Romance de Diogo Bercito retrata luto e retorno às origens como forma de se encontrar
"A solidão das aranhas" acompanha a viagem de retorno de Gabriel à sua cidade natal após a morte dos pais.
Há sempre um primeiro luto. Aquele que abala as estruturas até dos pilares mais bem fincados ao chão. Pode-se ouvir de modo genérico, “ele morreu”. Mas morte — morte morrida mesmo — só é sentida como a sensação de afogamento na primeira vez. Para o protagonista do livro "A solidão das aranhas", de Diogo Bercito, esse primeiro grande luto foi o de sua avó.
Diante da "obviedade de que as pessoas cessam", Gabriel começou a nutrir o medo de que seus pais fossem os próximos. Enquanto ambos ainda estavam vivos, ele tentou entender o que fazer com o amor que sentia, descobrir "onde depositá-lo de maneira que não cessasse de existir".
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E o medo da perda foi tão grande que optou pela fuga. Foi para São Paulo, entrou na faculdade, noivou. Tentou uma nova vida. Levantou um véu entre ele e o passado como se isso pudesse lhe proteger da morte. Não teve jeito. Recebeu a notícia do falecimento dos pais alguns anos depois.
A narrativa inicia então com o retorno de Gabriel para seu povoado, São Jorge do Pomar. No regresso, enfrenta uma dolorosa jornada para se reencontrar, sendo preciso enfrentar os medos da infância e encarar os lutos de frente.
Organizar e desapegar do passado
Gabriel regressa "às coisas incômodas que havia largado na cidadezinha". É inclusive simbólico que a história comece com o rapaz entrando na antiga oficina do pai. A estrutura foi destruída após a queda de uma árvore, levando ao chão janelas e paredes. Construção desmoronada. A estrutura, mas também o menino.
A obra é o segundo romance do escritor Diogo Bercito, que tece a trama como as aranhas constroem seus fios. Aos poucos, com delicadeza. Diego organiza a narrativa através de "ecdises" — ao invés de capítulos.
"Ecdise" é o termo científico utilizado para definir o processo natural de répteis e de artrópodes que realizam a troca periódica de pele e de exoesqueleto. É preciso deixar a antiga casca para crescer e renovar os tecidos. E, no retorno ao lar, é isso que ocorre com Gabriel. Uma transformação difícil de enfrentar.
Enquanto tenta limpar o sítio dos pais, o jovem organiza o passado e elabora também o que sente. No avançar da trama, um amigo da adolescência lhe diz: "O menino se lembra mesmo de muita coisa. O problema é aquilo que ele esqueceu". Como então puxar os fios para retornar a si?
Ao deixar suas cascas, ele lida com a dificuldade de pensar no fim das coisas. Gabriel escava as ruínas, torna-se arqueólogo do próprio passado. Apesar de carregar o desejo de que as coisas não mudem, percebe enfim que é preciso caminhar. Seguir em frente.
Encontro de Gabriel com Domingos
Nesse processo, conhece Domingos, um jovem que pesquisa aranhas e que, para contar sua história, passa antes por relatos detalhados sobre as características dos animais. "Quero falar sobre esta aranha", diz com frequência.
Domingos é um viajante que está de passagem, mas vai ficando por São Jorge do Pomar pela presença de Gabriel. O estrangeiro vê no menino um reflexo da tristeza que ambos escondem debaixo da pele.
Ainda que o livro não seja sobre a relação entre Gabriel e Domingos, o romance entre os dois atravessa a história e modifica Gabriel. A forma de lidar com o luto e com a morte é costurada também pelo amor.
Através da relação com Domingos, ele descobre: é preciso saber o tempo das coisas. Com o passar dos meses no Pomar, começa a enxergar o passado com mais clareza e as rotas de fuga se tornam obsoletas. Há que se enfrentar os medos e deixar de ver o mundo com os mesmos olhos.
Serviço
Livro “A solidão das aranhas”
Quanto: R$ 79,90
Onde comprar: Companhia das Letras