Obra inédita revela cartas e bastidores entre ícones do 'Boom Latino-Americano'
Livro "As Cartas do Boom", publicado pela editora Record, mostra o cotidiano, os conflitos e os processos criativos de Cortázar, Fuentes, García Márquez e Vargas Llosa.
Conta-se que quando "O Jogo da Amarelinha" foi publicado, a editora de Julio Cortázar precisou parar a publicação dos outros títulos, tamanha era a demanda pela obra. O mesmo ocorreu com "Cem Anos de Solidão", de Gabriel García Márquez. Nessa mesma época, outros escritores da América Latina viram seus livros saírem rapidamente das livrarias, como Mario Vargas Llosa e Carlos Fuentes. Agora, pela primeira vez, os brasileiros podem ter acesso às correspondências trocadas entre esses grandes nomes.
O livro "As Cartas do Boom", publicado pela editora Record, mostra a troca de cartas entre Cortázar, Fuentes, García Márquez e Vargas Llosa. Esses documentos revelam conversas íntimas entre esses grandes nomes do considerado "Boom Latino-Americano". Há conversas sobre o cenário político da época, assim como momentos de críticas e admiração literária.
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Cortázar, por exemplo, envia apontamentos minuciosos para Fuentes sobre o seus contos. Fuentes, por sua vez, comemora o impacto do "O Jogo da Amarelinha", que foi um fenômeno no ano de publicação, em 1963, e hoje já é considerado um dos clássicos da América Latina.
O escritor argentino, que viveu grande parte da sua vida em Paris, na França, era conhecido pelos amigos. Eric Nepomuceno descreveu o amigo como um "desafiador permanente". Ele estava disposto a abrir janelas e ver o mundo.
Como os outros integrantes desse período de efervescência literária, Cortázar perseguia as possibilidades ocultas na escrita. Isso se faz evidente também nessas cartas trocadas entre eles. Agora, com a publicação inédita, os leitores têm o privilégio de conhecer os bastidores e entender os processos de criação desse grupo.
Publicação histórica e sem prescendentes
Logo na introdução, os editores escrevem: "este é um livro histórico. É a primeira compilação da correspondência entre os quatro principais romancistas do boom latino-americano". É um acesso sem prescendentes às relações deles.
Na obra, há um momento em que García Márquez pede que sejam enviados cigarros franceses para Vargas Llosa em Londres:
"Peço a tua colaboração para salvar o romance latino-americano: manda Gauloises Bleues para Vargas Llosa em Londres. Está desesperado, assim como aconteceu comigo naquela cidade, com a doçura do tabaco inglês, e consequentemente o romance dele estancou. Eu estou lhe mandando uma cartela de Elegantes por intermédio de todos que vão a Londres, e coloquei para funcionar a rede da máfia para que também lhe mandem cigarros colombianos".
Em outra carta, Gabo revela para Fuentes ter encontrado, por fim, o título da obra "Cem Anos de Solidão".
Em todos esses escritores, havia uma inquetude em descobrir novas maneiras de contar a história. As editoras perceberam que havia um movimento literário em curso. O interesse pelo que era produzido na América Latina não partia apenas de editoras latino-americanas, mas também de casas editoriais de diferentes partes do mundo.
Embora não faça parte do conjunto de autores reunidos no livro, vale lembrar que a escritora Cristina Peri Rossi é frequentemente apontada como a única mulher a integrar esse Boom Latino-Americano.
De todo modo, é difícil terminar a leitura dessas cartas sem se sentir próximo desses escritores. Suas correspondências estão cheias de afetos, trocas e divergências que trazem uma outra perspectiva sobre um dos movimentos mais importantes da literatura do século XX.
Serviço
Livro "Heptalogia"
Quanto: R$ 159,90
Onde comprar: Editora Fósforo