Cearense trabalha inclusão de crianças com deficiência por meio de terapia musical nas ilhas Fiji

Do outro lado do mundo, André Comaru fundou a Be Happy Music Club; organização está presente em mais de cinco escolas e faz a diferença na vida de mais de 200 crianças

Fotografia do músico com as crianças em Fiji
Legenda: André Comaru tocando para crianças em escola das Ilhas Fiji
Foto: Fernanda Gallo

Ao embarcar para a Austrália em 2009, destinado a passar seis meses em intercâmbio, André Comaru, músico e publicitário cearense, não imaginava o quanto sua arte iria modificar a vida de crianças com deficiências nas ilhas Fiji, no Pacífico Sul. Hoje, André é fundador da ONG Be Happy Music Club que está presente em cinco escolas, com impacto na vida de mais de 200 crianças. O Brasil deve ser o próximo país a ser contemplado com o trabalho voluntário musical da organização.  

“Muitas dessas crianças em Fiji são rejeitadas pela família e pela sociedade por conta da deficiência. A gente dá pra elas a confiança de ter uma chance, do seu talento, de se sentir parte de algo. É dessa forma que a gente quebra ou reduz a desigualdade e inclui essas crianças na sociedade mais uma vez”, diz.  

Após optar viver no estrangeiro e conseguir se estabilizar na Austrália, em 2016, André quis “devolver ao mundo o que lhe foi dado” e decidiu prestar serviço voluntário.

“Eu queria fazer um trabalho onde alguém realmente precisasse. Fiji é uma nação de terceiro mundo, fica pertinho da Austrália e havia sido atingido pelo maior ciclone das ilhas do Pacífico pouco antes da minha decisão”, conta.

Metodologia com músicos locais

Com seis meses na ilha, o músico teve a oportunidade de tocar para uma escola de pessoas com deficiência visual, o que o impulsionou a criar algo ainda maior. 

“Quando eu vi o poder positivo da música na vida daquelas crianças, me surgiu a ideia de criar uma metodologia onde elas continuassem recebendo a programação através de músicos locais, sem depender de mim. Foi isso que eu fiz, engajei músicos locais, ensinei minha metodologia, os músicos levam a cultura fijiana local, isso é muito importante", destaca. 

André teve que voltar para a Austrália, mas garantiu a autossuficiência do projeto com os nativos. Nos primeiros passos da entidade, a sustentabilidade vinha de shows que o músico fazia após seu expediente. Mesmo dando continuidade à sua vida normal, todos os anos ele volta às ilhas para se dedicar ao projeto.  

"Voltei minha vida normal, consegui emprego novamente e, pra conseguir manter o projeto, comecei a fazer shows musicais após o meu expediente, todas as doações e pagamentos eram pra manter esse projeto em Fiji, assim foi o pontapé inicial. Em agosto do ano passado, larguei a universidade que eu estava trabalhando e, mais uma vez, voltei a me dedicar 100% ao Be Happy. Todos os anos que vou sinto que o projeto me chama mais", relata. 


O sentido de tudo

No ano passado, André decidiu reencontrar alunos que já haviam se formado na escola e destaca a história de Naomi, uma menina com deficiência visual que era rejeitada pela família. "Em 2016 fizemos uma apresentação musical e a Naomi cantou lindamente. Ao final da apresentação, a mãe dela tomou o microfone e disse: 'eu rejeitei a minha filha por toda a vida dela e, pela primeira vez, hoje eu a vi cantando e vejo o quanto ela é talentosa. Eu me arrependo muito de ter feito isso com ela.'"

Através da música, Naomi conseguiu uma bolsa de estudos numa escola em Suva, capital do país, e, ao reencontrar com o músico, a garota disse que seu sonho é "ser professora de música do Be Happy Music Club". Incentivados pela história de Naomi, o grupo agora trabalha numa iniciativa de oportunidades para os alunos com a música, após saírem das escolas.


"Ela saiu da rejeição pra um nível de confiança que a música e o talento dela deram pra ela, de ir pra uma escola normal, fazer amizades dentro de um ambiente normal, e chegar a ser embaixadora da escola", conta André justificando ser esse o sentido de tudo.

O publicitário tem a arte como norteadora da fundação assim como de sua vida e opina, “a arte é vida. Eu sou música, eu sou arte. É tão importante pra mim quanto o sangue que corre na minha veia, quanto a água que eu bebo, quanto a comida que eu como”.  

Desafios e novas metas 

André revela o maior desafio, "como o de toda ONG, é o de arrecadar fundos. Uma ONG nada mais é que um atalho para consertar problemas sociais que o governo não consegue entregar". Para doações, a melhor forma é acessar o website do Be Happy Music Club

A equipe do Be Happy traça novos projetos e metas para a organização, como o de trazer o projeto para o Brasil. "Estamos trabalhando muito forte nisso agora, num momento de pesquisa com institutos que tomam conta de crianças com algum tipo de deficiência, em contato com terapeutas musicais aqui em Fortaleza pra iniciar esse trabalho, se tudo der certo, vai ser no próximo ano".  

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