Com inflação dos alimentos, famílias transformam quintais em hortas urbanas para ter comida na mesa

Na Região Metropolitana de Fortaleza, há 86 quintais produtivos, com plantações e criação de animais em pequenos espaços

Escrito por Heloisa Vasconcelos, heloisa.vasconcelos@svm.com.br

Negócios
Legenda: A agricultura tem se adaptado mesmo na zona urbana, por meio dos quintais produtivos
Foto: Kid Júnior

Desempregada de sua função como empregada doméstica, Erileuda Alves, de 67 anos, colocou o currículo embaixo do braço e ligou a TV da sala para ver onde poderia encontrar vagas. Naquele dia de março de 2020, o telejornal só tinha um tema: a pandemia. Todos os estabelecimentos estavam fechando as portas.  

Sem uma forma fixa de renda e com medo de ela e seu filho passarem dificuldades, ela olhou o quintal da própria casa, em Maracanaú, na Região Metropolitana de Fortaleza, com outros olhos. Hoje, é daquele espaço de 10 m² que ela tira grande parte do alimento que faz fartura na mesa.  

Erileuda encontrou na agricultura uma forma de sustento diante da crise. Como ela, outros cearenses também têm na subsistência um meio de driblar a alta de preços no supermercado e evitar a fome, em um contexto de desemprego e inflação. 

Os dados desse fenômeno, contudo, são incertos. O último censo da agricultura familiar data de 2017, dificultando uma percepção dessas famílias que entraram na atividade após a pandemia. 

Mesmo assim, há esforços para difundir essa solução. No Ceará, a Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Agricultura Familiar (Confetraf) realiza encontros para ensinar práticas agrícolas e promover o compartilhamento de alimentos cultivados nos quintais produtivos.  

Difusão da agricultura na região metropolitana 

Para o presidente da Confetraf Brasil, Manuel Arnoud Peixoto, mais conhecido como Bael, a agricultura familiar na região metropolitana não era vista com devida importância. Mas, nos últimos dois anos, a confederação tem buscado resgatar essas famílias. 

A gente começou a descobrir que existem dezenas, centenas de quintais produtivos que não são considerados por estarem em região urbana. Não tem apoio porque o apoio governamental é direcionado para a área rural
Bael Peixoto
presidente da Confetraf Brasil

O quintal produtivo é a ideia de conseguir plantar em propriedades menores, voltado principalmente para a subsistência.  

Sem recursos ou área, famílias da região metropolitana encontram meios para produzir com o pouco que têm. A união se torna palavra-chave, seja na partilha de alimentos, no compartilhamento de conhecimentos e mesmo para realizar compras coletivas. 

O Sisteminha é um projeto criado pelo Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) voltado para a zona rural e vem sendo adaptado na área urbana. Consiste na criação de peixes para alimentação da família. 

“Tem tanques para criar peixes dos mais diversos tipos, de madeira, de papelão, de geladeira velha. São criadas diversas alternativas por falta de um apoio mais consistente. E está aflorando uma identidade de agricultura familiar no meio urbano, principalmente na região metropolitana de Fortaleza”, diz. 

Os Sisteminhas estão em várias casas da Grande Fortaleza. Eles compõem os quintais produtivos, projeto que começou há 20 anos, incentivado pelo agricultor Jozias Pitaguary, de 68 anos. 

Foto: Kid Júnior

“Nós que não temos muita terra, o quintal produtivo é suficiente para toda a renda de uma casa familiar. Se em um pequeno quintal com 10 metros tem condições, com 100 metros daria para tirar a morada, a fruta para venda, compra e alimentação”, compara. 

Hoje, segundo Pitaguary, já são 86 quintais produtivos na região metropolitana de Fortaleza.  

Bael percebe que mais famílias entraram na agricultura após a pandemia por questões financeiras, mas que permanecem também por encontrarem no campo e no próprio quintal um espaço afetivo. 

“Esse processo produtivo no quintal é muito mais do que só alimentar o físico, tem algo a mais que alimenta o espírito. Não é algo religioso não, é sentimental. Satisfaz a pessoa em outro campo”, defende. 

“Não sei quanto estão os preços no supermercado” 

Quase tudo o que chega à mesa da cozinha de Erileuda sai do quintal da casa. Lá, a agricultora possui um tanque de peixes, criadouro de galinhas e até colmeias de abelhas, além das plantações de verduras, frutas e temperos. 

Filha de pais agricultores de Miraíma, no sertão cearense, ela voltou para a agricultura por necessidade, mas também por paixão.  

Legenda: Todos os dias, a Erileuda colhe ovos frescos do próprio quintal
Foto: Kid Júnior

“Como ficou só o meu filho empregado as coisas ficaram mais difíceis, antes eram dois e aí ficou só um, pesou mais ainda. Mas não pode baixar a cabeça para as dificuldades, tem que encontrar caminhos para sair”, lembra. 

O trabalho no quintal toma todo o tempo da agricultora, que não tem planos de voltar ao mercado de trabalho formal. Para ela, o alimento cultivado é um alívio para o bolso e para a própria saúde, já que ela não utiliza agrotóxicos. 

Tudo ficou caro, tudo tá difícil. Não sei quanto está ovo, galinha lá no mercado. Outro dia recebi uma visita e não me aperreei, tinha peixe ali comemos peixe assado
Erileuda Alves
agricultora

Hoje, ela representa o Sindicato dos Agricultores Familiares da Região Metropolitana de Fortaleza (SRM Fort). Ela tomou para si a missão de difundir a agricultura familiar, tanto incentivando a produção como a partilha. 

A partilha, inclusive, é ponto central para a atividade. É por meio da troca de alimento com famílias parceiras que se consegue variedade no cardápio, mesmo com um espaço pequeno para a produção.  

Legenda: Erileuda produz grande parte do que consome em um quintal de 10 m²
Foto: Kid Júnior

“Eu acredito que a saída para nós, para o pequeno, é fazer com que a gente possa ter o nosso alimento, a nossa partilha. Para a gente salvar o nosso bolso, porque muita coisa a gente deixa de ir no mercado”, diz.  

Interior do estado 

A família da agricultora Maria de Fátima dos Santos, de 59 anos, planta para comer desde que ela se entende por gente. Ela nasceu, se criou e permanece na agricultura. 

No sítio onde mora, em Itapipoca, ela planta milho, feijão, banana, mamão, abacaxi, maracujá, goiaba, acerola, jerimum e outras culturas, e cria também galinha, porco e ovelha. 

Segundo ela, 90% do que a família consome vêm da roça, mas o ideal seria aumentar esse percentual devido à alta nos preços. 

A gente vê que tá mais caro, estamos tentando até produzir nosso próprio arroz para consumir, porque é melhor que comprar porque está caro e não é de qualidade. O que a gente planta é agroecológico
Maria de Fátima dos Santos
agricultora

Também é o caso da agricultora Antônia Márcia da Silva, de 53 anos, que mora no distrito de São João dos Queiroz, em Quixadá.  

“Eu produzo milho, feijão, jerimum, fava. A gente vai produzindo de acordo com a chuva. No mercado o que eu compro é cebola porque não tenho condições de produzir, gengibre eu tenho, açafrão eu tenho. E aí vou levando. Macaxeira eu tenho, mas macaxeira tem um período que você pode arrancar e outro não, se tiver dos meus colegas eu compro deles, senão eu compro de fora porque tenho a minha demanda”, cita. 

O que sobra na produção nos dois sítios é vendido em feiras de agricultura familiar. Dessa forma, as agricultoras conseguem uma maior qualidade de vida. 

“A gente vende, temos as nossas feiras. Todas as quartas a gente está em Itapipoca, tem uma em Fortaleza também, mas essas são por mês. Vendo na vizinhança também o cheiro verde, o ovo da galinha caipira. Eu já comprei até um carrinho com os produtos”, conta Maria de Fátima. 

Volta para o interior 

Como o último Censo da agricultura familiar é de 2017, não há dados para analisar o padrão de produção das famílias depois da pandemia.  

Mas, segundo a coordenadora geral do Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador (Cetra), Neila Santos, os relatos mostram uma tendência. 

O que a gente tem de informação é a fala de várias pessoas voltando para o interior. A gente tem várias pessoas que moravam fora e retornaram para o interior. Escutamos o relato também em outras comunidades, pessoas que estavam morando fora há algum tempo e voltaram porque as condições na cidade não davam mais
Neila Santos
coordenadora geral do Cetra

Neila narra que diversas famílias auxiliadas pela organização não estão passando fome por produzirem elas mesmas o próprio alimento.  

“Muitas famílias dizem que não passam necessidade porque ‘consigo produzir meu feijão, minha macaxeira e tirar para vender. Se dependesse só de comprar, passaria fome’”, aponta. 

Ela reforça que o meio rural passa por um momento desafiador e critica que políticas para agricultura familiar foram extintas ou inviabilizadas pela redução na quantidade de recursos disponíveis.  

“[É preciso] aquisição de cisternas para beber e produzir, para produção de alimentos agroecológicos, políticas de proteção da caatinga, meio ambiente. Políticas de acesso à terra, porque sem terra não tem alimento”, defende.