Projeto audiovisual impulsiona identidade e profissionalização em Itapipoca
Grupo de 25 estudantes entre 15 e 48 anos passou por aulas sobre diversas áreas do audiovisual. Juntos, eles produziram quatro curtas-metragens.
Uma “tecnologia social” que potencializa o reconhecimento do território e a profissionalização em audiovisual em diferentes periferias urbanas e rurais do Ceará: é assim que o cineasta itapipoquense Kiko Alves define o projeto “A Invenção do Lugar”, idealizado por ele há 15 anos e que, até 2027, realiza uma edição sediada em Itapipoca.
A partir de apoio do edital Escolas Livres da Cultura, lançado pela Secretaria da Cultura do Ceará (Secult) via Lei Aldir Blanc, a iniciativa será dividida em três etapas: a primeira no perímetro urbano do Município, já em curso; a segunda na Comunidade Quilombola de Nazaré, na região serrana; e a terceira na Aldeia Indígena dos Tremembés, na Barra do Mundaú.
A etapa atual começou em junho de 2025 com formação contínua e imersiva em áreas como roteiro, direção, produção, som, montagem e fotografia, por exemplo. No fim do ano passado, os alunos iniciaram a fase de produção de quatro curtas, atualmente em finalização e com previsão de lançamento em junho no Cine+ de Itapipoca, em evento aberto ao público.
Veja também
Dar "retorno" aos territórios
Nascido em Itapipoca, o realizador Kiko Alves se mudou com a família em 1996 para Fortaleza. Na Capital, morou no Poço da Draga e teve contato inicial com a arte. Foi “o desejo de dar um retorno” aos territórios que o fundaram que ele idealizou “A Invenção do Lugar” no mestrado, em 2010.
O começo do projeto se deu no próprio Poço da Draga e na Comunidade Quilombola de Queimadas, em Crateús, seguindo por alguns anos. O retorno regular da iniciativa ocorreu em 2020, já em parceria com o amigo, diretor de fotografia e “cria” do Poço Johnnathan Albano.
Em meio à pandemia, com apoio de editais municipais e estaduais em parceria com entidades como a ONG Vela ao Mar, a Biblioteca Sabiá e a Casa Transformar, a atividade se fortaleceu como uma “grande rede de formação”.
Diversidade e potência de Itapipoca
Após a realização de edições em comunidades e cidades distintas, Kiko optou por “um movimento de retorno às minhas origens”. Em 2024, foi gravar o longa de estreia, “Um Lugar Chamado Aruanda”, na cidade natal e se deparou “com uma lacuna imensa”.
“A cidade é cheia de artistas incríveis, mas não havia profissionais de cinema, nem uma cena audiovisual estabelecida ou espaços de formação na área”, aponta. Neste cenário, ele e Johnnathan decidiram fixar residência em Itapipoca e estruturar a edição “Sertões” da iniciativa.
Inicialmente, o plano da equipe era abrir 15 vagas, mas a “demanda foi tão surpreendente e a sede por aprender era tão grande que ampliamos para 25”, contextualiza Kiko. O perfil da turma, segue o cineasta, “reflete a diversidade e a potência do território de Itapipoca”.
“São alunos oriundos das periferias urbanas e rurais — temos pessoas da serra, do litoral e de bairros periféricos como Picos, Serrinha, Cruzeiro, Flores, Violete, Estação e Cacimbas. É uma turma intergeracional, que vai dos 15 aos 48 anos, mas com um recorte muito claro: é um grupo majoritariamente negro e feminino”.
Audiovisual na teoria e na prática
Durante o segundo semestre do ano passado, conteúdos teórico-práticos foram compartilhados por profissionais do Estado à turma. De dezembro de 2025 a janeiro de 2026, foi a “virada para a produção”, como define Kiko.
Após criar argumentos, os alunos fizeram a defesa dos projetos e passaram por tutorias de aprimoramento de roteiro, fotografia e logística, com as filmagens ocorrendo após o Carnaval deste ano.
Durante as gravações, os alunos assumiram todas as funções de um set, da direção de atores à operação de câmeras, montagem de luz e captação de som, tendo acompanhamento de suporte pedagógico.
Foram quatro curtas produzidos pela turma e que tratam de temas ligados a diferentes figuras e comunidades do município: as ficções “Mira” e “Mercê”, e os documentários “Aparecida” e “Sebastião”. Cada projeto teve aporte financeiro de R$ 1 mil para despesas básicas logísticas.
Ruama Ester, de 25 anos, roteirizou, dirigiu e fez a edição e montagem de “Mira”, além de ter sido diretora de som em “Mercê”. Consumidora de filmes e séries, a jovem reconhece no costume de gravar vídeos da rotina que tinha na adolescência a gênese do interesse na área.
“Mesmo sem saber, eu já produzia audiovisual, já tinha essa curiosidade em reunir momentos da minha vida, do espaço que eu vivia e transformar aquilo em pequenos filmes sobre mim”, aponta.
Já Kael Cordeiro, de 20 anos, foi diretor de fotografia nas obras documentais e diretor de produção nas ficcionais. “No processo de formação, passamos por diversos pilares essenciais do cinema, que nos permitiram conhecer e passar um pouco por cada função”, explica.
O jovem começou a se interessar pelo audiovisual com fotografia, o que o levou à formação. “Conheci um universo em que era possível ter perspectiva de trabalhar com audiovisual e pensar criações autorais, e, principalmente, colocar meu território em um mapa em que ele ainda não habitava”, destaca.
Reconhecimento e profissionalização
Como Kiko destaca, o audiovisual se impõe a partir da experiência “não apenas um lugar de expressão, mas uma perspectiva real de profissão e de sobrevivência”.
“Para os alunos, o impacto é transformador e atua em duas frentes. Primeiro, no campo simbólico e da identidade: ao verem suas avós, bairros e crenças na tela, percebem que seus territórios são dignos de cinema”, inicia.
Já no “campo prático”, segue o diretor, “o projeto desmistifica a ideia de que cinema é uma arte inatingível ou um privilégio das elites. Eles assumem o controle de equipamentos de ponta, aprendem ofícios técnicos e percebem que podem, sim, disputar vagas no mercado de trabalho, gerar renda e transformar suas vidas através da arte”.
As falas do idealizador da formação encontram eco nos depoimentos de Ruama e Kael. O projeto, diz ela, “solidificou muito mais esse desejo em criar, desenvolver, perceber e produzir cinema e audiovisual”.
“Estou encantada em conseguir me visualizar trabalhando e me desenvolvendo pessoal e profissionalmente dentro da área. O que era longe da minha realidade se tornou um horizonte mais perto de ser alcançado, e espero continuar aprendendo, me conectando com pessoas que tenham o mesmo desejo em criar e, assim construir, caminhos coletivos dentro do audiovisual”
Em diálogo, Kael destaca: “[O projeto] A Invenção do Lugar me possibilitou hoje poder ver um futuro em que eu possa ser um profissional do cinema. Já venho atuando e trabalhando dentro desse mercado, onde já tive participação em outros dois filmes longas-metragens e venho construindo também minhas ideias de criação”.
Descentralizar para "oxigenar a cultura"
Os estudantes ressaltam a importância de descentralizar iniciativas de formação e produção “pela possibilidade de criar novos acessos, contar novas histórias, dar oportunidade de criação para quem nunca foi ouvido, visto”, afirma Ruama.
A jovem lembra, por exemplo, que Itapipoca ganhou uma sala de cinema gratuita, a Cine+, somente há dois anos. “Até então, famílias de baixa renda como a minha tinham que se contentar em ir ao cinema uma vez ao ano, quando fosse possível separar uma grana pra isso”, relembra.
Das experiências em Itapipoca a outras em Guaraciaba do Norte, Sertão Central e Litoral Leste, ou ainda em fortalecimentos institucionais na Região do Cariri, o cinema cearense tem se fortalecido com experiências de estímulo ao audiovisual no interior.
“Traz autonomia, perspectiva e voz”, resume Kael. “Surgem novos olhares, narrativas e formas de produzir”, ecoa Ruama. “É oxigenar nossa cultura”, dialoga Kiko.
“Entendo o audiovisual como uma ferramenta política. Ao descentralizar a formação e levá-la para o interior, estamos fazendo uma disputa de mercado e de narrativa. É dar as ferramentas para que nós sejamos os protagonistas, criando imagens afirmativas e potentes sobre os nossos corpos, os nossos territórios e os nossos afetos”, sustenta o idealizador.