Fichas, coleção de cartões e filas: como o orelhão marcou gerações no Ceará

Telefones públicos deixaram de ser obrigatórios em boa parte do país e começam a ser extintos.

Escrito por
Clarice Nascimento clarice.nascimento@svm.com.br
Fotos de arquivo de 1982 mostram orelhões da Teleceará em Fortaleza. Imagens registram pedestres e uma criança usando os aparelhos em calçadas de mosaico português.
Legenda: Na primeira imagem, o orelhão adaptado para pessoas com deficiência. Na segunda, os orelhões duplos instalados na Praça do Ferreira, local de Fortaleza que possuía vários equipamentos devido à aglomeração de pessoas.
Foto: Augusto César/Cedoc/SVM

Entre os anos 1970 e 2000, eles eram indispensáveis para a comunicação do país. Presentes nas ruas, calçadas, praças e terminais de ônibus do Brasil afora, os telefones de uso público (TUP) serviam para conectar as pessoas numa época em que a telefonia móvel ainda era rara. 

Na última década, eles foram perdendo a força e se tornando obsoletos, primeiro pelo barateamento e a expansão dos telefones fixos, depois pelo aumento exponencial dos celulares e pela popularização da internet. 

A partir de 2026, os orelhões deixarão de existir obrigatoriamente em boa parte do Brasil após o fim da concessão da telefonia fixa. No Ceará, eles permanecerão ativos até 2028 em 123 cidades onde não há rede de celular disponível. 

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A remoção desses equipamentos não só altera paisagens urbanas e rurais do país como também revisitam o sentimento de nostalgia e saudade naqueles que os utilizaram. Memórias e lembranças do tempo que eles eram a principal — e às vezes única — forma de comunicação. 

Aos 18 anos, Patrícia Barroso saiu de Itapipoca, na Região Norte do Ceará, com destino à Fortaleza para prestar o vestibular da Universidade Federal do Ceará (UFC). Na época em que o resultado do concurso era divulgado pelas ondas do rádio, ela ouviu seu nome anunciado entre os aprovados para o curso de Agronomia. 

“Quando saiu meu nome, fiquei vibrando, pulando de alegria. Queria avisar para o meu avô, então saí correndo na avenida Tristão Gonçalves atrás de um orelhão para ligar para o posto telefônico de Ipu, um distrito da nossa cidade. Quem atendeu foi a dona Fátima, a responsável pelo posto, e passou o recado para o meu avô”, relembra. 

Hoje, aos 42 anos, a assessora técnica reforça a importância do equipamento para criar e manter redes de contato da Capital ao interior do Estado mesmo com a distância física. “Na época, a gente não usava celular, não tinha condições de ter um. Eu usava o orelhão para falar com minha família lá de Itapipoca”, afirma. 

Os orelhões também ligavam famílias que viviam mais longe, como a da professora Nilda Lacerda, 53 anos. Natural do Piauí, ela veio morar no Ceará aos 18 anos e fincou raízes no bairro Messejana, em Fortaleza. Para se comunicar com a mãe, Rosa, Nilda usava um aparelho público que ficava a 50 metros de sua casa. 

“Minha mãe morava no interior do Piauí e o telefone ficava a uns 100 metros da casa dela. Eu ligava de um orelhão para outro, usando as fichas. Alguém atendia, pegava o recado e ia lá chamar ela. Eu desligava, depois ligava de novo e minha mãe já estava lá esperando. Tinha vezes também que a gente marcava um dia e horário para ligar”, conta. 

Uma mulher está usando um telefone público. O aparelho está em seu ouvido e as mãos no teclado.
Legenda: Em 2024, a professora Nilda voltou à cidade natal e encontrou o orelhão que a mãe utilizava para fazer as ligações.
Foto: Arquivo Pessoal.

Fichas e cartões 

Inicialmente, os orelhões funcionavam por meio de fichas compradas em bancas de jornais, padarias ou mercearias. Elas davam direito a 3 minutos para ligações locais e cerca de 30 segundo para as chamadas interurbanas. 

Esse tempo era marcado pela queda das fichas no orelhão. Um sinal avisava que estava próximo do fim e mais fichas podiam ser inseridas para continuar a conversa. Foi daí que surgiu, por exemplo, a expressão “cair a ficha”. 

Para burlar esse mecanismo, as pessoas encontravam ‘gambiarras’. Nilda conta que costumava usar 10 fichas para fazer uma ligação interestadual. “Depois de muitos anos, eu aprendi uma técnica de segurar um número para a chamada durar mais tempo. Passei a comprar duas ou três fichar e continuava nessa ligação quase infinita”, relembra. 

O bairro da professora recebeu o segundo orelhão de Fortaleza em 1948. O primeiro foi inaugurado, no mesmo ano, no bairro Alto da Balança, por meio do prefeito a época Acrísio Moreira da Rocha. 

Fac-símile do Diário do Nordeste.
Legenda: Reportagem do Diário do Nordeste, publicada em 1991, anuncia a exclusão das fichas em detrimento dos cartões telefônicos e o início das ligações a cobrar.
Foto: Cedoc/SVM.

Em 1992, em meio a Eco-92, as fichas de orelhão foram substituídas por cartões telefônicos devido aos custos de manutenção, recolhimento dos objetos e vandalismo. O preço deles era determinado pela quantidade de créditos, cujo mínimo era 20. Cada crédito permitia dois minutos de conversa para um telefone fixo local.

Os primeiros orelhões do formato de cartão foram inaugurados em Fortaleza de forma experimental em locais como no North Shopping, na Avenida Bezerra de Menezes; no Terminal Rodoviário Engenheiro João Tomé, na Av. Deputado Oswaldo Studart e no Center Um, na Av. Santos Dumont.

Além da usabilidade, os cartões ganharam o status de colecionáveis devido aos temas variados, ilustrações diferentes e à facilidade de compra. Esse colecionismo ganhou até um termo: telecartofilia. 

Valor histórico

Símbolo nacional, os telefones de uso público representam o “processo de construção da comunicação à distância no Brasil”, conforme explica o professor e mestre em História, PA Damasceno. “Ele era uma forma de garantir uma comunicação rápida e acessível a quem não tinha condições”, afirma. 

Quando surgiram, os orelhões começaram a ser instalados em locais onde fossem mais úteis, ou seja, onde havia um aglomerado populacional. Primeiro, eles chegaram nas praças mais importantes e depois foram se popularizando. No interior, os telefones costumavam ficar nas praças ou em postos, e as pessoas faziam filas para uma ligação. 

Fac-símile do Diário do Nordeste.
Legenda: Fac-símile do Diário do Nordeste. Reportagem de 1998 mostrava a quantidade de orelhões em Fortaleza.
Foto: Cedoc/SVM.

A importância deles era tão grande que existia até solenidade de inauguração com fita decorativa e balões — o que aconteceu em Caririaçu, na região Sul do Estado, em 2012. 

Foi a função social dos orelhões que fez ele estar tão presente na memória coletiva do país, bem como seu design originalmente brasileiro.

A ideia de criar um protetor para telefones públicos que servissem como solução de acústica e privacidade partiu da artista plástica asiático-brasileira Chu Ming Silveira, quando ela chefiava o Departamento de Projetos da Companhia Telefônica Brasileira (CTB) em 1971. 

“Hoje, a gente vê o cartaz de O Agente Secreto com um orelhão amarelo. Isso é uma marca estética muito forte. Tinha cidades turísticas, por exemplo, que o orelhão tinha o formato de um caju, um símbolo local”, relembra. 

O ‘bem usual’ se torna um ‘bem de valor simbólico’. Mas, com a existência decaindo progressivamente, vai perdendo espaço nas novas gerações. Hoje, ele explica que a juventude, principalmente aqueles que nasceram após os anos 2000, não possuem lembranças ou até mesmo uma memória visual dos orelhões.

Desde 2020, os equipamentos já vinham reduzindo sua presença nas zonas urbanas e rurais do Brasil afora. Dados da Anatel mostra que, em 2020, eram 9.377 telefones públicos ativos ou em manutenção no Ceará — número que já ultrapassou a marca de 50 mil nos anos 2000. 

A queda drástica da quantidade de aparelhos aconteceu no ano de 2024. Na passagem de novembro para dezembro daquele ano, houve uma redução de 5.417 para 1.727.

Esse foi o mês em que a Anatel aprovou o termo de adaptação da concessão da telefonia fixa da Oi para o regime de autorização. Com isso, começava a cair a obrigatoriedade de conservar os orelhões mantidos pela empresa no país. 

Para Damasceno, o cenário atual de declínio não pode desvalorizar a importância que os aparelhos tiveram no passado. “O símbolo do orelhão é a cara do Brasil dos anos 70, 80 e 90. Ele nunca vai perder isso. Quem viveu isso, não vai esquecer”, afirma. 

Fotos de arquivo de 1982 mostram orelhões da Teleceará em Fortaleza. Imagens registram pedestres e uma criança usando os aparelhos em calçadas de mosaico português.
Legenda: Na primeira imagem, o orelhão adaptado para pessoas com deficiência. Na segunda, os orelhões duplos instalados na Praça do Ferreira, local de Fortaleza que possuía vários equipamentos devido à aglomeração de pessoas.
Foto: Augusto César/Cedoc/SVM

A medida mais moderna adotada nas cidades brasileiras, que pode ser comparado à função dos orelhões, foi a criação dos Wi-Fi públicos nas praças. Assim como os telefones públicos, possibilitam a conexão de pessoas e dão um indicativo de “espaço de comunicação” aos locais. No entanto, explica o historiador, eles não possuem a intervenção estética ou física do orelhão. 

“Uma praça com o Wi-Fi liberado exerce hoje a mesma função dos telefones públicos, mesmo sem a estética e sem o espaço analógico da conexão física. Ele não consegue exercer esse valor simbólico porque, apesar de ser a comunicação, o wi-fi não é uma intervenção urbana notória”, afirma. 

Em um momento de resgate de símbolos históricos, como o crescimento dos vinis e das câmeras analógicas, é possível o orelhão também passe por essa reciclagem, afirma Damasceno. 

“Vemos o pessoal reutilizando a carcaça em formato de casca de ovo para fazer balanços, para fazer obras de arte. É um ressignificado estético de algo que tinha um exercício funcional. Na história, isso é muito comum porque demonstra a própria evolução e transformação da sociedade”
PA Damasceno
professor e mestre em História

Por exemplo, ele pode ser usado em como artigos de decoração em bares ou restaurantes, ganhando um significado de memória. “Só que o valor usual dele não pode mais ser retratado porque hoje é outro mundo, a comunicação se transformou radicalmente”, contrapõe. “Não dá para pensar que o Poder Público vai investir numa requalificação desses orelhões. O mundo mudou, mas é importante guardar essa memória”, completa.

 

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