Tunísia e Marrocos podem servir de espelho para gestão hídrica no Ceará; entenda

O "Projeto Sertões" busca compreender o cenário da região que registra os menores índices pluviométricos do Ceará e desenvolver ações que possam maximizar sua resiliência

Escrito por André Costa,

Ceará
Legenda: A região do Sertão Central e Inhamuns é a mais seca do Estado, com as menores médias pluviométricas dentre as 8 macrorregiões
Foto: Kid Jr

Com área de quase 150 mil km², o Ceará apresenta realidades distintas em suas 8 macrorregiões. Se na maioria delas a chuva neste ano tem sido robusta, com volumes pluviométricos acima da média ou perto de atingirem a normal climatológica, uma em especial amarga chuvas reduzidas há quase dez anos. O Sertão Central é a localidade com a menor média histórica anual e, também, a que menos registrou precipitações em 2022. 

Apresentando índices reduzidos ano após ano, a região vive um universo à parte, onde os açudes encontraram severa dificuldade de conquistarem recarga hídrica, a agricultura precisa se reinventar para que a produção permaneça viável e comunidades – sobretudo as difusas – têm o acesso a água limitado. Este cenário, inclusive, se assemelha ao de países do mediterrâneo, como Marrocos Tunísia

676.2 mm
É a média histórica anual da região do Sertão Central e Inhamuns. Este é o menor índice dentre as 8 macrorregiões do Estado. A maior média é a da região do Litoral de Fortaleza

Estas duas nações, porém, aprenderam a conviver com a seca, e, há décadas, se mostram resilientes. A ausência de água já não é um problema para os dois países em questão. Ainda que distantes territorialmente do Sertão cearense, Tunísia e Marrocos podem servir de espelho para o Ceará.

Um projeto, iniciado no ano passado, busca compreender o cenário da região que registra os menores índices pluviométricos do Ceará e desenvolver ações que possam maximar a resiliência daquele local.  

Intitulado “Projeto Sertões”, o programa encabeçado pela Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), conta com 10 pesquisadores, sendo dois franceses e oito brasileiros. 

O objetivo, segundo o órgão, “é mudar o paradigma da ação pública, afastando-se de uma visão setorial para abordagens territoriais integrando os setores de água, agricultura e energia”. 

Legenda: Com índices reduzidos ano atrás de ano, os açudes da região do Sertão Central encontraram severa dificuldade de conquistarem recarga hídrica, a agricultura precisa se reinventar para que a produção permaneça viável e comunidades – sobretudo as difusas – têm o acesso a água limitado.
Foto: Divulgação/Funceme

Eduardo Martins, presidente da Funceme, explica que o Projeto foi dividido em etapas. A primeira fase, realizada no ano passado, foi de diagnóstico.

O intuito era observar o clima, território, questões de água e energia e políticas públicas, para formatação de um diagnóstico. Foram escolhidas três cidades para o experimento: Quixeramobim, Piquet Carneiro e Milhã. A escolha, ainda conforme Eduardo, "atendeu critérios técnicos".

Nesta fase, os pesquisadores identificaram a existência de uma alta densidade de barramentos na região, o que pode indicar um número que traga dano à recarga dos açudes mais importantes. "Os estudos devem apontar se essa alta quantidade de barramentos possa estar prejudicando o aporte em reservatórios-chave". No Ceará, existem mais de 90 mil açudes.

Agora, o Projeto Sertões está na fase de "discussão" para construção de sistemas-piloto locais de governança da água e inteligência territorial. "Vamos identificar os atores locais [ONGS, órgãos e prefeitura] para construir um modelo de governança local para gestão da água", detalhou Eduardo Martins.

A intenção é trabalhar a gestão local da água de forma integrada, "abordando o saneamento, meio ambiente, agricultura, recursos hídricos e etc", acrescenta o presidente da Funceme. É na aplicação deste modelo que o Ceará pode se espelhar ao Marrocos e Tunísia.

A média anual de chuvas em Marrakesh, capital do Marrocos, é de 288mm. Na Tunísia é de 444 mm, ambas inferiores a normal climatológica do Sertão Central  

"Há centenas de anos eles desenvolvem uma forma de governança da água de forma participativa, em torno do planejamento e isso tem garantido a eles uma excelente resiliência. Não é um modelo ou uma ação aplicada lá que traremos para cá, mas, sim, a forma da gestão da água que pode nos ensinar muito", explica Eduardo.

Legenda: O "Projeto Sertões" conta atualmente com dez pesquisadores, sendo 8 brasileiros e dois franceses
Foto: Funceme/Divulgação

O projeto vai permitir o cruzamento de pontos de vista e experiências entre regiões semiáridas como o Nordeste, o Magrebe e a África Ocidental através da interconexão de redes de parcerias científicas.

No próximo ano, a terceira fase iniciará as ações de implementação. Nesta etapa, completa Eduardo Martins, o Projeto vai estabelecer trajetórias que tornem a região do Sertão Central mais resiliente com a seca.

Para isto, criar-se-á organismos em conjunto com comunidade local - cujo objetivo é fornecer informações locais mais fidedignas- ONGs e órgãos municipais e estaduais. "Vamos desenvolver um sistema de participação direta", pontuou.

"Não podemos apenas olhar para o passado sem nos preparamos para o futuro. A partir de 2012 tivemos o início de uma seca que nunca havíamos presenciado antes, foi um período muito longo [até 2018]. No futuro, podem ocorrer momentos ainda mais longos e severos. Portanto, devemos, sim, olhar para o passado, mas se preparar para o futuro. Conseguirmos ser mais resilientes, e isso se constrói através de estudos e parcerias", conclui Eduardo Martins. 

O Projeto

O Projeto Sertões foi assinado em fevereiro em 2021, pela Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), pela Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) e pelo Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento (Cirad).

O projeto objetiva "reduzir os impactos ambientais do desenvolvimento rural desenvolvendo atividades econômicas com baixo teor de carbono". O valor a ser investido é de 950 mil euros (cerca de R$ 6,2 milhões) e se dará através da ferramenta “Facilité 2050” da AFD.

Ela apoiará cerca de 30 países na construção de trajetórias de desenvolvimento resilientes e de baixo carbono, compatíveis com os objetivos do Acordo de Paris. Trata-se do primeiro estudo financiado pelo programa no Brasil. O Cirad e a Funceme estarão encarregados da gestão técnica e científica. No total, os estudos levarão três anos a partir da assinatura.