Guerra no Oriente Médio! No Brasil, a guerra é outra. E suja.
Os três poderes da República engalfinham-se como se estivessem numa rinha de galo, num salve-se quem puder
Hoje é o primeiro dia útil do terceiro dos 12 meses deste ano de 2026, que está a passar muito rápido. Essa rapidez coincide com a alta velocidade com que os fatos surgem e se desenrolam no país, que atravessa um momento de severa turbulência localizada na difícil e complicada relação de suas instituições. A corrupção, que historicamente esteve domiciliada nos poderes Executivo e Legislativo nas esferas federal, estadual e municipal, agora invadiu, também, o que sempre foi visto como imaculado, incorruptível, acima de qualquer suspeita: o Poder Judiciário. Quem se interessar por mais detalhes, isto é, por nomes e valores, é só consultar o que, nos últimos meses, tem dito e repetido a pequena, média e grande mídias, incluindo, evidentemente, as digitais, onde se concentra o grosso das informações.
Há 48 horas, o brasileiro, já muito preocupado com tudo o que de ruim se passa no território nacional, acrescentou às suas graves preocupações a guerra de escolha (e não de necessidade) dos Estados Unidos e Israel contra o Irã. Um conflito dessa magnitude pode transformar-se no rastilho de pólvora que leve à explosão de uma nova guerra mundial, tantos são os interesses em jogo. E esse jogo é bruto, a tal ponto que a Organização das Nações Unidas (ONU) – criada em 1945 em San Francisco (Califórnia) logo após a segunda guerra, para manter a paz e a segurança internacionais – não passa hoje de uma ficção, pois nada resolve, e quando resolve ninguém obedece.
Corte rápido para a cena interna brasileira. Do jeito que se conduzem hoje no Brasil as questões políticas e judiciais, a impressão que se colhe é de que a eleição geral que se aproxima (será em outubro) virou uma rinha de galo (uma contravenção, deixemos claro). Diretamente, nela estão engalfinhados (o termo correto é este mesmo) os três poderes da República. Por quê? Porque, infelizmente, por culpa dos seus próprios atores, o que os mantinha distintos uns dos outros – ou seja, cada um no seu quadrado estabelecido pela Constituição – trincou, rachou, fendeu, quebrou. Até muito recentemente, a Praça dos Três Poderes, em Brasília, repartia e distinguia esses poderes, pairando acima de todos o Supremo Tribunal Federal (STF), como aquele casto, honrado, íntegro, intocável, impoluto, digno e honesto.
Uma investigação, ainda em curso, da Polícia Federal (PF), centro de excelência do serviço público e a serviço da causa republicana, veio a tisnar, agora, a imagem do STF. O que até aqui já se apurou e já foi divulgado sobre essa investigação é material de alto poder destruidor. Mas isto é só um lado da mesma questão. Há outro, também grave, que é o escândalo do INSS, também sob investigação da PF e de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Congresso Nacional, que aprovou a quebra do sigilo bancário e fiscal de pessoas importantes, algumas das quais próximas ao Palácio do Planalto, sede do governo.
Uma quadrilha, instalada no comando do ministério da Previdência e da alta direção do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), com ramificações externas, subtraiu das contas de aposentados e pensionistas algo como R$ 6,5 bilhões. O ministro e toda a cúpula da Previdência Social foram afastados. Na última sexta-feira, 27, a CPMI aprovou requerimento de quebra do sigilo bancário de personalidades influentes, o que causou uma briga de galos transmitida ao vivo e em cores pela TV Senado.
Nesta semana, a curiosidade do cidadão brasileiro comum – o que paga os impostos que sustentam a classe política incrustrada no Legislativo e no Executivo e, também, todo o Poder Judiciário e o Ministério Público – será de novo aguçada. O novo relator dos escândalos do INSS e do Banco Master, ministro André Mendonça, autorizou a PF a quebrar o sigilo bancário dos indiciados nos dois casos. O que for apurado, porém, será encaminhado à apreciação do relator. Como das vezes anteriores, todavia, provavelmente algo vasará para a imprensa. Afinal, o contribuinte precisa de ser informado do que fazem, para o bem e para o mal, as autoridades dos três poderes.
A atenção estará, igualmente, voltada para o STF, cujos ministros, claramente divididos diante dos últimos acontecimentos, parecem engalfinhar-se. No Legislativo, o olhar estará focado no presidente do Senado Federal, David Alcolumbre, que tem um amigo e assessor indiciado no caso do Banco Master, no qual o Fundo de Previdência de Roraima, base eleitoral de Alcolumbre, investiu R$ 400 milhões na compra de CDBs inexistentes.
Frente à gravidade do se passa no Oriente Médio, os casos de corrupção no Brasil parecem questão de somenos, mas não o são. São graves e inéditos pelas instituições, pelas pessoas e pelo dinheiro que envolvem.
Este texto estava pronto quando hoje, segunda-feira, de madrugada, o site do jornal "O Estado de S. Paulo" publicou a informação de que o ministro Benjamin Zymler, do Tribunal de Contas da União (TCU) está cobrando R$ 4 mil por um curso que ensina como não ser condenado pela Corte. O vídeo de Zymler foi gravado dentro do próprio TCU. Entenda-se, pois, que a ética e o escrúpulo foram expulsos de Brasília.
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