Conheça obra-prima que consolidou Jon Fosse e levou escritor ao Nobel de Literatura
Livro "Heptalogia", publicado pela editora Fósforo, apresenta reflexões sobre solidão, memória e fé.
Quem se aventurar na leitura do livro "Heptalogia", de Jon Fosse, talvez se surpreenda com a falta de pontuação e a narrativa em fluxo de consciência. Apesar de adotar uma estrutura incomum para um romance, a obra do vencedor do Nobel de Literatura, de 2023, é um desafio que vale a pena ser enfrentado.
É, de certo modo, como a experiência de "Ulysses", de James Joyce, ou "Grande Sertão Veredas", de João Guimarães Rosa. Há uma densidade na leitura que requer tempo e dedicação, mas ao chegar aos últimos capítulos, o leitor se vê transformado.
Publicado no Brasil pela Editora Fósforo, com tradução de Leonardo Pinto Silva, o livro acompanha Asle, um pintor viúvo que vive isolado na costa da Noruega, ao longo de quase 700 páginas. Seus dois amigos são um vizinho pescador, Åsleik, e um galerista, Beyer.
Considerada uma epopeia em sete partes, a obra aborda uma jornada sobre a vida e a morte. Esse tipo de narrativa exalta vivências heroicas de um protagonista, associadas a trajetórias marcantes ou simbólicas. Na literatura, algumas epopeias costumam ser mais lembradas, como a Ilíada e a Odisseia, de Homero, e a Eneida, de Virgílio.
Na história de Fosse, a jornada é interna e as sete partes representam, cada uma, um dia da semana. O escritor norueguês mergulha sem medo em uma escrita inovadora, criando um ritmo próprio de escrita para abordar temas complexos.
Seu estilo é marcado pelo minimalismo, mas também possui um ritmo que ressoa musicalidade e repetição.
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O que o leitor vai encontrar em 'Heptalogia'?
Em "Heptalogia", os leitores se deparam com um protagonista que está envelhecendo. Considerado um pintor de relativo sucesso, Asle é cercado pela solidão. No entanto, logo surge um outro Asle, seu duplo, um artista que vive em Bjørgvin e luta contra o alcoolismo.
A figura do duplo já foi abordada em outras obras da literatura. Em "O Retrato de Dorian Gray", o protagonista luta contra a sua figura envelhecida; em "O Médico e o Monstro", o doutor Jekyll luta contra o horror do senhor Hyde (os dois são a mesma pessoa); e o próprio "O Duplo", de Dostoiévski, vai brincar com esse espelho do ser humano.
No entanto, longe de ser mais um recurso literário na narrativa, esse duplo de Fosse atravessa a medula do livro. A obra busca explorar principalmente a ideia de que cada sujeito é formado por fragmentos de si mesmo.
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Há determinados momentos em que o protagonista Asle também vai tensionar a existência do divino. Para ele, por exemplo, a pintura é um misto de oração e expressão da busca humana por Deus.
Ele vive, ao longo das sete partes, uma jornada de introspecção, que talvez conquiste aqueles que já se interessam por temas como teologia e misticismo, mas surpreenda principalmente aqueles menos familiarizados com essas reflexões.
Jon Fosse vence Nobel de Literatura por conjunto de sua obra
O escritor norueguês Jon Fosse, de 66 anos, venceu o Prêmio Nobel de Literatura em 2023. A honraria foi concedida pelas "suas peças e prosa inovadoras que dão voz ao indizível", conforme detalhou a Academia Sueca em Estocolmo.
Morador da costa oeste da Noruega, Fosse possui uma obra extensa, com mais de 40 peças, além de seus romances, ensaios e poesias.
Dentre outros livros publicados no Brasil, estão:
- A casa de barcos (Editora Fósforo);
- Brancura (Editora Fósforo);
- Poemas em coletânea (Círculo de Poemas);
- Vai vir alguém e outras peças (Editora Fósforo);
- É a Ales (Editora Companhia das Letras);
- Trilogia (Editora Companhia das Letras);
- Manhã e noite (Editora Zain).
O estilo de Fosse foi influenciado pelo dramaturgo irlandês Samuel Beckett e pelo poeta austríaco Georg Trakl. Conforme o comitê do Nobel, Fosse "combina fortes laços locais, tanto linguísticos como geográficos, com técnicas artísticas modernistas".
Serviço
Livro "Heptalogia"
Quanto: R$ 159,90
Onde comprar: Editora Fósforo