Proteger ruínas, criar réplica ou interditar: o que pode ser feito com a Ponte Velha de Fortaleza

O bem, de valor afetivo e histórico e ligado diretamente ao primeiro porto da Capital, voltou a ter seu destino em discussão

Escrito por
Thatiany Nascimento thatiany.nascimento@svm.com.br
(Atualizado às 15:16)
Legenda: A Ponte Velha, interditada desde agosto de 2023, tem mais de 100 anos
Foto: Ismael Soares

Demolir, preservar como ruína, reconstruir, estruturar uma réplica… Desde que a consulta feita pela Prefeitura de Fortaleza ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) sobre a possibilidade de executar uma  “demolição controlada” da Ponte Velha ou Ponte Metálica, no Poço da Draga, na Praia de Iracema, veio à tona, publicada pelo Diário do Nordeste, no início de agosto, os debates sobre destino do bem ganharam, novamente, ênfase. 

De dúvidas sobre as reais condições da ponte a demandas por manutenção, a discussão tem mobilizado, sobretudo, os moradores do entorno e profissionais ligados à preservação do patrimônio e da história. Mas, o que pode ser feito no local para garantir a proteção do bem histórico e também um uso seguro, seja ele contemplativo ou de lazer?

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O Diário do Nordeste ouviu arquitetos e urbanistas que abordaram o assunto e esclareceram o que deve ser priorizado no atual momento, considerando as reais condições estruturais do local, a relevância histórica e os usos atribuídos pela população.

Vale destacar além dos vínculos simbólicos, que no aspecto mais prático, embora interditada, a Ponte Velha tem sido usada por banhistas como espécie de “trampolim” para realização de saltos no mar e se tornou um símbolo desse uso na orla. 

A Ponte Velha é uma construção centenária e, dentre outras conexões, tem relação direta com o estabelecimento do primeiro porto da Capital, com os galpões industriais da Praia de Iracema e com a Ponte dos Ingleses. Ela está interditada desde agosto de 2023. E a ideia de demolição levantada pela atual gestão, de Evandro Leitão (PT), já havia sido cogitada no governo do ex-prefeito José Sarto (PDT). 

No início de agosto, questionada pelo Diário do Nordeste, a Prefeitura confirmou que em 2025 solicitou “pareceres técnicos de vários órgãos” sobre a situação da ponte e que projetos de requalificação do espaço “estão em análise”. Na época não houve detalhamento sobre quais são essas ideias, tampouco elas chegaram a ser divulgadas posteriormente no decorrer deste mês. 

Valores que a Ponte Velha agrega

Quando se fala de um patrimônio como as características da Ponte Velha, aborda-se alguns valores, como: documental, afetivo e simbólico, destaca o arquiteto e urbanista, pesquisador no Laboratório de Estudos da Habitação da UFC (Lehab-UFC) e professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unichristus, Marcelo Capasso. 

De acordo com ele, a Ponte tem “notadamente um valor que é documental para a história da cidade. Fortaleza se consolidou em torno de um porto. Esse é  primeiro porto da cidade e essa é uma estrutura que documenta o próprio processo de consolidação urbana de Fortaleza enquanto capital, porto principal do Ceará. Uma estrutura do início do Século XX, não é a primeira versão dela mas é a que nos chegou”. 

Foto: Fabiane de Paula

Marcelo reforça que a Ponte Velha, junto a um conjunto de edificações e elementos construídos na Praia de Iracema e no entorno do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, reiteram a existência do porto sendo talvez “um dos mais emblemáticos” dentre esses patrimônios, em sua avaliação. 

Outro destaque é o valor afetivo que, conforme o professor, “precisa ser melhor mapeado”, visto que há uma relação da população que mora ao redor da ponte com o bem, que hoje se apresenta em forma de ruína.

Além disso, acrescenta, há valor como elemento de configuração de imagem do lugar, de identidade. “Há uma apropriação da ponte como elemento simbólico da paisagem”, completa. 

Foto: Ismael Soares

A iniciativa de preservação dos bens não está diretamente ligada a que eles sejam tombados. A preservação, principalmente hoje, não se insere em bens isolados, mas que tenham relação com o entorno, com o conjunto da paisagem.

O arquiteto, urbanista e restaurador, Robledo Valente Duarte, reforça que “a ponte metálica atualmente é o único testemunho da memória de nossa antiga infraestrutura portuária, daí seu valor de preservação”. Ele também ressalta o “papel” da Ponte inserida na paisagem, “como se fosse incorporado a elementos da natureza. Sua falta, traz uma grande lacuna no entorno construtivo que chamamos de paisagem cultural. Nesse caso específico, um equilíbrio entre a natureza e a mão transformadora humana”.

No Ceará, há exemplos de preservação de ruínas devido à significativa relevância para a história social. Em Fortaleza, a Casa José de Alencar, no bairro que também leva o nome do escritor, guarda as ruínas do 1º engenho a vapor do Ceará, construído em meados de 1830. O conjunto de bens é tombado pelo Iphan e as ruínas podem ser visitadas e contempladas pelo público. 

Movimento semelhante ocorre na cidade de Senador Pompeu, a cerca de 270 km de Fortaleza. Em 2022, o Governo do Estado tombou o Campo do Patu, um dos espaços físicos no Estado que serviu de campo de concentração, entre 1932 e 1933, para a aprisionamento de retirantes da seca, os impedindo de chegar na capital. 

No Campo do Patu há uma série de edificações tombadas e também ruínas que preservam os vestígios físicos de um dos episódios mais tristes e emblemáticos da história do Brasil. Com o tombamento, há um compromisso com a preservação desses espaços, ainda que alguns estejam em ruínas e tenham mais um caráter de memória e contemplativo. 

O que pode ser feito?

Na avaliação do pesquisador Marcelo Capasso, o processo de decisão do que vai ser feito em relação ao bem é muito mais político do que técnico e, por isso, é necessário que a gestão atue em interlocução com a participação das pessoas na decisão do que será feito. 

“Vai muito da luta de quem vai defender a ponte, dos moradores, do ativismo. No sentido de que essa ponte seja requalificada para minimamente permitir, se não puder mais ser utilizada como elemento de lazer ativo, que possa ser reestruturada para ser usada como elemento de contemplação”, aponta.

Diante da atual condição da Ponte Velha, ele aponta que uma obra que pode ser feita é: uma demolição assistida de algumas partes - como o pavilhão do meio - mesmo que depois essas partes sejam reconstruídas.

“Em termos gerais, esse tipo de obra é de consolidação estrutural. Por ser uma estrutura toda de concreto armado, é preciso repor ferro, repor concreto nas partes para que ela se consolide mesmo que seja com o aspecto de ruína para estancar o processo de degradação e arruinamento”, indica Marcelo. 

O professor também ilustra que no caso da Ponte dos Ingleses - também na Praia de Iracema - foram feitos alguns processos de consolidação estrutural das colunas da década de 1990, e uma demolição do antigo piso, o que, neste último caso, para Marcelo, é contraditório. “E deixaram uma parte totalmente arruinada para dentro e está lá aparente para ser visto. E a Ponte continua sendo utilizada para lazer”, completa. 

Ele também explica que o restauro, ao pé da letra, pressupõe uma recomposição das partes no sentido até de estilo, e a ponte não é uma obra de arquitetura propriamente e sim uma obra de infraestrutura. “Existe uma possibilidade de fazer essa consolidação estrutural e isso vai depender muito mais de um interesse político para fazer isso”, acrescenta.  

Foto: Fabiane de Paula

O arquiteto Robledo Duarte, reitera que a tecnologia construtiva na atualidade somada a vontade política de preservação de bens, pode “trazer nova vida para o bem”. Ele também aponta a consolidação da estrutura como um caminho e indica que pode ser criada “uma passarela para que nossa ponte tenha uma nova fruição do ponto de vista turístico, histórico e de lazer”. 

Ele também completa que a estruturação de um museu a céu aberto, envolvendo bens que vão do Poço da Draga à Estação das Artes, poderia ser uma alternativa.

“Requalificando a Ponte Metálica e algumas das edificações que estão no trecho citado, podemos ter um acervo contando a história de nossa cidade, tanto do ponto de vista imaterial e material, capitalizando essa intervenção dentro do plano turístico de Fortaleza, que não pode ser apenas a Praia do Futuro ou a Beira-Mar”, afirma Robledo.

Robledo também pondera que outra opção a ser considerada pela Prefeitura, é a realização de um concurso de arquitetura de projetos para a ponte velha. 

Tombamento é um caminho?

O reconhecimento do bem como patrimônio é outro caminho que pode ser feito nesse processo. O Conselheiro Estadual do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU-CE), Diego Zaranza, relembra que existem três esferas que podem fazer o tombamento da Ponte Velha, a saber: no município, a Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (Secultfor); no Estado, a Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult) e; na federal, o Iphan. 

Foto: Ismael Saores

"Considero que a ponte velha tem relevância nessas três esferas e me admira um pouco o não tombamento em nenhuma delas", destaca ele e relembra a relevância do bem: “O porto transformou a capital cearense em um grande polo econômico. Então, como desvencilhar a simbologia dessa ponte como um marco econômico da cidade que aumentou consideravelmente a expansão da cidade”. 

Diego também afirma que não é impossível haver o tombo sob uma ruína, mas, pondera: “no momento em que você tem um tombo sob uma ruína, tem algumas particularidades. Aquilo ali deveria ser preservado. Será que isolar aquele local e ninguém se aproximar é adequado?”.

Na avaliação do arquiteto, um caminho possível e adequado é a recuperação, por meio de uma reforma, mantendo as características que ela tinha e permitindo o uso da população de forma segura. Ele reforça que “como todo projeto arquitetônico e urbanístico, a primeira pesquisa deve começar com consulta à população que usa o local. Com base nessas informações se deve iniciar um projeto”. 

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