Artista visual e editora cearenses abrem convocatória para receber textos sobre desilusões amorosas

Iniciativa, intitulada "Fissura", resultará em uma publicação digital, a ser lançada pela Editora nadifúndio em 12 de junho, Dia dos Namorados

Legenda: Ideia para o projeto nasceu como uma oportunidade de exercer a escuta interna
Foto: Ilustração: Raisa Christina

Voltar no tempo e revisitar lembranças não tão agradáveis pode ser um exercício incômodo, é verdade, mas extremamente importante no reconhecimento de si. É quando se torna possível saber como estávamos à época, no que toca a sentimentos e percepções de mundo, bem como o que aprendemos a partir daquele  fato.

Nesse sentido, memórias de desventuras românticas podem ser um bom ponto de partida para ingressarmos nessa verdadeira viagem interior. E se esses relatos resultarem em uma publicação voltada apenas para criações dessa natureza, tudo fica com um gosto ainda mais rico e diferente.

Essa é a proposta da artista visual cearense Raisa Christina e da Editora nadifúndio. Atuando em parceria, elas idealizaram uma convocatória para receber textos sobre desilusões amorosas.

As produções deverão ser breves, com tamanho máximo de uma lauda (correspondente a um lado de uma folha de papel), e versar sobre alguma experiência pessoal envolvendo a conhecida “dor-de-cotovelo”. Os textos não precisam ser inéditos e podem ser escritos em qualquer linguagem, sob a perspectiva de primeira pessoa.

A data-limite de envio das narrativas é 20 de maio, para o e-mail nadifundio@gmail.com. Ao término da curadoria, feita por Raisa e Bianca Ziegler, cearense fundadora da nadifúndio, a ideia é que 30 textos sejam ilustrados e reunidos numa publicação digital, intitulada “Fissura”. A obra será lançada em 12 de junho, Dia dos Namorados.

Legenda: Parceria de mais de uma década entre Bianca Ziegler (à esquerda) e Raisa Christina já resultou em vários trabalhos que aprofundam questões sobre relações afetivas
Foto: Foto: Jorge Silvestre

Detalhes

Em entrevista ao Verso, Raisa Christina – que fará desenhos em estreito diálogo com as histórias selecionadas – explica que a ideia para lançar a convocatória nasceu porque ela e Bianca Ziegler, atualmente residindo em Portugal, trabalham juntas há algum tempo, compartilhando também uma amizade que perdura por mais de uma década. 

Segundo Raisa, as amigas sentiram uma inquietação, desde que Bianca viajou para o Velho Mundo a fim de realizar Doutorado, de produzir à distância, mantendo a parceria por sobre o Atlântico: uma desenhando e outra, por meio da casa editorial, publicando algo. 

O momento da pandemia e as consequências que o cenário trouxe acabaram tornando este o instante ideal para lançar a ação.

“Vínhamos conversando muito sobre essas sensações na quarentena - por um lado, uma solidão, e, por outro, um maior tempo para revisitar memórias de relacionamentos diferentes. Parece que, agora, estamos conseguindo repensar certas atitudes e momentos da nossa vida, olhando para as lembranças com mais atenção”, percebe a artista visual.

Bianca Ziegler, por sua vez, tece considerações sobre a força proveniente de algo que, se um dia causou lamento, hoje pode ser maneira de ressignificar a realidade.

“Penso sempre a dor de um coração partido como algo extremamente potente, muito mais no sentido de vida do que de morte. Porque, se algo quebra, podemos sonhar novas formas de reconstrução que talvez nunca tivéssemos cogitado. E não é sempre que temos essa chance de desviar caminhos, repensar roteiros na invenção de nós e de nossas vidas”, acredita.

Relações afetivas

Por conta do longevo companheirismo, também não é a primeira vez que Raisa e Bianca tratam de relações afetivas nos trabalhos que assinam. A bem da verdade, essa é uma temática que continuamente pauta o ofício das duas, num movimento sincronizado de observação do mundo e das diferentes realidades.

De acordo com Raisa, “levando em consideração a convocatória, todo mundo tem alguma história de coração partido, né? A gente costuma pensar que as melhores canções são as que tocam nesse tema ou que surgiram a partir de uma dor-de-cotovelo. Aprendemos muito com esses pequenos grandes sofrimentos e dramas”.

Legenda: Ilustração “desisti dos calendários”, de Raisa Christina, que fará os desenhos da nova publicação
Foto: Ilustração: Raisa Christina

A artista visual também destaca o fato de o projeto suscitar um maior intercâmbio de conexões entre as pessoas neste instante específico.

“Fazer uma convocatória para receber relatos em primeira pessoa a partir desse assunto seria uma maneira muito eficaz de conversar com outros. De alguma forma, minimizar essa sensação de solidão para quem está realmente sozinho nessa quarentena”.

Não à toa, entre os desejos da dupla com a iniciativa, está também o de estimular a escuta interna, por vezes minimizada por nós mesmos, dada a dificuldade de lidar com determinados acontecimentos passados.

“Desde que eu e Raisa nos conhecemos, sempre compartilhamos a beleza de viver esse processo fisico-químico que movimenta nossas partículas internas. Quando estamos apaixonados, muitas vezes de forma frenética e desorganizada, surge a possibilidade, nessa desorganização, de um olhar reflexivo em direção a nossos desejos e pulsões, de aprender mais sobre nós mesmas e o mundo”, diz.

Ao que Raisa Christina complementa: “Mesmo sendo complicado, esse processo pode ser muito terapêutico também. Nosso objetivo, então, é este: de aproximar, inspirando essa escuta e cuidado de si”.

Serviço
Convocatória de recebimento de textos para a coletânea “Fissura”
Até o dia 20 de maio para o e-mail nadifundio@gmail.com. Mais informações pelas redes sociais de Raisa Christina e da Editora nadifúndio (instagram e facebook)

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