Adeptos dos cigarros eletrônicos ainda desconhecem os riscos à saúde

Consumidores defendem a divulgação do produto no Brasil, enquanto profissionais da saúde alertam sobre os riscos deste costume

Legenda: Atualmente, a Anvisa proíbe a comercialização dos vaporizadores em todo o País, mas utilização é permitida
Foto: FOTO: NATINHO RODRIGUES

Ondas intensas de vapor e um cheiro adocicado no ar. Certamente, quem tem frequentado bares e festas nos últimos meses já percebeu essa realidade cada vez mais presente. Se antes era algo difícil de identificar, hoje estão bem comuns os vaporizadores, também chamados de cigarros eletrônicos ou “vapers”. 

Tendência entre os jovens mundo afora, eles parecem ter ganho uma parcela grande de adeptos em Fortaleza, considerando que o uso em território brasileiro é permitido. A comercialização, entretanto, ainda é proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). 

Conforme dados do Instituto Nacional de Saúde Norte-americano, em 2018 houve um crescimento de 20,8% no número de usuários na faixa entre os 14 e 18 anos, os quais aderiram aos “vapers”, também conhecidos como cigarros eletrônicos nos Estados Unidos. Lá, o consumo já é difundido há alguns anos. Aqui no Brasil, no entanto, ainda não existem números específicos sobre o assunto. Em Fortaleza, dois jovens adeptos dos vapers revelam motivos que os levaram ao uso, entre eles está a vontade de abandonar o cigarro tradicional e também a necessidade de uma forma de socialização.

Na rotina

Colegas de Raul Martins, 23 anos, começaram a utilizar os vaporizadores ainda em 2015. Mesmo assim, o jovem só testou o produto no início deste ano. “Um grande amigo comprou pela internet no intuito de parar de fumar o cigarro tradicional”, lembra, ressaltando que hoje também já incorporou o costume. “Todos os dias, eu utilizo com certa frequência. Nos intervalos no trabalho, em casa durante meu lazer, e também quando saio para beber com amigos e familiares”.

De acordo com dados de relatório desenvolvido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), existem, pelo menos, 367 milhões de adeptos dessa prática no mundo. Não à toa, devido à massificação, a constituição dos vaporizadores ainda gera dúvidas

Sabe-se, porém, que alguns desses dispositivos são alimentados por baterias e geram vapores inaláveis. Dentro deles, cartuchos descartáveis são os responsáveis pelo funcionamento e possuem líquidos, os chamados “juices”, compostos de aromatizantes, água e glicerol, além de outros elementos. Para quem utiliza, por exemplo, é possível escolher a presença ou não da nicotina, substância incluída no cigarro comum e capaz de causar forte dependência. 

Riscos

Em meio a esta “moda”, é importante questionar e entender sobre esse universo. Existem malefícios realmente comprovados em relação à utilização? A falta de esclarecimento pode prejudicar quem fez essa escolha? De um lado, usuários afirmam enxergar aqui uma porta de saída para o tabagismo. Do outro, pneumologistas alertam à possibilidade de desencadear de uma série de doenças atreladas ao uso.

Segundo o pneumologista George Cavalcante Dantas, é necessário deixar clara a existência dos riscos e esclarecê-los. “Determino como uma preocupação recente por conta da facilidade dessa portabilidade. É possível enxergar muito uma cultura, assim como ocorreu com o tabaco nos anos 1950, do status e da sociabilidade”, afirma o médico. Para ele, o sabor diferenciado pode ser uma das características instigantes ao consumo.

“A pessoa iniciante no cigarro pode ser impelida por conta do gosto, por exemplo. E se você tem uma opção mais tragável nessa linha, pode ser uma porta de entrada para um vício”.

Além da suposição, o profissional alerta para a composição dos diversos tipos de vaporizadores no mercado. “Na hora de fazer a combustão, para vaporizar a nicotina, alguns óleos acabam não queimando por completo. Ou seja, mesmo sem as quatro mil substâncias adicionadas ao cigarro, aspirar esse óleo também é algo muito prejudicial”, afirma.

Uso prático

Enquanto isso, Leandro Cunha, 28 anos, descobriu o ‘vaper’ em janeiro de 2019 e passou a utilizá-lo, de fato, no fim do último mês. Algumas pesquisas foram o caminho encontrado por ele para decidir entrar para a categoria dos usuários. Antes disso, era o narguilé, uma espécie de cachimbo de origem oriental, que ocupava lugar fixo na vida do jovem. “Foi pela praticidade em relação ao narguilé, já que eu não usava com tanta frequência, uma vez por semana”, diz ao afastar a possibilidade de dependência.

A experiência com o cigarro veio há anos, mas não ganhou espaço por conta do cheiro, definido por ele como incômodo. Inclusive, ele não inclui a nicotina nos usos do vaporizador e procura se informar de cada substância utilizada no dia a dia.

“Fiz diversas pesquisas antes de adquirir o meu. Por eu fumar narguilé há bastante tempo, periodicamente faço exames com um pneumologista. Preocupo-me com isso e de certa forma faço para também refutar o que falam sobre o narguilé e o vaper”.

Para Raul Martins, informações oficiais sobre os vaporizadores seriam capazes de auxiliar quem deseja saber sobre o assunto. “Por falta de políticas de fiscalização e regulamentação, temos vários produtos no mercado que podem ou não ter pureza e certificação”, opina. O jovem também crê no fator positivo da liberação da venda. “Hoje, precisamos muito mais do que uma política de proibição, mas de uma política de regulamentação, em que o governo fiscalize o tipo de produto consumido e se ele é de qualidade”, sugere.

No entanto, o pneumologista George Cavalcante reitera o caráter de prevenção, do qual afirma não abrir mão. “Acredito, sem dúvidas, nesse potencial de manter o vício e ainda de incentivar novos adeptos. As substâncias são tão perigosas quanto ao cigarro e é necessário ressaltar isso”, conclui.

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