‘Brincadeiras à parte’: Letrux lança livro de contos inspirado em jogos analógicos

Cantora, compositora e escritora publicou terceiro livro com foco na ficção e inspirada pela arte da brincadeira.

Escrito por
Ana Beatriz Caldas beatriz.caldas@svm.com.br
Artista lançou livro em evento na Kuya, no Complexo Cultural Estação das Artes.
Legenda: Artista lançou obra em evento na Kuya, no Complexo Cultural Estação das Artes.
Foto: Ismael Soares.

Buraco, paciência, telefone sem fio, xadrez, nome na testa, loteria. Jogos comuns a várias gerações, misturados aos enlaces e desenlaces da vida, são a matéria-prima do livro de contos “Brincadeiras à parte”, que marca a estreia da cantora, compositora e escritora carioca Letícia Novaes – a Letrux – na literatura de ficção.

Publicada pela editora Planeta em agosto do ano passado, a obra ganhou lançamento na capital cearense neste mês, durante a programação do Festival Barulhinho Delas. Com mediação da artista visual cearense Fernanda Meireles, o evento ocorreu na Kuya – Centro de Design do Ceará e reuniu dezenas de fãs da artista.

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Terceiro livro de Letrux, que também publicou “Zaralha: abri minha pasta” (2015) e “Tudo que já nadei: ressaca, quebra-mar e marolinhas” (2021), “Brincadeiras” é o primeiro que foge das experiências pessoais da autora e explora outros olhares, seja com personagens e narrativas totalmente fictícias ou com histórias que trazem aspectos das realidades de conhecidos da artista.

Livro foi publicado pela Planeta no segundo semestre de 2025.
Legenda: Livro foi publicado pela Planeta no segundo semestre de 2025.
Foto: Ismael Soares.

Os nove contos são nomeados a partir de jogos que, de alguma forma, permeiam a vida dos personagens, e que servem como ferramenta para mostrar como se dão as relações entre eles.

Após cada história há textos curtos, indicados pela autora como pausas para diferentes atividades cotidianas, como mexer no celular ou beber alguma coisa – que servem como um respiro entre uma partida e outra.

Em entrevista ao Verso durante mais uma passagem pela capital cearense, Letrux comentou sobre a alegria de finalmente publicar um livro de contos – gênero pelo qual se apaixonou ao ler Clarice Lispector, Lúcia Berlin e Júlio Cortázar.

A artista reafirmou a conexão profunda que mantém com o público de Fortaleza e adiantou novidades sobre o próximo disco autoral. 

“Aqui você pode escrever o que quiser”

O diário foi o primeiro estímulo para a artista começar a escrever.
Legenda: O diário foi o primeiro estímulo para a artista começar a escrever.
Foto: Ismael Soares.

No bate-papo que antecedeu a noite de autógrafos de “Brincadeiras à parte” em Fortaleza, no último dia 16, Letrux compartilhou com o público uma de suas lembranças mais antigas em relação à escrita: o dia em que sua mãe, uma professora, a deu um diário e disse: “aqui você pode escrever o que quiser”.

“A coisa mais louca que você pode dizer a alguém”, brincou a hoje escritora. Na juventude, Letrux chegou a iniciar a faculdade de letras, seguindo o caminho da mãe, mas ambas logo perceberam que o caminho de Letícia era outro: o palco.

A carioca, que acabou se formando em artes cênicas, desde cedo se deu bem na conexão entre linguagens artísticas, mas manteve a palavra como protagonista em todas elas.

Por isso, a vontade de adentrar na prosa literária de vez, ela sabia, ia vencer em algum momento. “Dessa vez eu me arrisquei mesmo na ficção, nos contos. Sinto que um dia vou fazer um romance, acho que é um desejo de toda pessoa que escreve, mas ainda não; acho que preciso passar pelos contos”, detalha Letícia.

Cada jogo faz referência a um jogo diferente.
Legenda: Cada jogo faz referência a um jogo diferente.
Foto: Ismael Soares.

Tem gente que acha o conto uma arte menor. Fico muito triste com isso, porque conheci a arte do conto através de Clarice Lispector, Lúcia Berlin (com o livro ‘O Manual da Faxineira’), Júlio Cortázar… então, sou apaixonada por contos.

Entendo que, às vezes, a pessoa pensa ‘ah, termina muito rápido, eu quero uma história, queria ler mais 300 páginas’, mas tem uma coisa sobre o tempo do conto que me fascina, que me interessa”, completa.

Unir narrativas mais curtas à dinamicidade dos jogos foi o caminho perfeito para o início dessa jornada, já que, desde sempre, Letícia viu-se envolta na arte da brincadeira.

Seja em uma mesa, no carro ou no meio de um “climão”, os amigos e familiares sempre sabiam: para relaxar, ela inventaria algum jogo, já conhecido ou improvisado, para passar o tempo.

“Eu sou a figura que brinca, porque eu acho que a vida é muito efêmera. Claro, tem coisas que eu levo super a sério, mas dá pra se levar a sério jogando”, conta. 

Em cada história do livro recém-lançado, jogos que fazem parte do cotidiano de famílias como a de Letrux – onde a palavra cruzada e o buraco se tornaram tradição – ganham ares de realismo fantástico, unindo situações banais e cenários inexplicáveis, a exemplo do ótimo “Oráculo”, que encerra a obra.

Outro destaque do livro é o conto “Nome na testa”, talvez o mais pessoal da artista, que aborda a relação entre um trisal vivido por duas mulheres e um homem e sua filhinha, Tila. Letrux, que também possui um companheiro e uma companheira, tornou-se mãe recentemente e se inspirou na vivência pessoal com os parceiros e a pequena Yoko, hoje com três meses. 

Segundo a artista, a tentativa foi a de trazer visibilidade a famílias como a dela – utilizando-se da ficção para preservar a pequena Yoko e a intimidade da família.

Literatura melódica 

Antes de 'Brincadeiras à parte', artista publicou 'Tudo que já nadei' e 'Zaralha'.
Legenda: Antes de 'Brincadeiras à parte', artista publicou 'Tudo que já nadei' e 'Zaralha'.
Foto: Ismael Soares.

Assim como em “Tudo que já nadei”, ler “Brincadeiras à parte” evoca a alma da performance de Letícia no palco: bem-humorada e extremamente teatral. Não à toa. As músicas e os textos nascem dos mesmos caderninhos e blocos de notas do celular e, só depois, são distribuídos entre a produção da autora. Todas partem do mesmo emaranhado de ideias.

“Muita gente fala assim ‘eu consigo te ouvir lendo o livro, eu consigo ver o show e imaginar seus livros’. E eu sinto que tem alguma unidade, uma conexão. Não é uma coisa que eu busquei, mas que foi acontecendo na minha vida”, explica a artista, que também foi muito influenciada por compositores-escritores, como Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes, Bob Dylan e Patti Smith.

“São figuras da música que eu vejo tanto a música no trabalho literário, quanto quando eles estão no palco, eu penso ‘que postura de escritor, de escritora’. Então, acho que eu também me inspiro nessas pessoas, acho difícil fazer distinção”, completa. “Mas claro que às vezes a inspiração vem em forma melódica. Às vezes eu tô andando na rua e penso: isso é uma música”.

Conexão com o Ceará

Fernanda Meireles e Letrux durante bate-papo na Kuya.
Legenda: Fernanda Meireles e Letrux durante bate-papo na Kuya.
Foto: Jamille Queiroz / Reprodução/Instagram @barulhinhodelas.

Uma das lembranças de infância que Letrux carrega é a de ouvir o pai tocando Belchior à noite, na hora de dormir, o que a fez se interessar pela arte cearense. Nos últimos anos, a relação da artista com o Ceará tornou-se ainda mais próxima, com vindas constantes para shows autorais, tributos e outros eventos.

“Sou uma pessoa do Rio de Janeiro, então sou da praia, né? Qualquer convite que envolva ‘vamos ali na praia’ já facilita a viagem”, brinca. “Acho a natureza de Fortaleza muito abundante e a cultura também”, destaca.

“Toda vez que rola o convite, eu sempre falo ‘tenta, gente, tem que fazer funcionar’. Eu me sinto muito bem aqui, sinto que o público tem muito entusiasmo. Já vim com vários projetos: fiz o ‘Alfabeto Sonoro’, que é o meu outro show; vim com um show grande; vim com show autoral; vim com a homenagem ao Lulu Santos”, enumera.

“E sinto que isso é a coisa mais gostosa de se sentir no seu público, entusiasmo, porque às vezes tem banda que [o público] só quer ouvir aquela música e tal E eu penso ‘gente, eu sei que todo mundo ama Flerte Revival, mas eu sinto que as pessoas têm curiosidade para além das coisas que eu faço, então é sempre muito bom voltar”, celebra.

Letrux, 20 anos alternativa – e há mais por vir

Além da turnê de lançamento do livro, Letrux segue se dedicando aos palcos.
Legenda: Além da turnê de lançamento do livro, Letrux segue se dedicando aos palcos.
Foto: Ismael Soares.

No ano passado, além do lançamento do terceiro livro, Letrux empreendeu numa turnê que homenageia as últimas duas décadas de produção da música independente brasileira. Sobre a cena onde se formou e cresceu, produziu tributos a artistas de diferentes lugares do País, como as cantoras Céu e Tulipa Ruiz e a banda cearense Cidadão Instigado.

Prestes a encerrar a turnê que celebra, de forma coletiva, a sua trajetória e a trajetória dos colegas, a artista destaca que essa cena passou, de certo modo, despercebida e desvalorizada por boa parte da população brasileira, devido às mudanças no mercado da música desde o início dos anos 2000.

Eu sou de uma época que tinha MTV, que tinha mais reviews, da importância do jornal, do caderno de cultura de cada jornal da cidade, e aquilo também me fez conhecer vários artistas. Então, eu nem consigo tanto culpar essa geração, porque eu acho que eles sofrem uma carência de onde estão as informações, porque está tudo mais espalhado, tá tudo mais nichado”, pondera.

A nossa geração nasceu numa época confusa – era o fim da gravadora e ainda não tinha streaming. Tinha ali o MySpace, mas tudo muito… tinha que baixar a música, era pirataria, era tão confuso. Então, eu acho que tem uma geração que passou sem os devidos aplausos."
Letrux

Nos próximos meses, porém, a artista deve se voltar novamente para o futuro. “Vem um trabalho autoral novo por aí. Eu sou uma pessoa que gosta de compor, gosta de brincar, adoro fazer os shows-homenagem, mas eu sou mais compositora do que cantora”, brinca. 

O novo disco deve sair ainda este ano, mas não tem data de previsão. Sem adiantar detalhes, a cantora afirma que a obra deve trazer diferenças em relação aos outros discos da carreira.

“Vai ser uma coisa mais minimalista. Essa é a palavra que eu posso deixar”, ri. A promessa indica que, mais uma vez, uma nova faceta artística de Letrux deve se descortinar. 

Serviço
"Brincadeiras à parte"

Quanto: R$ 49,90
Páginas: 176
Onde comprar: Nas livrarias e no site da editora Planeta

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