Filme gravado em Guaramiranga ‘apresenta’ paisagens da serra cearense e movimenta economia local

“Entre os Dias”, nova produção do diretor Petrus Cariry com Matheus Nachtergaele, está sendo gravada no município até meados de junho.

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
Legenda: Gravações de "Entre os Dias" acontece longe do centro de Guaramiranga, mas movimenta economia do município e do Estado.
Foto: Ismael Soares / Diário do Nordeste.

Há uma pergunta que o diretor Petrus Cariry e a produtora Bárbara Cariry estão esperando responder quando “Entre os Dias”, novo filme do cineasta, for lançado em festivais e cinemas — e ela não diz respeito ao teor político ou às referências de cinema de horror da produção.

“Foi filmado no Ceará?”. “A gente inclusive já está preparado para conversar sobre isso nos debates”, adianta a produtora. Gravado em Guaramiranga, o longa introduz as paisagens serranas do Estado ao grande público, conecta a narrativa ao local e, ainda, gera empregos e gira a economia no município. A coluna visitou um dia de filmagens da produção.

O longa, com Matheus Nachtergaele e Sílvia Buarque no elenco, acompanha um rico patriarca que leva a família para uma casa isolada na floresta. O período de convivência, gradualmente, passa a ser impactado por tensões, frutos de divergências e ressentimentos.

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Longa emprega quase 140 pessoas de formas direta e indireta

A escolha pela paisagem de Guaramiranga, explica Petrus, se deu por aspectos naturais da cidade que trariam densidade ao “drama de uma família que vai implodindo por dentro politicamente”.

“Queria trabalhar essa coisa do sol e da névoa. Guaramiranga me propiciou isso de forma muito feliz. Teve cenas durante a primeira semana (de gravações) que eram de manhãs lindas de névoa e, logo depois, o sol atravessando as nuvens”
Petrus Cariry
diretor e roteirista

“A gente precisava de uma casa muito específica, que fosse totalmente cercada pelo verde e tivesse um ar meio sofisticado. (Em) todo o trabalho que a gente fez de pesquisa de locação, Guaramiranga sempre foi a melhor opção para isso”, elenca o diretor.

Outros diferenciais do município ressaltados por Petrus incluem a proximidade com Fortaleza, onde há uma base de produção do filme, e a boa infraestrutura hoteleira disponível.

O diretor Petrus Cariry aparece de costas, sentado em uma cadeira de praia vermelha e usando fones de ouvido enquanto monitora uma cena da floresta em uma tela portátil montada no set. Ao redor dele, a vegetação densa envolve outros membros da equipe técnica que circulam e trabalham nos bastidores da gravação.
Legenda: Diretor Petrus Cariry (sentado, de costas) acompanha gravação de cena de "Entre os Dias".
Foto: Ismael Soares / Diário do Nordeste.

O último ponto é um dos exemplos de como as gravações de uma produção impactam a cidade que as acolhe. “Uma equipe precisa dormir em hotel, se alimentar em um restaurante, de uma equipe de produção daquele local, de lavanderia…”, lista Bárbara.

Ou seja, o dinheiro investido na produção audiovisual circula em diferentes setores de Guaramiranga e do Ceará. “Quando a gente pensa no desenho de produção de um filme, uma das nossas grandes preocupações é investir no Ceará, ou seja, contratar profissionais, fornecedores cearenses”, ressalta a produtora.

“É um investimento que a gente está fazendo no nosso estado e gerando não só emprego e renda direto para essas pessoas, mas também para os serviços que estão ao nosso entorno”
Bárbara Cariry
produtora

O roteiro impresso do filme
Legenda: Roteiro de "Entre os Dias" foi escrito por Petrus Cariry, Firmino Holanda e Arthur Leite, com consultoria de Rosemberg Cariry.
Foto: Ismael Soares / Diário do Nordeste.

Segundo Bárbara, “Entre os Dias” emprega pelo menos 40 pessoas de forma indireta e quase 100 indiretamente. “A gente vai ficar aqui cinco semanas e sabe como isso é importante para a economia também da cidade”, aponta.

Tamanho impacto ocorre, ressalte-se, em uma produção de orçamento modesto. Concretizado a partir de apoio da Lei Paulo Gustavo, via Secretaria da Cultura do Ceará, e recursos próprios da produtora Iluminura Filmes e da distribuidora Sereia Filmes, o longa custará cerca de R$ 1,6 milhão.

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Impactos simbólicos que perduram

Além dos ganhos de “dinheiro direto” que circula no município e no Estado, Bárbara Cariry ressalta outro ganho que o investimento em audiovisual traz: “No campo do simbólico, o filme vai aos festivais, entra nos cinemas, e a gente vai falar que filmou aqui”.

“Perdura, não é só durante a filmagem. É um cartão postal que a gente vai levar. A gente vai fazer questão de falar que foi feito no Ceará, com equipe cearense, parte do elenco cearense, filmado numa geografia do Ceará que a gente vê bem menos no cinema”
Bárbara Cariry
produtora

“Entre os Dias” deve ser finalizado até o final de 2026, para lançamento no circuito internacional e nacional de festivais em 2027. A estreia comercial no Brasil deve ocorrer em 2028. 

O ator cearense Lucas Galvino, com cabelos curtos e leve barba rala, sorri sutilmente de perfil, vestindo uma jaqueta de gola alta em tom escuro. O plano médio destaca sua expressão tranquila contra um fundo de floresta bastante desfocado, onde a luz do sol se filtra entre as folhas criando pontos luminosos.
Legenda: O ator cearense Lucas Galvino faz primeiro personagem central em um longa do Estado em "Entre os Dias".
Foto: Ismael Soares / Diário do Nordeste.

Um dos cearenses do elenco, o ator Lucas Galvino, é “cria” do Curso de Princípios Básicos de Teatro, do Theatro José de Alencar, e do Instituto Federal do Ceará. Em “Entre os Dias”, ele tem o primeiro personagem central em um longa do Estado.

“Tinha muita vontade de trabalhar na minha terra, com pessoas daqui. Quando surgiu o convite (para ‘Entre os Dias’), fiquei muito instigado antes mesmo de receber o roteiro, só pela possibilidade de estar e trabalhar com a galera daqui”, ressalta.

Uma profissional de maquiagem aplica efeitos especiais com um bastão nas costas do ator Lucas Galvino, destacando feridas avermelhadas e texturizadas espalhadas pelas suas costas. A cena de bastidores ocorre ao ar livre com fundo de vegetação desfocada, concentrando o foco nos detalhes da caracterização realista sob a luz natural.
Legenda: A coluna acompanhou os bastidores da gravação de uma das cenas do longa cearense.
Foto: Ismael Soares / Diário do Nordeste.

Entre as experiências anteriores do artista, além de curtas cearenses de diretores como Andreia Pires e Pedrokas, estão a novela das seis “Mar do Sertão”, a novela da Globoplay “Guerreiros do Sol” e participação no longa também cearense “Greice”, de Leonardo Mouramateus

Lucas ressalta, também, a importância da produção ser realizada em Guaramiranga, cidade que já frequentou por conta de outro impacto cultural, o Festival de Teatro do município. Para ele, o filme mostra “o quão diverso” é o Estado.

“Conversando com o Matheus (Nachtergaele) outro dia, ele disse: ‘Poxa, é muito doido que tô no Ceará aqui nessa serra, nesse friozinho’. A galera do Brasil todo vê que existem outras paisagens no Ceará, é importante demais”, exemplifica.

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Cinema de Petrus apresenta paisagens cearenses diversas

Paulistano de nascença, Matheus Nachtergaele ressalta, de partida: “Minha ligação com o Nordeste se deu logo na retomada do cinema”. “Com o Ceará, é um pouco mais recente”, segue.

Após “O Que É Isso, Companheiro?” (1997), onde interpretou um personagem nordestino, e “Central do Brasil” (1998), gravado na Bahia, foi "sendo levado pelo cinema para o Nordeste", com parcerias com pernamubcnaos como Guel Arraes ("O Auto da Compadecida") e Cláudio Assis ("Amarelo Manga").

A relação com o Ceará se deu, primeiro, com artistas do Estado, quando ele integrou o elenco da série “Cine Holliúdy” (2019-2022), baseada no longa de Halder Gomes, e nela conheceu e virou amigo do ator Edmilson Filho.

Com ele, contracenou em “Cabras da Peste” (2021). “Apesar de ser dirigido por um paulistano, é um filme que é fruto desse encontro com o Ceará”. “Aí, conheci Petrus. Já gostava do cinema dele e ele me chamou para fazer ‘Mais Pesado É O Céu’”, avança.

O diretor Petrus Cariry e o ator Matheus Nachtergaele sorriem abraçados em um ambiente coberto ao ar livre, cercados por folhagens verdes e pilares de tom terracota. Petrus veste uma camiseta de manga longa preta e o ator usa uma camiseta branca, registrando um momento de descontração e parceria nos bastidores do filme.
Legenda: Petrus Cariry e Matheus Nachtergaele repetem parceria de "Mais Pesado é o Céu", longa anterior do diretor, em "Entre os Dias".
Foto: Ismael Soares / Diário do Nordeste.

“A gente ‘parceirou’ de um jeito muito raro, muito bonito, e eu espero que seja uma dobradinha que se dê ao longo do tempo. Petrus é esse tipo de cineasta: todo grande cineasta vai, ao longo dos anos, juntando em torno de si pessoas que trocam com ele dentro da mesma linguagem e que vão crescendo juntas. É o meu segundo filme com ele, e espero que tenham outros”
Matheus Nachtergaele
ator

O primeiro filme da parceria apresentou ao ator as cidades de Quixadá e Nova Jaguaribara. Agora, ele conhece Guaramiranga a partir do novo trabalho. “Isso é uma coisa muito bonita”, compreende.

O diretor Petrus Cariry, à direita, gesticula enquanto orienta o ator Matheus Nachtergale, de casaco verde, no centro da imagem. À esquerda, um jovem de camiseta regata preta compõe a cena no meio de uma floresta densa. O registro de bastidores destaca um grande refletor de luz esférico e aceso ao fundo, iluminando a equipe técnica que acompanha a dinâmica de ensaio sobre o chão de folhas secas.
Legenda: "É o meu segundo filme com ele, e espero que tenham outros", diz Matheus Nachtergaele sobre Petrus Cariry.
Foto: Ismael Soares / Diário do Nordeste.

“Fortaleza eu conhecia por causa do cinema, do Cine Ceará. Vou quase todo ano para o Ceará, fui homenageado. Teve esse encontro com Petrus, ‘Cine Holliúdy’. Quer dizer, o Ceará entrou na minha vida, criei amigos, fiz vínculos. Agora, venho só para passear, para ver os amigos”, celebra.

A relação profissional-pessoal com o Estado se dá também no caso de Sílvia Buarque, que conhecia Fortaleza por viagens anteriores. O aprofundamento da relação se deve à família Cariry.

Caí dentro do Ceará por causa dos Cariry, do Rosemberg Cariry. Assisti ‘Corisco & Dadá’ (filme de Rosemberg de 1996) depois que o conheci, há uns 15 anos”, contextualiza.

A parceria no trabalho se deu em “Os Pobres Diabos”, filme do diretor de 2013 que foi lançado comercialmente em 2017 e no qual interpreta a mau-caráter Creuza. “É um dos meus maiores xodós dos meus trabalhos no cinema”, reconhece a atriz.

Com o filme, Sílvia conheceu Aracati, onde ele foi gravado à época, tendo a praia de Canoa Quebrada como uma das principais lembranças. Amizade estabelecida com a família, travou parceria também com Petrus

Com “Mais Pesado É O Céu”, conheceu Quixadá ao interpretar a solitária Fátima. “Faço questão de chegar antes aos sets deles aqui do Ceará para me ambientar. Devo ter chegado uns cinco, seis dias antes, aí conheci Quixadá, uma terra mágica. Foi minha primeira experiência no sertão”, destaca.

O ator Matheus Nachtergaele, de jaqueta escura, e a atriz Silvia Buarque, de cabelos escuros e xale cinza, em foto de divulgação do filme 'Entre os Dias', de Petrus Cariry, Os dois estão de perfil, com ele de costas para ela, que estende a mão para tocá-lo no ombro. O encontro dramático ocorre em um terraço elevado com guarda-corpo de vidro, tendo ao fundo uma vasta encosta coberta por árvores e vegetação densa.
Legenda: Matheus Nachtergaele e Sílvia Buarque contracenam novamente em "Entre os Dias", onde interpretam o casal Pedro e Joana.
Foto: Ismael Soares / Diário do Nordeste.

“Agora, esse abismo que o Petrus me convocou”, define, se referindo a “Entre os Dias”. Com os Cariry, diz Sílvia, “o sim já está dado”. “Foi um voto de confiança imenso que o Petrus está me dando. A Joana não é difícil de compreensão para mim, mas de realização, sim. Esse roteiro é uma porrada”, instiga.

Os relatos dos atores ecoam uma característica forte da filmografia do diretor cearense: todas as ficções dele até aqui foram gravadas em diferentes municípios do Estado, de Maranguape e Parambu a Beberibe. 

“É um cinema, a gente pode dizer, que passou em todas as regiões do Ceará”, resume Bárbara. “Ele não tem uma geografia definida e acho muito bom a gente ter essa possibilidade de sair da Capital. O Ceará é um estado muito grande. É também papel do cinema mostrar isso”, segue.

“A gente tem esse compromisso. Claro que cada história vai pedir um um cenário, mas gosto, enquanto produtora, da possibilidade de estar em diversos lugares do Ceará e levar esses cenários para o Brasil e o mundo”
Bárbara Cariry
produtora

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