Dessal ainda aguarda licenças para iniciar obras na Praia do Futuro; nova previsão é abril

A entrega do equipamento estava prevista para 2023.

Renderização da obra da Dessal concluída.
Legenda: A Dessal Ceará deve ter capacidade de produção de mil litros de água por segundo.
Foto: Divulgação / Dessal

Antes previstas para outubro do ano passado, as obras da usina de dessalinização (Dessal Ceará), na Praia do Futuro, sofreram um novo atraso e devem começar apenas em abril deste ano. O prazo foi adiado devido à falta de documentos, como a autorização da Marinha para o acesso ao mar e a licença ambiental para a realocação de uma rede de drenagem.

As informações são do presidente da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), Neuri Freitas, durante coletiva concedida na tarde dessa segunda-feira (19), antes do workshop “Governança do Futuro: Dessalinização e Reuso de águas no Brasil”. 

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“Também tem uma Areninha naquela região e vamos construir uma nova ao lado, e eu preciso da licença para construí-la. Então, por conta de algumas ausências de documentação, não temos como começar de imediato”, explicou Freitas. 

Apesar disso, Freitas destacou que “a grande maioria da documentação” está pronta, com apenas algumas pendências para a ordem de serviço ser emitida e a obra ter início. 

“Tínhamos aquela expectativa de começar (a obra) até o ano passado, mas algumas coisas foram se apresentando em momento posterior", ponderou Freitas.

"O licenciamento da drenagem, eu achava, inclusive, que estava dentro do licenciamento da planta de dessalinização, (...) mas não é possível, precisa ter uma licença específica só para a drenagem. Então, algumas coisinhas foram aparecendo e acabaram atrapalhando. Acredito que até abril nós começaremos essa obra”, completou o presidente da Cagece.

Entrega da usina deve ocorrer com atraso de 5 anos

A entrega da usina, inicialmente prevista para 2023, foi adiada após um impasse com empresas de telecomunicações, que alegavam que a localização planejada para a usina poderia causar impactos negativos ao hub de cabos de fibra óptica, responsável pela conectividade entre a África, a Europa, a América do Norte, a América Central e a América do Sul.

Após longa disputa, em 2024, a questão foi solucionada com a mudança do local da obra. Em setembro de 2025, a Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace) emitiu a Licença de Instalação para o equipamento, e o terreno de 88,3 mil ² foi cedido pela Superintendência do Patrimônio da União (SPU) para a construção da usina no último mês de dezembro.

Em novembro de 2025, a Companhia divulgou que a proposta da planta da usina estava em fase de obtenção do alvará de construção pela Prefeitura de Fortaleza. Depois de terem início, a previsão é de que as obras tenham duração de dois anos. Caso o novo prazo se concretize, a entrega do equipamento ocorrerá em 2028, sofrendo atraso de cinco anos. 

O que é a Dessal

Idealizada pela Cagece, a Dessal Ceará será a maior planta de dessalinização do País e deve ter capacidade de produção de mil litros de água por segundo — o equivalente a 1m³ por segundo. Segundo a Companhia, essa capacidade vai permitir o abastecimento de cerca de 720 mil pessoas, fortalecendo o sistema hídrico que atende a Região Metropolitana de Fortaleza.

O equipamento vai utilizar tecnologia de osmose reversa para obtenção de água potável. Nesse processo, o sal é separado da água por meio da aplicação de uma pressão sobre o líquido. Essa água dessalinizada será voltada prioritariamente para o consumo humano.

A planta será acionada quando os volumes de água armazenados nos açudes forem reduzidos e quando a escassez de chuvas entrar em níveis de alerta.

O sal remanescente será encaminhado para um duto submarino. Segundo a Cagece, o projeto foi desenhado para promover uma rápida diluição em poucas dezenas de metros, evitando prejuízo ao ambiente marinho.

Um dos pontos de impasse em torno da Dessal Ceará era a área escolhida para o empreendimento, uma vez que empresas de telecomunicações apontavam que havia chances de impactos no hub de cabos de fibra óptica, infraestrutura que garante a conectividade entre a África, a Europa, a América do Norte, a América Central e a América do Sul.

Em junho de 2024, o Diário do Nordeste divulgou com exclusividade que a usina iria para outro lugar, ficando mais distante dos cabos submarinos da Praia do Futuro. Essa mudança exigiria um conjunto de ações, incluindo o reassentamento de 120 famílias moradoras da área.

Exemplo chileno

O workshop “Governança do Futuro: Dessalinização e Reuso de águas no Brasil” teve objetivo de promover um intercâmbio entre o Ceará e o Atacama, no Chile. Isso porque, em um contexto de 15 anos de seca, o país tornou-se referência ao implementar 25 usinas de dessalinização, das quais cinco estão na região do Atacama.

O evento contou com a presença de autoridades e especialistas internacionais, incluindo o governador da Região de Atacama, Miguel Vargas. A programação incluiu a discussão sobre temas como o abastecimento de água em zonas desérticas, os desafios ambientais no manejo costeiro, a reutilização de águas residuais e a eficácia das Parcerias Público-Privadas (PPPs) como mecanismo de gestão.

No Chile, a maioria das usinas de dessalinização é destinada ao setor de mineração. No entanto, há dois anos entrou em operação uma planta voltada ao abastecimento humano na região do Atacama. O governador Miguel Vargas explicou que o Atacama possui cerca de 300 mil habitantes e que 40% do Produto Interno Bruto (PIB) da região é proveniente da atividade mineradora.

“É uma zona desértica muito similar ao estado do Ceará. É um território fortemente afetado pelas mudanças climáticas, em que uma de suas expressões é a escassez hídrica”, comentou. Com isso, percebeu-se que não era mais possível continuar consumindo água do continente, tanto pela carência do recurso quanto pelos efeitos aos ecossistemas.

Foi nesse contexto que foi construída uma planta de dessalinização totalmente voltada para o consumo humano — a única do país construída com recursos estatais, mas operada por uma empresa privada. “Nós ousamos dar esse passo porque entendemos que era a única maneira de garantir o recurso hídrico para a população e também para nossas atividades produtivas”, disse.

Sobre os impactos para a população local, Vargas destacou a garantia da disponibilidade de água, eliminando “o fantasma da inexistência de água”. Além disso, ele mencionou a continuidade da mineração, principal atividade econômica e geradora de empregos.

Foi devido a essa planta voltada ao consumo humano que uma equipe da Cagece fez uma visita ao país andino. O objetivo foi conhecer a captação de água marinha, a devolução do rejeito no mar e outros aspectos.

“O que vimos lá acabou nos dando uma felicidade muito grande, porque já com todos os estudos, inclusive da Universidade do Atacama, com as filmagens que nós presenciamos lá, inclusive, de como estavam as tubulações no Oceano Pacífico, vimos que as tubulações funcionaram como recifes artificiais”, disse Freitas.

“Era cheio de peixe, crustáceo, molusco, algas. Ou seja, as tubulações trouxeram vida para aquele pequeno espaço que estava sendo utilizado pela planta de dessalinização. Isso é diferente do que muita gente falava aqui em Fortaleza ou no Brasil, de que poderia trazer algum problema ambiental”, continuou o presidente da Cagece, sem detalhar se esse mesmo benefício poderia ocorrer no ambiente marinho do Ceará.

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