Por que Fortaleza se tornou umas das cidades do Brasil com mais academias e profissionais do setor?
Mercado fitness no Ceará dobra praticamente em seis anos.
Fortaleza é a segunda cidade com mais academias do Norte-Nordeste, totalizando 1.097 unidades. No Brasil, o município ocupa a quinta posição, segundo o Panorama Setorial do setor, divulgado pela entidade Fitness Brasil em dezembro de 2025.
Para o levantamento, a entidade considera todos os centros de atividade física. Entram nessa classificação academias de musculação, com aulas coletivas, multisserviço ou com especialistas, além de clubes, estúdios e escolas de esportes.
Nesse contexto, Fortaleza tem o quinto maior número nacional de Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) de centros de atividade física. Ao lado de outras cinco cidades, faz parte do seleto grupo que tem mais de 1 mil academias registradas.
Ceará se aproxima das 2,5 mil academias ativas
A pesquisa também traz um panorama das 27 unidades federativas. Nelas, são consideradas os CNPJs ativos dos centros de atividades físicas, e, assim como Fortaleza, o Ceará foi o segundo estado do Norte-Nordeste com o maior número de estabelecimentos: exatos 2.490 até julho de 2025.
O Ceará teve um crescimento de 93% entre 2019 e 2025 e é o oitavo estado brasileiro com o maior quantitativo de empresas do segmento de centros de atividade física.
Entre 2019 e 2025, todos os estados brasileiros registraram crescimento no número de estabelecimentos. Nove estados mais do que dobraram a quantidade no ano passado em relação a 2019.
A Smart Fit foi uma das primeiras academias nacionais a chegar ao Ceará, em 2014, no contexto desse crescimento exponencial. Hoje, são 33 unidades, a maior, em termos quantitativos, do Estado, dentre as grandes redes.
As cearenses Greenlife (22), TopUp (17) e MaxForma (13), assim como a baiana Selfit (20), são outros destaques das grandes redes com unidades em funcionamento no Ceará. A Gaviões tem cinco abertas, mas outras seis devem ser inauguradas nos próximos meses. A Porão, destacada como rede 24 horas, tem oito academias no Estado.
O que explica a força do Ceará no quantitativo das academias?
As cerca de 2,5 mil academias em território cearense indicam bem os dados ilustrados pelo Panorama, como observa Fábio Saba, diretor educacional da Fitness Brasil. Ao lado da Bahia, o relatório considera o estado como "polos emergentes no Nordeste".
Goiás, Pernambuco e Santa Catarina estão consolidados como mercados estratégicos fora do Sudeste, região que concentra aproximadamente 40% do total de estabelecimentos no País.
Para o especialista, três fatores são decisivos para o protagonismo cearense tanto do ponto de vista regional quanto nacional:
- Crescimento acima da média brasileira no número de centros de atividades físicas;
- Fortalecimento da presença do setor fora do eixo Sudeste–Sul;
- Relevância regional de Fortaleza como capital com alta concentração de estabelecimentos e papel estratégico no Nordeste.
Fortaleza tinha quase 1,1 mil centros de atividades físicas, correspondendo a 44% do total do Ceará. Ao todo, a Capital tinha 4,3 equipamentos para cada 10 mil habitantes.
Considerando que o crescimento acumulado do Ceará entre 2019 e 2025 foi de aproximadamente 93%, o levantamento indica que Fortaleza tinha algo em torno de 550 estabelecimentos há seis anos. O dado reforça a forte expansão da capital no contexto regional nordestino".
Dos centros de atividade física ativos dentre as capitais brasileiras, Fortaleza correspondia a 1,1% do total, o maior percentual dentre as capitais do Norte-Nordeste.
Para o vice-presidente do Sindicato das Empresas de Condicionamento Físico do Estado do Ceará (Sindfit-CE) e proprietário da academia EveryLife, Levi Lima, o alto volume de academias em Fortaleza evidencia o crescimento financeiro do setor.
Ele elenca outros três fatores, para além dos relatados por Fábio Saba, que explicam o desenvolvimento mais acelerado do setor nos últimos anos em Fortaleza:
- Mudança do comportamento da população (foco no wellness, que em tradução livre, significa bem-estar);
- Baixo custo de entrada no mercado;
- Avanço de modelos acessíveis de fitness, como boxes de crossfit e academias de bairro.
Segundo Levi, "o segredo está na diferenciação, entender profundamente o público, o que ele valoriza e o mercado está cada vez mais forte ligado à experiência do cliente".
"Esses modelos facilitam a capilarização do setor. O surgimento de outros modelos que apostam em personalização entrega algo que vai muito além de equipamentos. Outro movimento forte é a integração do treino físico com o digital e o reposicionamento das academias como clubes de saúde, integrando também com outras atividades como nutrição, fisioterapia e psicologia", diz.
A agressividade do setor de academias na Capital já combina negócios prósperos, como supermercados e demais varejistas que abrem integrados com os equipamentos, como argumentam os especialistas.
Para Levi Lima, Fortaleza tem trunfos em relação a demais cidades, que vão desde a alta concentração populacional até ao estilo de vida, com forte cultura praiana e de bem-estar.
"Outro ponto muito importante é que Fortaleza funciona como hub de tendências, onde novos modelos de academias estão surgindo, serviços e tecnologias que estão chegando aqui primeiro, estão se expandindo para o interior. As grandes redes estão chegando nos interiores, as redes locais também e nos bairros afastados de Fortaleza também. Ainda vai abrir muitas academias em Fortaleza", projeta.
Esse mercado impacta também no crescimento exponencial no total de profissionais de educação física.
Mercado aquecido, mas ainda "amador"
Para Levi, contudo, "o mercado está muito aquecido, mas ainda é muito amador". Na visão do profissional, diversas academias são abertas apenas com foco técnico, sem uma preocupação com um negócio estruturado e promissor.
Os donos, em grande maioria, são profissionais de educação física. Abrem sem planejamento financeiro, sem estratégia comercial, sem controle de indicadores básicos de gestão, sem posicionamento claro. Além disso, o gestor não sabe precificar corretamente, não tem uma estratégia de retenção de alunos, de gestão de pessoas, de diferenciação, em um mercado que está mais competitivo".
"Quem não entende que academia é uma empresa de serviços e de experiências, e não apenas um espaço de treino, acaba tendo dificuldade para sustentar o médio prazo. A academia está ali para poder formar as pessoas, ter processos claros, direcionamentos, posicionamento correto e metodologia exclusiva", acrescenta.
Conforme o Panorama Setorial, o Ceará contava em 2025 com 21,1 mil profissionais com registro no Conselho Federal de Educação Física (Confef), essencial para os trabalhadores que desempenham funções como personal trainer e professores de ginástica.
"O futuro do mercado fitness está voltado de forma híbrida, tem as grandes redes que já ganham escala, enquanto tem as academias bem posicionadas que ganham valor, que ganham fidelização. Quem entender isso vai continuar relevante", expõe.
Pandemia acelerou transformações no segmento, diz especialista
Fábio Saba explica que esse movimento já era perceptível a partir da segunda metade dos anos 2010, mas se intensificou após a pandemia.
"O número de centros de atividades físicas quase triplicou em 10 anos, com aceleração especialmente a partir de 2021. Esse movimento está ligado ao aumento da conscientização sobre saúde e bem-estar, ao impacto do período pós-pandemia no comportamento da população e a maior profissionalização do setor, que passou a operar com modelos mais acessíveis, diversificados e distribuídos regionalmente", lista.
Mesmo que o estudo se debruce sobre demais tipos de centros de atividades físicas, predominam as academias, com 72% do total dos empreendimentos no Brasil, consideradas por Fábio Saba como "eixo central da indústria fitness nacional".
"O mercado é um dos segmentos mais resilientes da economia do bem-estar. O levantamento aponta crescimento consistente e projeta que, mantido o ritmo atual, o País pode ultrapassar 70 mil CNPJs ligados a centros de atividades físicas até 2027", determina o diretor da entidade.
Fábio, no entanto, considera que não dá para traçar um perfil específico de centros de atividade física no País. O setor é marcado, nas palavras dele, "pela alta heterogeneidade dos modelos de negócio e das faixas de receita entre os estabelecimentos analisados".