'A gente pode ter outro filme no Oscar', acredita cineasta cearense Karim Aïnouz

Em entrevista à coluna, diretor e roteirista celebra destaque global dos cinemas feitos no Ceará e no Brasil.

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
Legenda: O cineasta cearense Karim Aïnouz é reconhecido por longas como "O Céu de Suely" e "Motel Destino".
Foto: Thiago Gadelha.

Cearense "global", Karim Aïnouz é hoje um dos nomes de maior destaque do cinema do Ceará por todo o mundo. Tendo recém-estreado novo filme em inglês no Festival de Berlim, o diretor e roteirista veio a Fortaleza para participar de uma atividade do Laboratório Cena 15, da Escola Porto Iracema das Artes.

A iniciativa de formação e apoio à escrita de roteiros realiza neste sábado (28), no Cinema do Dragão, uma rodada das apresentações dos projetos desenvolvidos no escopo da escola (conhecida como pitching), gerida pelo Governo do Ceará.

Em visita ao Diário do Nordeste na sexta-feira (27), Karim conversou com a coluna sobre a importância de investir em desenvolvimento de roteiros, os desafios que permanecem no cinema brasileira e o alcance global encontrado por produções brasileiras e cearenses no Oscar e no circuito de festivais.

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Foi o diretor e roteirista que levou uma produção do Estado pela primeira vez ao Festival de Cannes, em 2024, com "Motel Destino". Gravada em Beberibe, a produção fez nascer um novo "ponto turístico" no município cearense.

"A gente tinha que explicar de onde o filme vinha, de que lugar do Brasil era. 'Não, it’s not Rio!'. Tinha que soletrar, mas as pessoas começavam a ficar curiosas", relembra.

Para ele, o Ceará tem "vocação" para servir de locação para diferentes tipos de produção pela diversidade de paisagens no mesmo Estado. "As pessoas estão começando a notar no cinema cearense como ele tem uma riqueza de paisagens e locações, o que é muito importante", ressalta.

Celebrando os reconhecimentos de "Ainda Estou Aqui" e "O Agente Secreto" no Oscar — onde crê que seja possível haver presença do Brasil novamente em 2027 —, Karim lembra que tal destaque global é fruto de "políticas de promoção e produção do cinema brasileiro".

"É uma conjunção de coisas, mas o mais importante de tudo é que existe formação", sustenta. Neste sentido, destaca o Ceará como um Estado de opções diversificadas como em "nenhum lugar do Brasil".

Confira a entrevista

Vimos em 2025 e neste ano o Brasil aparecendo no Oscar, o que traz um público grande que começa a olhar para o prêmio e o cinema brasileiro já pensando qual será o indicado do próximo ano. Até o Rodrigo Teixeira (produtor de “A Vida Invisível”, dirigido por Karim) falou recentemente que acha muito difícil isso ocorrer. Em uma avaliação pessoal, o que acha dessa possibilidade?

Karim Aïnouz - Por que não? Na verdade, o surpreendente é a gente ter uma segunda indicação imediatamente depois da primeira. Então, por que não uma terceira, uma quarta? Isso prova na verdade uma espécie de vitalidade do cinema brasileiro e uma capacidade dele de estar conversando com o mundo, porque o Oscar é muito sobre isso: como é que a gente conta uma história que interessa ao mundo inteiro de um jeito que interesse ao mundo inteiro. Não vejo porque a gente não tenha outra indicação no ano que vem, e no outro ano, porque a gente está num momento que o cinema brasileiro começa a ter uma relação com o público nacional e internacional muito potente. 

É importante falar que isso não acontece por acaso. “Ainda Estou Aqui” é o 10º filme do Waltinho (Walter Salles). É uma confirmação de certa perenidade na produção. Por isso a gente pode ter uma indicação no ano que vem, é uma espécie de proficiência da nossa maneira de contar histórias.

“O Quatrilho” foi indicado ao Oscar (em 1996), “Cidade de Deus” foi indicado (em 2004). Existem pausas grandes, mas que não têm a ver com a potência de produção e do que a gente conta, mas foram pausas de políticas de promoção e produção do cinema brasileiro. 
Karim Aïnouz
cineasta cearense

Isso prova, na verdade, maturidade e permanência de algo que foi plantado lá atrás. A gente pode, sim, ter outro filme no Oscar no ano que vem, ter diretoras e diretores ou técnicos brasileiros — neste ano a gente teve a presença de um diretor de fotografia brasileiro. Podemos ter surpresas nesse sentido, o cinema brasileiro não se faz só com filmes brasileiros, também se faz com talentos brasileiros trabalhando pelo mundo. Acho muito curioso que o Affonso Gonçalves (montador de produções indicadas ao Oscar como "Ainda Estou Aqui", "Hamnet" e "Carol") ainda não tenha sido indicado, por exemplo. Por que não ter uma indicação em um outro lugar que não seja só o próprio objeto do filme?

Mesmo com este momento, ainda há vários desafios: financiamento, ocupação das salas, horários, permanência. Como vê esse cenário dos desafios que permanecem?

Karim - Desafio é bom, acho que crise é oportunidade. A primeira coisa que eu diria é que o número de assinantes de plataformas que vêm do Brasil é gigante, existe um apetite gigante. É um país complexo nesse sentido. A sala de cinema ainda é cara, então não é necessariamente porque um filme tem pouca bilheteria na sala de cinema que ele não é um filme que as pessoas têm desejo de ver. 

Tem duas cadeias da produção cinematográfica que são pouco comentadas: o desenvolvimento de projetos, com a escritura de roteiro, e também o quanto custa a campanha de promoção de um filme. Na grande indústria anglossaxônica do cinema, um filme que custa US$ 10 milhões tem US$ 10 milhões de investimento de promoção.

A gente também está aprendendo não só a desenvolver melhor — e entender que isso custa dinheiro e tem custo-benefício muito alto — mas entender que se precisa saber que o filme existe.
Karim Aïnouz
cineasta cearense

É muito importante o que você falou da permanência dos filmes nas salas de cinema, mas é muito importante que as pessoas saibam que o filme existe. A gente depende muito de vocês, da imprensa, que são um instrumento importantíssimo, e nesse sentido o Oscar é muito importante porque tem um alcance gigante. É muito importante que a gente saiba que pode ter acesso a um filme. A cadeia produtiva no Brasil tem mudado bastante, falando de promoção. A gente entende que não dá para fazer um filme por R$ 1 e colocar 20 centavos na promoção, não faz sentido economicamente.

O cineasta Karim Aïnouz gesticula com as mãos abertas enquanto fala, sentado em uma poltrona branca em um ambiente de escritório contemporâneo. Ele veste uma camisa preta e está posicionado diante de uma divisória de vidro transparente com logomarcas, sob uma iluminação de teto suave.
Legenda: Karim Aïnouz visitou a redação do Diário do Nordeste para entrevista à coluna.
Foto: Thiago Gadelha.

No panorama de festivais, tivemos em Cannes “Motel Destino” e forró no tapete vermelho em 2024 e, depois, “O Agente Secreto” e frevo em 2025. Fora isso, o Ceará também esteve em Cannes com os curtas do Directors’ Factory Ceará Brasil no ano passado, em Berlim neste ano com filmes premiados. Como vê a importância de descentralizar o Brasil que é mostrado para o mundo? Como o Ceará está posicionado nesse cenário global? 

Karim - O Ceará tem três grandes vantagens. A primeira é o senso de humor, ele tem uma tradição de comédia de sátira e isso é algo muito importante. A segunda coisa é que existe hoje uma tradição, eu diria, de escrita de roteiro e de técnicas de contar história. Quando você vê os filmes que se sobressaem tanto dentro como fora do Brasil, são de realizadoras e realizadores fortes que tem histórias que você entende. Temos uma presença não só internacional, mas nacional, que é muito importante e que você vê no trabalho do Halder, do Armando Praça, de vários realizadores e realizadoras cearenses.

A outra coisa é que me lembro que a gente estava com “Motel Destino” em Cannes e tinha que explicar de onde o filme vinha, de que lugar do Brasil era. “Não, it’s not Rio!”. “Mas onde é esse lugar?”. Tinha que soletrar, mas as pessoas começavam a ficar curiosas.

Num país como o Brasil, que tem regiões e culturas tão distintas, é muito importante que a gente possa de fato ter um cinema que represente isso.
Karim Aïnouz
cineasta cearense

O Ceará tem estado cada vez mais presente no cinema mundial e isso é fruto de uma curiosidade que as pessoas têm sobre esse país, as manifestações culturais dele. Uma coisa muito concreta: Los Angeles (onde fica Hollywood) “começou” por conta de uma coisa simples, chovia pouco e tinha sol o ano inteiro, então dava para filmar com muito mais segurança. Nesse sentido, uma vocação do Ceará que as pessoas estão entendendo agora é que ele é um lugar muito importante para trazer produções, porque a gente tem tudo. Tem deserto, tem praia, tem montanha, tem verde. As pessoas estão começando a notar no cinema cearense como ele tem uma riqueza de paisagens e locações, o que é muito importante. 

É uma conjunção de coisas, mas o mais importante de tudo é que existe formação. Não existe milagre em nenhum campo do saber, não tem como ter alguém que faz uma ponte sem formar um bom engenheiro. (Anteriormente) a gente tinha a Casa Amarela, que era um curso de extensão, e um curso de Comunicação dentro da UFC. O que aconteceu nos últimos 25 anos é excepcional, não tem nenhum lugar no Brasil com esse tipo de projeção. Temos hoje a UFC, a Casa Amarela, a Vila das Artes, o Porto Iracema das Artes, a Unifor, é uma formação diversificada.

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Virá a formação da Universidade Federal do Cariri, em 2027.

Karim - Olha que maravilhoso, isso! A gente tá colhendo os frutos dessa formação impressionante que aconteceu aqui nos últimos 25 anos. Me lembro como se fosse hoje, estava dando aula na Vila das Artes e exibiu “O Céu de Suley” (2006) na parte exterior. Um casal de mais ou menos 40 e poucos anos estava preocupadíssimo porque o filho deles estava querendo estudar cinema, ficaram perguntando. “É, fique preocupado porque realmente não é muito fácil, mas nenhuma profissão é fácil” (risos). Hoje ele é um montador, é prova disso. Existe toda uma geração que é a prova disso. O cinema passa a ser uma atividade econômica como outra qualquer e isso é fruto do projeto de formação que a gente tem aqui nos últimos 25 anos. 

Pensando no papel do Cena 15, por que é importante que haja desenvolvimento de roteiro e investimento nisso? Por que isso é um diferencial do Ceará?

Karim - Um roteiro leva no mínimo 5 anos para ficar bom. Se ele for uma adaptação, leva um pouco menos de tempo, mas é igual um livro, tem um trabalho ali. O que tem para mim de fascinante no Porto Iracema é a compreensão de que existe de fato um processo. Uma pintura, um livro, às vezes parece que é um passe de mágica, mas não. Para contar uma história no audiovisual, existem técnicas que é muito importante que a gente aprenda. A gente já nasce sabendo contar histórias, mas entre contar histórias e contar histórias no cinema, são técnicas muito distintas. 

Escrever leva tempo, você tem que ser pago para isso, não é um um hobby. A primeira coisa que disse quando a gente montou esse laboratório foi: “As pessoas têm que ser pagas, elas estão aqui aprendendo e trabalhando”, então tem bolsa. Isso é muito importante e profissionaliza o trabalho do roteirista. A cada 10 roteiros escritos, um é filmado, então instrumentar autoras e autores em dramaturgia é muito importante. Foi um projeto que levou muito tempo, existia uma fase de convencimento. Existia desconfiança e isso foi mudando porque os filmes foram sendo feitos, produzidos, e começou a existir curiosidade. 

Estava vendo a brochura sobre o que vai acontecer nesse fim de semana — que é essa rodada de contação de histórias, como eu chamaria (o pitching dos roteiros da atual edição do Lab Cena 15) — e tudo foi mudando muito. Eram só autoras e autores cearenses, depois a gente abriu para Norte e Nordeste, porque achou que eram regiões sub representadas no audiovisual. Em determinado momento, existiu um desejo nacional de participar do Cena 15 e a gente abriu vagas (para projetos de outras regiões). Nos últimos anos, o mundo começou a olhar para o Cena 15, então foi muito importante que ele virasse um projeto com parcerias globais. A gente tem muito a conquistar, tem que fazer parceria com a Ásia, com a África. 

Para encerrar, uma pergunta mais geral: você acabou de estrear “Rosebush Pruning” em Berlim. Depois dele, quais os próximos passos que pode adiantar?

Karim - Os próximos passos são a estreia de fato desse filme. Ele é produzido pela plataforma Mubi, então ele vai ser lançado globalmente até o dia 21 de agosto. Entre agora e 21 de agosto, vai sendo lançado em vários países e o nosso lançamento no Brasil provavelmente vai ser no final desse período. A gente acabou de lançar o trailer dele globalmente, não percam! Projetos novos, há muitos. Eu desenvolvo 10 para fazer um, então tem vários projetos no forno.

Na fila, tem um brasileiro ou estrangeiro?

Karim - Os dois! (risos)

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