema

Trabalho no Cinema - exibição de “A Única Saída”, de Park Chan-wook

  • Quando: sábado, 9 de maio, às 9 horas
  • Onde: Sala Seu Vavá, no Cineatro São Luiz (rua Major Facundo, 500, Centro)
  • Entrada gratuita.
  • Mais informações: @trabalhonocinema
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