Saiba quem deve continuar usando máscara mesmo após liberação no Ceará

O Diário do Nordeste ouviu especialistas sobre quem são as pessoas mais vulneráveis a casos graves se forem infectadas pelo coronavírus

Escrito por Nícolas Paulino, nicolas.paulino@svm.com.br

Ceará
Legenda: Pessoas com sistema imunológico comprometido precisam manter a atenção sobre a transmissão da Covid-19.
Foto: Fabiane de Paula

Mais de dois anos após o início da obrigatoriedade, o uso de máscaras de proteção facial foi liberado em vários locais do Brasil, como Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo, e será flexibilizado também no Ceará a partir de segunda-feira (21). Porém, especialistas explicam que alguns grupos têm recomendação para permanecerem utilizando o dispositivo contra a Covid-19.

Nesta sexta-feira (18), em uma live nas redes sociais, o governador Camilo Santana anunciou que, a partir da próxima segunda-feira (21), o uso de máscaras passa a ser facultativo em ambientes abertos em todo o território cearense. Entretanto, a obrigatoriedade está mantida para lugares fechados e no transporte público. 

Já em São Paulo, justificando a ampla vacinação no Estado e a redução na busca por assistência médica, o Governo definiu a liberação do uso das máscaras em qualquer ambiente aberto (como vias públicas, parques, ambientes escolares abertos, shows e eventos) e também em locais fechados.

Porém, o uso da proteção segue obrigatório no transporte público e unidades de saúde. O decreto estadual não estabeleceu recomendação para grupos específicos.

A Prefeitura do Rio liberou, desde o início do mês, o uso facultativo de máscaras em ambientes fechados e abertos na cidade. Contudo, o Comitê Especial de Enfrentamento à Covid-19 (CEEC) do município fez a ressalva de que quatro populações devem continuar usando máscaras:

  • imunossuprimidos
  • pessoas com comorbidades de alto risco
  • não vacinados (inclusive crianças)
  • pessoas com sintomas de síndrome gripal 

Esses grupos de atenção são confirmados pelo presidente da Sociedade Cearense de Infectologia e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), Guilherme Henn, e por Paulo Magalhães, médico cearense de família e comunidade, doutorando em Saúde Coletiva e pesquisador da Covid-19. Entenda os motivos abaixo:

Idosos

Segundo Magalhães, essa população tem naturalmente um sistema imune mais enfraquecido, ainda que passe por um envelhecimento saudável. Logo, órgãos como fígado, rins e coração “têm uma resistência menor”.

Se o idoso também tratar alguma patologia, como hipertensão ou diabetes, o coronavírus pode causar ainda mais danos. “Você tem mais chance de ter casos graves, então com os idosos eu teria bastante zelo”, ressalta Paulo.

Imunossuprimidos

Nesse grupo, estão incluídas pessoas com deficiências no sistema de defesa, independente da idade, como aquelas em quimioterapia, em tratamento contra o câncer ou com doenças autoimunes. "Mesmo as pessoas de risco totalmente imunizadas podem ainda ter doença grave pela Covid", diz Henn. 

“Você toma remédios que baixam sua imunidade para reduzir os efeitos da doença e acaba tendo as suas defesas também reduzidas”, explica Magalhães.

Pessoas com doenças crônicas

Pessoas que enfrentam doenças crônicas que favorecem a ação danosa do coronavírus, como hipertensão, diabetes, asma, cardiopatias e obesidade, também devem avaliar a continuidade do uso.

Não vacinados

Magalhães também recomenda a manutenção das máscaras para quem não tomou nenhuma dose de proteção da vacina, embora acredite que, “a essa altura da pandemia”, esses casos são “minoria” e se devem à contraindicação médica ou “a uma questão de opinião”.

"Os não imunizados podem ser disseminadores muito eficientes da doença", complementa Guilherme Henn.

Crianças

Paulo Magalhães lembra que os pequenos, embora não tenham muitos casos graves, também estão suscetíveis a óbito pela Covid-19. E, como foram os últimos contemplados no processo vacinal, ainda estão caminhando para a D2 e ficam distantes da D3.

Portanto, especialmente nesse período de retorno às aulas presenciais, destaca como “fundamental” manter a máscara nas salas de aula, além de manter distanciamento e observar a higiene das mãos. 

Legenda: Médico recomenda cautela com crianças até elas completarem o esquema vacinal com três doses.
Foto: Thiago Gadelha

Por que usar máscaras?

Os dois médicos ouvidos pela reportagem consideram que ainda não se pode aliviar os cuidados mesmo com o cenário epidemiológico do Ceará indicando redução expressiva de casos, óbitos e busca por assistência médica em unidades de saúde. Por isso, medidas como o uso da máscara continuam sendo importantes.

A máscara tem essa função individual, te protege, reduz a chance de você adquirir o vírus, e coletivamente diminui a circulação do vírus, o que acaba reduzindo o número de casos e a possibilidade de uma nova variante, que é tudo que a gente não quer.
Paulo Magalhães
Médico de família e comunidade

O pesquisador acredita que 2023 poderá ser um ano bem melhor em relação ao controle da pandemia, apenas com transmissão residual da doença, mas apenas se houver adesão massiva às medidas de proteção e à campanha de imunização - que poderá, como ele observa, se tornar semestral ou anual.

Cautela na discussão

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) considera “prematura” a flexibilização das normas de proteção em diversos municípios e estados brasileiros. Em nota publicada na última semana, o Observatório Fiocruz Covid-19 chama atenção mais urgente para a necessidade do avanço na vacinação.

Para os pesquisadores do boletim, é preciso “ter prudência” na adoção de qualquer medida de flexibilização, tanto porque ainda não se sabe o real impacto do Carnaval, com potencial aumento de casos e internações, quanto pela "vacinação que avançou bastante, mas precisa ir além".

O documento menciona que as próximas semanas serão cruciais para compreender como serão os novos cenários da Covid-19 em relação ao controle da transmissão.