Cami di Malta estreia na literatura cearense com romance visceral sobre perda e solidão
Escritora realiza o lançamento de “Cor de Defunto”, em Fortaleza, nesta sexta-feira (27).
Lilá mora em uma casa habitada por solidões. Ali, nada se sustenta como deveria e os dias atravessam novembros tortos em direção a dezembros que nunca chegam. Em uma narrativa profunda e visceral, o livro “Cor de Defunto” acompanha essa personagem após a morte da mãe.
Estreia de Cami di Malta na literatura cearense, publicado pela editora Autêntica e “amadrinhado” por Socorro Acioli, obra busca expor a selvageria dos sujeitos exaustos de carregarem tantos lutos. Com pouco mais de cem páginas, o livro foi fruto de um processo de três anos de escrita, conforme revelou Cami, em entrevista ao Diário do Nordeste.
“Queria fazer um livro que eu gostasse de ler. Isso fez com que eu não tivesse rédea. Foi um processo muito intenso, mas muito gostoso. Tinha partes que eu escrevia aos prantos, precisava de dois dias úteis para me recuperar. Deixei que a história me atravessasse”, afirmou.
Com a obra já no mundo, Cami tem vivido o momento de acompanhar a recepção e as reações do público. E, como parte de tudo isso, realiza o lançamento de “Cor de Defunto”, em Fortaleza, sua terra natal. O evento ocorrerá na Livraria Leitura do Shopping Rio Mar Fortaleza, a partir das 19h desta sexta-feira (27), com mediação de Socorro Acioli.
Construção da personagem Lilá
No livro, o público se depara com essa mulher que trabalha em uma funerária maquiando os mortos. Para os que cruzam seu caminho no cotidiano, ela tem aquela cara de quem morreu e esqueceram de enterrar. E a própria Lilá confessa que se sente mais morta do que os defuntos que passam por sua maca.
“Eu sou uma chinela esquerda abandonada na beira da estrada, empoeirada e pisada, cor de cimento molhado”, revela no livro. Enquanto, em outro trecho, destaca:
“Cada pedaço de reboco aparecendo na pintura falha da parede, cada rachadura, o corrimão enferrujado, os tufos de poeita, cabelo e sujeira presos pelo vento nos cantos dos corredores. Aquele prédio era eu”.
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Para Cami, escrever Lilá foi descobrí-la aos poucos. Em camadas. “Fui descascando a personagem e os sentimentos que ela atravessa”. Tinha receio de que ela fosse inconsistente, até perceber: “A vida é muito ambígua, carrega muitas contradições. Decidi deixar ela fazer o que quisesse, mostrar suas estranhezas e particularidades”.
Ao atravessar as profundezas da personagem, sentia as nuances dela chegando até a si. Os capítulos saíam muito rapidamente quando sentava para escrever, mas tinha pausas de meses.
Se fosse possível comprimir o tempo total que dedicou aos capítulos, a escrita do livro teria poucas semanas. Ainda que, não. Na entrevista, Cami mesmo percebe: o livro precisava do tempo e dos períodos de pausa para nascer. Para decantar a personagem e processar as perdas.
A complexidade de Lilá exigiu esse tempo. Ela é essa figura abandonada, deixada de escanteio, ignorada até mesmo pela irmã. Carrega medos que não consegue verbalizar e deseja mais do que tudo poder cuidar de alguém. Em um dos capítulos, confessa: “tenho a mania de querer que a vida espere por mim”.
Em busca de sentido na vida
Ainda que sinta que foi deixada para atrás, ela segue caminhando. Ela tateia o mundo em busca de sentido. Como a mulher do poema de Ana Martins Marques, em “O livro das semelhanças”, Lilá tem quebrado copos. É o que tem feito.
Tem recolhido cacos, observado seus formatos, pensado em como acontecer é irreversível e como mais fácil ainda é destroçar. Sua mãe morreu. Estava ali e depois já não estava.
Lilá tem o hábito de ferir a coxa com tampinhas de refrigerante, dorme em um caixão como se estivesse se preparando para a morte. E em meio a tudo isso, sua toalha de mesa tem o sorriso do Smilinguido e ela ainda é capaz de pintar beleza na face dos mortos.
Há uma carga de humor na narrativa, experimentação na forma e nas palavras. “A parte favorita foi a ousadia de me permitir colocar tudo para fora sem pudor, sem me preocupar com a recepção, de acessar as estranhezas da Lilá, mas as minhas próprias”. Na escrita, Cami se conheceu um pouco mais.
“A parte mais prazerosa foi justamente isso. Procurar algumas frases que são tão fortes e estranhas e viscerais. E que saíram de mim. De onde eu tirei isso?”.
Na entrevista, ainda comentou sobre como buscou inspiração em outras mulheres escritoras. Socorro Acioli, evidentemente. Mas também Mónica Ojeda, Natércia Pontes, Aurora Venturini, Aline Bei, Mariana Salomão Carrara. “Tive muito embasamento, fui amparada por muitas mãos de mulheres latinas”.
E Lilá reflete isso. Ela tem quebrado copos, sim. Tem se desfeito em “perdas líquidas se encontrando no corredor sujo e rachado”. Mas ela também é a figura que anda pelo mundo com cuidado, com os olhos no chão, à procura de algo que brilhe.
Serviço
Livro “Cor de Defunto”
Quanto: R$ 62,90
Onde comprar: Editora Autêntic